Na onda do ‘brexit’, torcedores do Arsenal pedem o ‘wexit’ de treinador há 21 anos no time

Por Luís Curro

Uma parte da torcida do Arsenal está farta de Arsène Wenger. Não é de hoje, diga-se.

Mas os protestos contra a permanência do treinador francês no clube de Londres se intensificam.

O treinador Arsène Wenger, que comanda o Arsenal desde 1996 (Kirsty Wigglesworth – 7.mar.2017/Associated Press)

Nas duas mais recentes partidas do time no Emirates Stadium, a casa dos “Gunners” (contra Bayern de Munique, pela Champions League, e Lincoln, pela Copa da Inglaterra), torcedores desfilaram nos arredores da arena com faixas e cartazes de protesto contra Wenger.

Aproveitando a onda do ‘brexit’, que é o processo de saída do Reino Unido da União Europeia, alguns fãs exibiram a mensagem “wexit”.

Exit é saída, e o W é de Wenger. Em bom português: “Fora, Wenger”.

Quem acompanha o Arsenal sabe a motivação dessa campanha: os invariáveis fiascos.

O time tem talento, joga um futebol vistoso, empolga, dá momentos de alegria e de esperança aos torcedores, mas… chegar ao título da Premier League, não chega faz muito tempo: 13 anos. A última vez foi em 2004.

Nesse intervalo, outra equipe londrina, o Chelsea, triunfou quatro vezes; o Manchester United, cinco; o Manchester City, duas; e até o pequeno Leicester alcançou o topo (é o atual campeão).

Antes de Arsenal 5 x 0 Lincoln, pela Copa da Inglaterra, cartaz traz a mensagem ‘Arsène, o 4º lugar não é um troféu – Arsenal FC, não Arsène FC’, e outro exibe a palavra ‘wexit’ (Ian Kington – 11.mar.2017/AFP)

Wenger está no comando do Arsenal faz 21 anos e conquistou títulos importantes: três Campeonatos Ingleses (1997, 2002 e 2004, este último sem perder nenhum jogo), seis Copas da Inglaterra (1998, 2002, 2003, 2005, 2014 e 2015) e seis Supercopas da Inglaterra (1998, 1999, 2002, 2004, 2014 e 2015).

Nas últimas três temporadas, quatro troféus. Só que a Copa ou a Supercopa não têm sido suficientes para grande parcela dos fãs do Arsenal. Além do jejum no Inglês, o Arsenal, ano após ano, naufraga na Liga dos Campeões da Europa, uma conquista que o clube não tem.

Novamente, a comparação com os rivais britânicos mina Wenger.

Desde a chegada dele aos Gunners, em 1996, o máximo obtido na Champions League foi o vice-campeonato, em 2006. O Man United ganhou duas vezes (1999 e 2008), e o Liverpool (2005) e o Chelsea (2012), uma cada um.

Hoje, a equipe que veste vermelho, além de estar fora do páreo na disputa pela Premier League (são 16 pontos de diferença para o líder, o Chelsea, virtual campeão), corre risco de não se classificar para a Champions – campeonato do qual foi eliminado nas oitavas de final ao levar duas surras do Bayern de Munique: 5 a 1 na Alemanha, outro 5 a 1 na Inglaterra.

‘Não renovem o contrato’ de Wenger; fãs dos Gunners protestam perto do estádio do clube no dia de Arsenal 1 x 5 Bayern, jogo que eliminou o time inglês da Champions League (Stefan Wermuth – 7.mar.2017/Reuters)

O Arsenal está em quinto lugar no Inglês, a cinco pontos do Liverpool, e só os quatro primeiros obtêm a vaga. Seria a primeira vez em 16 anos que o Arsenal não disputaria o mais badalado interclubes do planeta. Desde 2000/2001, sempre participou.

Wenger tem uma história longa e bonita no Arsenal, porém parece claro que está na hora de abrir espaço para um novo nome. Com ele, o clube não tem sido capaz de chegar aonde a torcida quer.

O contrato de Wenger com o Arsenal acaba daqui a dois meses e meio. A diretoria não se pronunciou a respeito de uma renovação, e o treinador não considera sua era encerrada.

Porém o clima, dia após dia, torna-se desfavorável a ele, nebuloso, e a chance de o sol reaparecer é mínima. Wenger deveria de concentrar em sair por cima, e não em prolongar uma situação constrangedora, de constante e crescente insatisfação ao seu redor.

O que é sair por cima?

Lutar para classificar a equipe para a Champions – ainda restam 12 partidas no Inglês, e esse objetivo é possível. E conquistar a Copa da Inglaterra. É semifinalista e duelará com o Manchester City de Pep Guardiola no dia 22 de abril por uma vaga na decisão, contra Chelsea ou Tottenham.

Seria o melhor “grand finale” no Arsenal para o francês de 67 anos.

Wenger e Gilberto Silva, então com 25 anos, na apresentação do volante no Arsenal (Stuart Macfarlane – 28.jul.2002/AFP)

Em tempo: Campeão mundial com a seleção brasileira em 2002, o volante Gilberto Silva, que defendeu o Arsenal de Arsène Wenger entre 2002 e 2009 e hoje está aposentado, pronunciou-se a respeito da situação de seu ex-comandante. “Chegou a hora”, decretou ao jornal “Sport 360°”, dos Emirados Árabes Unidos. Para Gilberto Silva, Wenger “não mudou seu jeito de trabalhar, no qual ele acredita”, e não tem como competir com a nova geração de treinadores da Premier League. “Eles são mais jovens e estão motivados. Têm energia de sobra para encontrar meios de derrotar Wenger.” Escrevo o que o brasileiro quis dizer, mas não disse: Wenger está ultrapassado.