Demitido do Leicester, Ranieri pode assumir uma seleção, afirma empresário

Por Luís Curro

Para treinador de futebol, o passado de sucesso na profissão tem importância relativa.

Um exemplo. Luiz Felipe Scolari, treinador da seleção brasileira pentacampeã mundial na Copa de 2002 (Coreia/Japão), só teve uma nova chance de dirigir o Brasil devido a essa conquista.

Como o trabalho de Mano Menezes não convencia a CBF, a entidade que comanda o futebol no Brasil recorreu a Felipão, bem-sucedido anteriormente, para conduzir o anfitrião Brasil, na Copa de 2014, ao desejado hexa.

Não deu. Aliás, deu no que deu: 7 a 1 para a Alemanha na semifinal, a maior vergonha da história do futebol nacional.

Felipão, atualmente no comando do atual campeão chinês, foi demitido e sabe quando deve ter nova chance de comandar o escrete canarinho? No dia de São Nunca.

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O fracasso é implacável. Tem a capacidade de implodir qualquer êxito.

Vide Claudio Ranieri, considerado o responsável por um dos mais belos contos de fada do futebol – e não sou eu quem afirma isso, mas o mundo da bola, unanimemente.

O treinador de 65 anos conduziu de forma inesperada, com um jogo baseado em raça, determinação e contra-ataques mortais, o pequeno Leicester ao topo da Premier League na temporada 2015/2016.

A equipe, recheada de jogadores desconhecidos e/ou desacreditados, deixou toda a forte e muito mais rica concorrência (Chelsea, Liverpool, os dois Manchesters, Tottenham, Arsenal) para trás e se sagrou campeã do Campeonato Inglês pela primeira vez em sua história de 132 anos.

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O dócil Ranieri tinha seus métodos e fez seus atletas acreditarem que o sonho era realizável. E foi.

Porém esse sonho, segundo ele disse em comunicado depois de ter sido dispensado pelos donos do clube na quinta-feira (23), “morreu”. Sua ideia era permanecer “para sempre” no “clube que eu amo”.

Não foi possível. O futebol do Leicester perdeu ímpeto na temporada 2016/2017, mês a mês os triunfos começaram a rarear, e neste ano, o time acumulava duas vitórias, dois empates e sete derrotas.

A equipe passou a flertar com a zona de rebaixamento e foi eliminada da Copa da Inglaterra pelo Milwall, da terceira divisão.

Mesmo estando o Leicester vivo na Liga dos Campeões da Europa, nas oitavas de final (perdeu o jogo de ida para o Sevilla, na Espanha, por 2 a 1; o de volta é no dia 14 de março), a situação caseira pesou, e o empresário Vichai Srivaddhanaprabha, dono do clube e do grupo de varejo King Power, decidiu demitir Ranieri.

“Sei que algumas pessoas estão bravas, mas temos que pensar no interesse do clube a longo prazo”, afirmou o tailandês Srivaddhanaprabha (pronuncia-se Sirivadoneprébirra), e esse “temos” ele usou para se referir a ele e ao conselho do Leicester.

Srivaddhanaprabha negou com veemência que os jogadores tenham pressionado a diretoria pela saída de Ranieri, após a publicação de notícias de que o treinador perdera o chamado “controle do vestiário”, ou seja, sua ascendência sobre o time. “A decisão foi nossa. Não é justo que os atletas, que apoiaram Ranieri ferozmente, sejam acusados de deslealdade.”

Três dos principais atletas do Leicester, o goleiro Schmeichel, o meia Mahrez e o artilheiro Vardy, negaram por meio de redes sociais a versão de traição, difundida por alguns meios de comunicação, entre eles o jornal “The Sun”.

O goleiro Kasper Schmeichel, do Leicester City, coloca uma coroa em Claudio Ranieri, então treinador do time, na celebração da conquista da Premier League 2015/2016 no estádio King Power, em Leicester (Matt Dunham – 7.mai/2016/Associated Press)

Palavras do dinamarquês: “Quero agradecer a Claudio Ranieri por tudo que fez pelo Leicester e por mim. Merece grande crédito pelo que conquistou conosco. Obrigado, chefe”.

Palavras do argelino: “Grande respeito por esse homem que nos ajudou a fazer história. Você me ajudou a crescer como jogador e me deu a coragem que eu precisava”.

Palavras do inglês: “O que conseguimos juntos foi uma missão impossível. Ele acreditou em mim quando muitos não acreditavam, e por isso lhe devo imensa gratidão”.

Dá para acreditar nos jogadores? Afinal, quem viria a público se mostrar um traidor?

No que escreveu Schmeichel, há uma verdade inconteste: Ranieri merece crédito. Não só merece. Tem. O que abrirá inúmeras portas para ele.

“No verão passado (após o título do Leicester), recebemos várias propostas, mas obviamente Claudio preferiu permanecer. Agora tenho certeza de que as ofertas chegarão novamente”, declarou a “O Mundo é Uma Bola”, por e-mail, Steve Kutner, um dos empresários do treinador, que neste momento opta pelo silêncio.

Questionado se a recolocação pode ser em uma seleção, e não em um clube, Kutner deixou a possibilidade em aberto. “Talvez.”

Há um porém. Nenhuma seleção europeia de ponta está atrás de um treinador.

A Inglaterra efetivou Gareth Southgate faz pouco tempo. Itália, Espanha e Bélgica estão com novos treinadores há alguns meses.

A Alemanha continua com Joachin Löw; a França, com Didier Deschamps; e Portugal, com Fernando Santos. Quem mais periga perder o emprego é Danny Blind, da Holanda.

Assim, o mais crível é Ranieri optar por um grande clube.

Na Inglaterra, onde ele pode querer permanecer, Arsène Wenger, do Arsenal, balança não é de hoje. Não acredito que seu contrato, que vence em junho, seja renovado.

Outra opção é o Everton, clube de Liverpool que tem camisa e costuma montar bons elencos. Há rumores que apontam para a ida do atual treinador, Ronald Koeman, para o Barcelona, caso os catalães decidam dispensar Luis Enrique.

No Arsenal ou no Everton pode haver espaço, em breve, para Ranieri.

Em tempo 1: “Ele escreveu a história mais bonita da Premier League”, sentenciou o português José Mourinho, técnico do Manchester United e amigo de Claudio Ranieri, após a demissão do colega. É digna de registro essa frase do português. Mourinho foi um dos vários treinadores (como Klopp, do Liverpool, Conte, do Chelsea, e Spalletti, da Roma, entre outros) que prestaram solidariedade ao italiano.

Em tempo 2: Sob o comando do interino Craig Shakespeare, o Leicester ganhou do Liverpool nesta segunda (26) por 3 a 1 e saiu da zona do descenso na Premier League. Os gols foram de Vardy (2) e Drinkwater. Philippe Coutinho fez o do Liverpool.