Morte de torcedores em estádio de Angola é um caso de banalização da tragédia

Por Luís Curro

O estádio de futebol é um lugar em que pessoas NÃO deveriam morrer. É uma praça de esporte, um local para lazer, para confraternização entre torcedores.

Morre-se em hospitais (devido a doenças, a acidentes), morre-se nas ruas (acidentes automobilísticos, casos de violência), morre-se até em casa (infartos, AVCs). Nos estádios, deveria ser inconcebível. No máximo, fortuito.

Mas não é. Na história há vários casos de mortes de torcedores em estádios. O mais recente ocorreu nesta sexta (10), na cidade de Uíge, em Angola, país africano de língua portuguesa.

A partida era a de abertura do Campeonato Angolano, chamado de Girabola, entre o Santa Rita (mandante) e o Recreativo do Libolo, campeão em três dos últimos cinco campeonatos (2012, 2014 e 2015).

Conforme relato de uma autoridade médica, 17 torcedores morreram pisoteados, e ao menos 60 se feriram, durante tumulto na entrada do estádio 4 de Janeiro, que tem capacidade para 1.500 pessoas.

Entrada do estádio 4 de Janeiro, em Uíge, Angola (Reprodução/www.girobola.com)
Entrada do estádio 4 de Janeiro, em Uíge, Angola (Reprodução/www.girobola.com)

Uma testemunha afirmou que, com o jogo já em andamento, houve aglomeração nos portões, e torcedores (muitos sem ingressos, de acordo com o presidente do Santa Rita) começaram a forçar a passagem, gerando empurra-empurra.

Dezenas ficaram espremidos, e a segurança liberou o acesso para a “manada”. Sucederam-se o corre-corre e os “atropelamentos” que resultaram nos óbitos.

As autoridades afirmaram que vão investigar o caso, reavaliar a questão da organização, mas o que mais me chamou a atenção é o fato de a partida não ter sido interrompida. Gente morreu, gente se feriu, e a bola continuou rolando, como se o acontecido tivesse sido algo corriqueiro.

Vidas se perderam em um local de entretenimento. Não é normal, jamais pode ser. Algo está muito errado.

Um episódio desses seria digno de provocar a imediata interrupção do jogo, com o seu adiamento (ou mesmo cancelamento), e sensibilizar os dirigentes (dos clubes e do país), os esportistas (jogadores de futebol e de outros esportes), a própria população angolana.

Mas não. Ninguém se manifestou prontamente.

A partida foi jogada até o final, sem paralisações (a não ser os 15 minutos de intervalo entre os dois tempos), e o Recreativo ganhou por 1 a 0.

Impressiona. O que horroriza tanto quanto a tragédia, ou até mais que a tragédia, é a trivializar a tragédia.

Casos assim mostram que ainda falta aos humanos muita humanidade.

Torcedores acompanham em encosta o jogo entre o Santa Rita e o Recreativo (Reprodução/TPA)
Torcedores acompanham em encosta o jogo entre o Santa Rita e o Recreativo (Reprodução/TPA)

Em tempo: Ao noticiar a tragédia, a TPA (Televisão Pública de Angola) mostrou também trechos da partida. Ao notar como e onde os torcedores se instalavam no 4 de Janeiro, perguntei-me: é mesmo um estádio? Parecia um campo de várzea, com as pessoas sentadas (ou de pé) em encostas nos arredores do campo. O 4 de Janeiro possui uma arquibancada, então a conclusão (bastante óbvia) é a de que houve superlotação, com a ocupação de áreas não destinadas aos espectadores.