Nem liderança folgada salva treinador do Olympiacos da demissão

Por Luís Curro

Há casos no futebol em que é difícil entender a demissão de um treinador.

A diretoria de cada clube é soberana para decidir o que considera melhor para o presente e para o futuro da agremiação, só que em certas ocasiões custo a compreender o “timing”.

Eis dois exemplos recentes, um no Brasil e outro no exterior.

Na Inglaterra, o italiano Claudio Ranieri, que conduziu o modesto Leicester ao inédito título do Campeonato Inglês na temporada 2015/2016, recebeu o bilhete azul no mês passado.

É verdade que a equipe vinha ladeira abaixo na atual Premier League, passando a correr risco de rebaixamento, só que ainda estava viva em um campeonato muito mais importante que o Inglês: a Liga dos Campeões da Europa.

No jogo de ida das oitavas de final da Champions League, no dia 22 do mês passado, o Leicester (que na primeira fase da competição ganhou quatro jogos, empatou um e perdeu um, chegando em primeiro lugar em seu grupo) foi à Espanha e acabou derrotado, por 2 a 1, pelo Sevilla.

Resultado ruim, porém perfeitamente reversível na partida de volta, agendada para a semana que vem (14 de março).

O dono do Leicester, um empresário tailandês, não quis esperar. No dia seguinte ao revés, demitiu Ranieri, que agora está à espera de ofertas de clubes e/ou seleções.

Torcedores do Leicester com mensagem de agradecimento a Claudio Ranieri no primeiro jogo do time depois da demissão do treinador ( (Nick Potts – 27.fev.2017/PA via Associated Press)

Injustiça? Já escrevi que desconsidero esse fator no futebol. No caso de Ranieri, tem a ver com respeito e consideração.

Pelo histórico do italiano, por ter colocado o desconhecido Leicester no mapa do futebol mundial, ele merecia um tratamento melhor. Que ao menos esperassem a queda na Champions, se é que ela vai acontecer.

Depois da saída de Ranieri, o time ganhou duas partidas pelo Inglês sob o comando do interino Craig Shakespeare e se distanciou da degola. Muitos vão dizer, muitos já disseram: “Viu, a culpa era do treinador, os jogadores não o queriam mais, a relação estava desgastada”.

Qualquer relacionamento está sujeito ao desgaste, mas eu não via corpo mole de ninguém na equipe. Tanto que, em Sevilha, com 2 a 0 de desvantagem, o Leicester foi atrás de um gol que pode se mostrar salvador. Se a equipe quisesse derrubar o técnico, teria levado logo uma goleada.

Era bem possível que, com Ranieri, a recuperação no Inglês também tivesse ocorrido – a distância agora para a zona do descenso é de cinco pontos, com 11 jogos por disputar.

No Brasil, no final do ano passado, o Grêmio, comandado por Renato Gaúcho, e o Atlético-MG, dirigido por Marcelo Oliveira, foram os finalistas da Copa do Brasil.

Só chegar à decisão já é um feito. Considero a competição, disputada em fases eliminatórias, bastante desafiadora.

Jogo 1, em Belo Horizonte (Mineirão), no dia 23 de novembro: Atlético-MG 1 x 3 Grêmio.

No dia seguinte à derrota, o Galo mandou embora Marcelo Oliveira, que levara o clube não apenas a essa decisão nacional como à quarta colocação no Campeonato Brasileiro, posição que assegurava participação na Libertadores-2017.

De nada adiantou o currículo do treinador, campeão da Copa do Brasil-2015 com o Palmeiras e dos Brasileiros de 2013 e 2014 com o Cruzeiro.

De nada adiantou o retrato do jogo, que poderia ter tido outra história se 1) Robinho tivesse aberto o placar para o Atlético (perdeu gol feito com 0 a 0 no placar); 2) Júnior Urso tivesse empatado (com 0 a 1, desperdiçou chance cara a cara com Marcelo Grohe, que defendeu); 3) Lucas Pratto tivesse empatado (ainda com 0 a 1, chutou da entrada da área e por pouco a bola não entrou).

De nada adiantou ainda haver o jogo de volta. Difícil uma virada? Sem dúvida, mas poderia ocorrer, por que não? No papel, as equipes se equivaliam. Oliveira deveria ter ido até o fim, porém os dirigentes do Atlético não quiseram.

O que esperavam? Que Diogo Giacomini, que assumiu interinamente, fizesse mágica na Arena do Grêmio?

Mesmo com a finalíssima sendo adiada em uma semana devido à tragédia com o time da Chapecoense (que paralisou o futebol no Brasil), não era esperado, e não aconteceu.

Jogo 2, em Porto Alegre, no dia 7 de dezembro: 1 a 1, Grêmio campeão. Ao Galo restou o consolo de seu gol ter sido um gol que Pelé não fez.

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Citei os casos de Ranieri e de Oliveira para apresentar um terceiro, recém-saído do forno.

Nesta segunda (6), o Olympiacos demitiu Paulo Bento, que treinou o Cruzeiro em 2016. O português foi dispensado pelo clube mineiro no fim de julho, com a equipe na zona do rebaixamento – ao menos havia um motivo justificável.

Na Grécia, entretanto, a situação era distinta. O Olympiacos, que contratou Paulo Bento em agosto, liderava o Grego com sete pontos de vantagem sobre o mais próximo perseguidor, o Panionios. Uma bela folga após 22 de 30 rodadas.

No domingo (5), contudo, o time sofreu a terceira derrota consecutiva no campeonato. E a diretoria do maior campeão grego (28 títulos) nem esperou a partida do Panionios, no dia seguinte (empate por 1 a 1, que manteve a dianteira do time de Pireus em seis pontos). Paulo Bento já era.

Isso depois de acumular 27 vitórias, 8 empates e 6 derrotas, incluindo o Grego, a Copa da Grécia, a Liga Europa e um amistoso. Mais: o Olympiacos, além da folga na ponta do Grego, está na disputa da copa grega e da liga europeia.

O português Paulo Bento, demitido do Olympiakos mesmo estando a equipe na liderança folgada do Campeonato Grego (Yorgos Karahalis – 6.nov.2016/Associated Press)

Enfim, Paulo Bento não tinha fracassado em nada ainda no Olympiacos. Só que um trio de derrotas em série se mostrou mais forte que um trabalho bem feito.

Se nem liderar o campeonato nacional e se manter na disputa de outras duas competições servem para segurar um treinador, o que esperar em relação à permanência dos demais?

No mundo da bola, a profissão de técnico é das que mais carecem de gratidão.

Em um piscar de olhos, a torcida o considera “burro” – e xinga bem alto no estádio, para todo mundo ouvir, especialmente o próprio. Em outro piscar de olhos, ele está desempregado.

Em tempo 1: A questão da demissão de técnicos de clubes e ligas relevantes merece ser analisada muito mais pelos lados filosófico e emocional que pelo material. Treinadores, ao assinar contrato, geralmente impõem cláusulas de rescisão que lhes asseguram garantias financeiras no caso de dispensa antes do término do contrato.

Em tempo 2: Marcelo Oliveira, um dos treinadores mais vitoriosos no Brasil em anos recentes, está sem clube há mais de três meses. Por opção. Recusou há poucos dias oferta do Coritiba.