Hamburgo contrata mais um brasileiro campeão olímpico para tentar fugir de rebaixamento inédito

Por Luís Curro

O Hamburgo, da Alemanha, orgulha-se de ser o único clube a sempre ter disputado a divisão de elite no país.

Até o poderosíssimo Bayern de Munique, maior campeão germânico (26 títulos nacionais), caiu uma vez, em 1955.

Potência no fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, quando ganhou a Liga dos Campeões da Europa e disputou o Mundial interclubes (Taça Intercontinental) contra o Grêmio, em 1983 (vitória gremista por 2 a 1, com dois gols de Renato Gaúcho), o Hamburgo, vencedor de seis Campeonatos Alemães (o último justamente em 1983), tem agonizado recentemente.

Nas últimas três temporadas, em duas safou-se por pouco do descenso. Terminou a Bundesliga em 16º, entre 18 participantes, em 2014 e em 2015. No último campeonato, despiorou um pouco, mas permaneceu fora do top 10 (11º).

Nesta temporada, as coisas continuam mal. Em 18 jogos, são somente três vitórias, além de quatro empates e 11 derrotas, com 15 gols a favor (o segundo pior ataque) e 35 contra (a terceira pior defesa). Os 13 pontos deixam a equipe na penúltima posição, à frente apenas do Darmstadt (9 pontos).

Caso a Bundesliga terminasse hoje, o Hamburgo estaria “ineditamente” rebaixado.

É nesse cenário de caos no Hamburgo que irá se aventurar o volante Walace, que estava no… Grêmio, hoje treinado por… Renato Gaúcho (às vezes o futebol, passados anos e anos, exibe algumas curiosas intersecções).

O clube alemão o contratou por € 10 milhões (R$ 33,4 milhões).

O volante Walace, em-Grêmio, em sua apresentação no Hamburgo (Reprodução/Site do Hamburgo SV)
O volante Walace, ex-Grêmio, em sua apresentação no Hamburgo (Reprodução/Site do Hamburgo SV)

Walace é uma das recentes revelações do futebol tupiniquim e foi titular em quatro das seis partidas da seleção brasileira campeã olímpica na Rio-2016, incluindo a final. Era o único título relevante que faltava ao Brasil no futebol.

Na decisão no Maracanã, o Brasil passou pela Alemanha nos pênaltis, após 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação.

Dirigentes do Hamburgo certamente viram a partida e avaliaram com que brasileiros poderiam reforçar o time. O primeiro eles já estavam de olho havia um tempo. Douglas Santos, dez dias após o término dos Jogos cariocas, vestia a camisa 6 do clube da segunda mais populosa cidade da Alemanha (1,7 milhão de pessoas), atrás só da capital, Berlim.

O Hamburgo pagou € 7,5 milhões (R$ 25 milhões segundo o câmbio atual) pelo lateral-esquerdo de 22 anos do Atlético-MG.

Douglas Santos é titular, mas seu futebol não tem sido suficiente para tirar a equipe do sufoco.

Ciente de que agoniza, o Hamburgo, na janela de inverno para as transferências na Europa, que acaba nesta terça (31), optou por inverter uma das velhas máximas do futebol (“o ataque é a melhor defesa”) e decidiu tentar proteger-se atrás.

Contratou uma nova dupla de zaga, o grego Papadopoulos, de 24 anos (emprestado do Bayer Leverkusen) e o alemão de nacionalidade albanesa Mavraj, de 30 anos (ex-Colônia).

Nos dois primeiros jogos com eles, duas derrotas, 1 a 0 para o Wolfsburg e 3 a 1 para o Ingolstadt, dois rivais diretos na luta contra o rebaixamento.

A média de dois gols sofridos por partida não se alterou, então, se os beques não conseguem proteger o goleiro, o jeito é arranjar alguém para proteger os beques.

Esse alguém é Walace, que afirma se inspirar no volante francês Pogba, jogador que registrou a mais cara transferência da história do futebol, € 105 milhões, no ano passado (Juventus vendedora, Manchester United comprador).

O Hamburgo aposta que Walace, do alto de seu quase 1,90 m, com aproximadamente 80 kg (um físico à la Pogba) e esbanjando vitalidade aos 21 anos, seja capaz de se multiplicar na entrada da grande área defensiva, tirando de lá todas as bolas (e são dezenas por jogo) que chegarem.

E que ainda consiga se aventurar, sempre que possível, até a outra grande área, para tentar ajudar um ataque pífio, no qual atua quase isolado o esforçado havaiano Bobby Wood.

Se Walace tiver sucesso, mostrando-se um pilar na defesa e um elemento-surpresa no ataque, sendo figura central de um Hamburgo que se safe da Segundona, Casemiro (Real Madrid) e Fernandinho (Manchester City) que se cuidem.

Pois Walace será (não terá como não ser) mais do que justamente convocado por Tite para a seleção brasileira.

Em tempo: Estrela Walace (que tem os sobrenomes Souza Silva e é baiano de Salvador) já mostrou que tem. Em 2016, além do ouro olímpico, em agosto, ganhou com o Grêmio a Copa do Brasil, em dezembro.