Noticiam recorde do Real Madrid que precisa de um asterisco

Por Luís Curro

O Real Madrid é um dos maiores clubes do mundo, se não for o maior, e é dono de uma série de recordes, entre eles o de mais vezes campeão espanhol (32) e o de mais vezes campeão da Liga dos Campeões da Europa (11). Está longe, aliás, de ser alcançado em ambos.

Só que a mídia esportiva destacou nesta quinta (12), depois que os madridistas empataram fora de casa por 3 a 3 com o Sevilla pela Copa do Rei, com gol nos acréscimos do 2º tempo (Benzema), em resultado que valeu a passagem para as quartas de final, que o Real quebrou o recorde do Barcelona de maior número de jogos seguidos sem perder – seriam 40, contra 39 dos catalães.

O capitão Sergio Ramos provoca torcedores do Sevilla ao fazer o segundo gol do Real Madrid no empate por 3 a 3 (Cristina Quicler - 12.jan.2017/AFP)
O capitão Sergio Ramos provoca a torcida do Sevilla ao fazer o segundo gol do Real no empate por 3 a 3 (Cristina Quicler – 12.jan.2017/AFP)

Vi essa informação nas edições eletrônicas de veículos como “Marca”, da Espanha (“a invencibilidade do Madrid já chega a 40 partidas, um recorde no futebol espanhol”), ESPN, dos EUA (“Madrid quebrou o recorde anterior de um clube espanhol, de 39 jogos de invencibilidade em todas as competições, obtido na temporada passada pelo arquirrival Barcelona”) e BBC, da Inglaterra (“Real Madrid registra novo recorde espanhol, de 40 partidas invicto, com o gol de Benzema aos 93 minutos”). No Brasil, li o mesmo em ao menos meia dúzia de publicações.

Até o site da Uefa, a entidade que controla o futebol na Europa, publicou o acontecimento (“O Real Madrid aumentou para 40, e nove meses, o número de jogos sem perder em todas as competições, quebrando o recorde espanhol do Barcelona estabelecido em 2015/16″).

O problema é que não está correto. No dia 27 de julho do ano passado, em Ohio (EUA), o Real Madrid perdeu de 3 a 1 do Paris Saint-Germain. O jogo era válido por uma competição de pré-temporada, a International Champions Cup (ICC), e o lateral brasileiro Marcelo marcou, de pênalti, o gol da equipe merengue.

Marcelo cobra pênalti em Real Madrid 1 x 3 PSG na Internacional Championship Cup de 2016 (Reprodução - Site da ICC)
Marcelo cobra pênalti em Real Madrid 1 x 3 PSG na Internacional Championship Cup-2016 (Reprodução – Site da ICC)

Depois desse jogo, o Real não perdeu. Foram 24 vitórias e 8 empates, por ICC, Supercopa da Europa, Espanhol, Copa do Rei, Champions League e Mundial de Clubes da Fifa, além de um amistoso. Uma série invicta de 32 partidas, e não de 40.

Então, onde está o erro nos textos publicados pelos sites esportivos? Na falta de serem contabilizadas as partidas amistosas. A ICC, disputada por grandes equipes do futebol mundial, é considerada um torneio amistoso – elege um campeão para cada uma de suas etapas.

No cálculo de Uefa e companhia, são desprezados três jogos do Real Madrid pela ICC (a derrota para o PSG e as vitórias sobre Chelsea e Bayern de Munique) e o triunfo em amistoso contra o Stade de Reims (França).

Para se chegar às 40 partidas de invencibilidade noticiadas, é preciso ignorar esses quatro confrontos, incluir 11 jogos anteriores a eles (até se chegar à derrota por 2 a 0 para o alemão Wolfsburg, no dia 6 de abril, pelas quartas de final da Champions League) e os 29 jogos de caráter oficial posteriores a eles (o último, o 3 a 3 ante o Sevilla).

O problema não é a conta. É não especificar como foi feita a conta, não deixar isso claro ao leitor.

Falta um asterisco nesse recorde do Real: são 40 partidas de invencibilidade*. (*Consideradas somente as válidas por competições oficiais)

E qualquer marca com asterisco, convenhamos, perde muito de seu glamour.

Em tempo 1: A sequência do Real Madrid, independentemente do fator asterisco, é respeitável. São cinco meses e meio sem perder qualquer tipo de jogo.

Em tempo 2: A invencibilidade do Barcelona de 39 jogos durou do dia 17 de outubro de 2015 ao dia 2 de abril de 2016 (quando perdeu de 2 a 1 para, justo quem!, o Real Madrid). Foram 32 vitórias e 7 empates, em jogos pelo Espanhol, pela Copa do Rei, pela Champions League e pelo Mundial de Clubes. Não houve amistosos ou jogos pela ICC no período.