Time argentino se classifica na Libertadores com uniforme emprestado da seleção sub-20

Por Luís Curro

Lucchetti; Di Plácido, Bianchi, Canuto e Evangelista; Leyes; Barbona, Acosta, Aliendro e González; Zampedri.

Essa é a escalação do Atlético Tucumán, da Argentina, fundado em 1902, dono de nenhum título relevante e que faz somente neste ano sua estreia na Libertadores, o principal interclubes das Américas.

Porém na partida da noite desta terça (7), no Equador, contra o El Nacional, valendo vaga na fase de grupos do agora inchado torneio, eis os nomes nas camisas de cada atleta ao entrar no gramado do estádio Olímpico Atahualpa, em Quito: Lucchetti; Belmonte, Romero, Torres e Salazar; Ascacibar; Zaracho, Ojeda, Pereyra e Barco; Martínez.

Que esquisitice é essa?

Não foi uma esquisitice. Foi uma necessidade.

Esta é daquelas histórias surreais que de tempos em tempos o futebol oferece.

"Atlético Tucumán passa de fase na Libertadores depois de vitória memorável", afirma a Confederação Sul-Americana de futebol  (Reprodução/Twitter da Conmebol)
“Atlético Tucumán passa de fase na Libertadores depois de memorável triunfo”, afirma a Confederação Sul-Americana de futebol (Reprodução/Twitter da Conmebol)

Os jogadores eram mesmo os titulares do Atlético Tucumán.

Os nomes que cada um usou nas costas (à exceção do goleiro) eram os de atletas da seleção argentina sub-20, que emprestou os uniformes para o clube da cidade de San Miguel de Tucumán, no noroeste argentino.

A explicação, ao menos a apresentada por uma das TVs que exibiram o jogo e por sites esportivos, relato a seguir. A fonte principal é o jornal argentino “Olé”.

O Atlético Tucumán viajou da Argentina até Guayaquil, cidade equatoriana que fica no nível do mar. O planejamento era ir para Quito (a 2.900 m de altura) poucas horas antes do jogo, a fim de minimizar os efeitos da altitude.

Entretanto a delegação soube, momentos antes de embarcar, que o avião fretado da companhia chilena Mineral Airways não tinha autorização para fazer o voo. Um problema burocrático, a papelada não estava em ordem.

Os dirigentes, às pressas, conseguiram um outro avião, da Latam, e embarcaram nele os jogadores e comissão técnica com suas malas de mão, isso a 40 minutos do começo do jogo.

Não houve despacho de bagagem – não se esclareceu se por falta de tempo para fazê-lo ou se porque a aeronave, menor, não a comportava.

Quando o avião pousou em Quito, já tinham se passado 15 minutos do horário previsto para a bola começar a rolar.

A direção do El Nacional avisara que só toleraria um atraso conforme o constante do regulamento do campeonato. Se o rival não chegasse, ganharia por W.O. (ausência), o que resultaria na eliminação do visitante.

Do aeroporto ao estádio, houve um esquema especial, com o percurso liberado para o ônibus do Atlético Tucumán acelerar. E o motorista acelerou, indo a 130 km/h.

Mesmo assim, a equipe chegou depois do tempo máximo de tolerância – 45 minutos – para evitar o W.O. Esforço em vão, caso encerrado, certo?

Errado.

Por algum motivo ainda não esclarecido (possivelmente pressão política da Conmebol, a entidade que controla o futebol na América do Sul, e/ou dos detentores dos direitos de transmissão de TV e outros patrocinadores, e /ou para agradar aos torcedores que já estavam no Atahualpa), os cartolas do El Nacional recuaram e aceitaram colocar o time em campo.

Como os uniformes do elenco do Atlético estavam nas malas que não embarcaram, a solução encontrada foi acionar a AFA (Associação de Futebol Argentino), que contatou a seleção sub-20 do país, em Quito para a disputa do Sul-Americano da categoria, e solicitou o empréstimo.

Coincidentemente, o uniforme do Atlético Tucumán é parecidíssimo com o da Argentina.

Tudo estando arranjado, o jogo começou com uma hora e meia de atraso.

E, uma surpresa devido à odisseia por que os atletas passaram, o Atlético jogou melhor que o anfitrião quase o tempo todo.

O esforço e a dedicação foram recompensados aos 19 minutos do 2º tempo, quando o centroavante Zampedri, com a camisa 9 emprestada por Martínez, compatriota nove anos mais jovem, empurrou, quase sem ângulo, para o gol.

Um a zero, e nada mais. Resultado que classificou o clube argentino para a terceira rodada dos mata-matas da chamada “pré-Libertadores”.

Elenco do Atlético Tucumán, da Argentina, comemora a classificação na Libertadores em Quito (Reprodução/Twitter do Club Atlético Tucumán)
Elenco do Atlético Tucumán, da Argentina, comemora a classificação na Libertadores em Quito (Reprodução/Twitter do Club Atlético Tucumán)

Caso supere o colombiano Junior de Barranquilla (Colômbia) – em um duelo sem risco de W.O., espera-se –, se classificará para o Grupo 5 da Libertadores, que tem o Palmeiras, o Peñarol (Uruguai) e o Jorge Wilstermann (Bolívia).

Em tempo 1: Por que o goleiro Lucchetti não precisou pegar uma camisa emprestada e atuou com uma própria? Eis um mistério a ser revelado. Palpite: possivelmente levava uma peça na bagagem de mão.

Em tempo 2: A seleção argentina que emprestou o uniforme para o Atlético Tucumán joga nesta quarta (8) à noite uma partida decisiva contra o Brasil, no mesmo estádio Olímpico Atahualpa, pelo Sul-Americano que classifica para o Mundial sub-20. Espera-se que, agradecido, o clube entregue a tempo, lavadas, secas e perfumadas, as camisas para a molecada.