Greve de árbitros no México tem êxito, e atletas são suspensos por um ano

Por Luís Curro

No México, esta semana marcou uma vitória para a arbitragem. E para a civilidade nos gramados.

Uma decisão da Federação Mexicana de Futebol, depois de a categoria ter decretado uma greve que paralisou o campeonato da primeira divisão do país, dará, ao menos isso é esperado, mais segurança aos juízes durante as partidas.

Os árbitros mexicanos suspenderam as atividades na sexta-feira passada, dia 10, devido a acontecimentos dias antes na Copa do México.

O motivo: dois juízes sofreram agressões físicas, em partidas diferentes, ambas em momentos de reclamação dos atletas.

O zagueiro Pablo Aguilar, do América, deu uma cabeçada (de leve) no árbitro Fernando Torres e recebeu o cartão vermelho. O atacante Enrique Triverio, do Toluca, empurrou (de leve) o árbitro Miguel Flores e foi expulso.

Sendo “de leve” ou não, foram agressões, claramente.

E o regulamento da federação do país para a temporada 2017/2018 estabelece, para casos de agressão, que o jogador seja suspenso por um ano.

Não foi o que aconteceu inicialmente. A pena para Triverio foi de oito jogos; a para Aguilar, de dez.

Pablo Aguilar, do América, mostra seu vigor ao marcar Cauteruccio, do Cruz Azul, em partida do Campeonato Mexicano no estádio Azteca (Alfredo Estrella – 25.fev.2017/AFP)

Os juízes não aceitaram, consideraram brandas as punições. E não entraram em campo na rodada do fim de semana passado.

O protesto surtiu efeito. As penas foram revistas, e os atletas, suspensos por 360 dias. Até onde eu sei, as mais severas sanções no futebol por casos de agressão.

Considero o ocorrido um marco no futebol. A atitude dos árbitros mexicanos mostra que aquele velho ditado, “a união faz a força”, funciona, e tem de servir de exemplo para os seus colegas de outros países, especialmente na América do Sul.

Não é nada incomum haver nas partidas reclamações exacerbadas contra marcações da arbitragem.

Jogo sim, jogo sim, jogadores “partem para cima” do juiz, a fim de intimidá-lo. Formam aquele “bolinho”. E existe o contato: com as mãos, com os ombros, com o peito… Intimidado, geralmente o árbitro recua, enquanto, instintivamente, tenta se proteger de avanços brutais.

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Nem vou mencionar as agressões verbais, que até parecem menores em comparação com as físicas, apesar se serem igualmente graves. Ao redor do campo, nas arquibancadas, a torcida colabora para ampliar a tensão: no cerco ao juiz, grita, com gosto, “filho da p…, filho da p…”.

E, com raríssimas exceções, fica por isso mesmo. Se o árbitro relata na súmula o ocorrido, tudo indica que ninguém faz nada, que não há julgamentos. Ou, se eles ocorrem no âmbito da Justiça esportiva, são meras formalidades, pois os jogadores saem ilesos.

Mas não no México. Não mais. Cansados de serem pressionados jogo após jogo, os árbitros cruzaram os braços contra a falta de impunidade para a violência. E o argentino Triverio e o paraguaio Aguilar responderão aos seus atos com a prolongada inatividade.

Os jogadores, até a conclusão deste texto, não haviam se pronunciado. A alternativa que eles têm para tentar reverter a punição é recorrer à Corte de Arbitragem do Esporte.

Enrique Triverio, do Toluca, terá de cumprir um ano de suspensão por ter agredido um árbitro no México (Maria Calls – 11.fev.2016/AFP)

“Com essa decisão, os verdadeiros vencedores são o futebol mexicano e os seus torcedores. A unificação do futebol em todo o país e o compromisso de todos os que estão envolvidos neste esporte devem ser um exemplo para que o respeito e o equilíbrio necessários em nossa sociedade aumentem”, afirmou em comunicado a associação dos árbitros do México. “A partir deste momento, estamos retomando as nossas atividades nos campos.”

O Mexicano, assim, volta à normalidade com Tijuana x Santos Laguna, nesta noite.

Vale ressaltar que os árbitros erram, jogo sim, jogo sim. Erram muito, tanto que discute-se cada vez mais introduzir tecnologias que os ajudem.

Porém os maus árbitros devem ser julgados não pelos jogadores e sim pela comissão de arbitragem, que tem o poder de suspender os que falham tecnicamente nas partidas – e isso deve ser feito, em prol da credibilidade.

O certo é que nenhum erro justifica uma agressão, nem verbal nem física – nem no futebol, nem em outro ambiente. Agredir alguém não é ser civilizado, e todos queremos ser civilizados, não é?

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Em tempo 1: No Brasil, o Regulamento Geral de Competições da Confederação Brasileira de Futebol não prevê punições ao jogador por ofensas ou agressões ao árbitro. A assessoria de comunicação da CBF esclarece que “todas as ocorrências no campo de jogo são relatadas em súmula e encaminhadas ao STJD”, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva. Em tese, se há uma agressão, o atleta vai a julgamento e é aplicado o CBJD (Código Brasileiro de Justiça Desportiva), cujo artigo 185 afirma que a pena por agressão física a um árbitro ou auxiliar é “suspensão de 120 a 720 dias”. Ou seja, o mínimo de quatro meses e o máximo de dois anos.   

Em tempo 2: No fim de 2016, houve um raro caso de atleta punido no país por agressão ao juiz. A Justiça esportiva suspendeu por seis meses o zagueiro Ferreira, do Guarani, pelo empurrão no árbitro Marcos Mateus Pereira . O jogo, contra o Boa Esporte, valia pela Série C (terceira divisão) do Brasileiro.