Tragédia da Chapecoense é (e será) teste entre a teoria e a prática

Por Luís Curro
Menino vestido de Índio Condá, a mascote da Chapecoense, durante tributo aos mortos no estádio do time, em Chapecó (Diego Vara - 3.dez.2016)
Menino vestido de Índio Condá, a mascote da Chapecoense, durante tributo aos mortos no estádio do time, em Chapecó (Diego Vara – 3.dez.2016)

O acidente com o voo da Chapecoense na Colômbia que deixou 71 mortos e seis sobreviventes na madrugada do dia 29 de novembro é, disparado, a notícia esportiva mais triste do ano no futebol – e uma das mais tristes da história do esporte.

Em um momento de grande abalo, o mundo esportivo, de peito aberto, solidarizou-se: #ForçaChape.

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Jogadores famosos enviaram mensagens de pesar e de apoio (clubes idem), houve minutos de silêncio antes das partidas, times jogaram vestidos de verde, atletas celebraram gols lembrando a tragédia, entre outros atos sentimentais nobres e verdadeiros. Até torcidas organizadas, rivais ferrenhas, viabilizaram o inimaginável: uniram-se.

Passados 19 dias do acontecimento, velórios e enterros realizados, homenagens prestadas em estádios e em cerimônias, a vida de todos começa a ser retomada.

O desastre sempre estará na memória de todos, de uns mais, de outros menos, porém a experiência e realidade mostram que o tempo é um remédio que, se não cura, aplaca a dor.

Tudo, de um jeito ou de outro, passa.

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A hora então é de registrar quem se propôs a ajudar a Chapecoense, que precisa mesmo de muito auxílio em sua retomada – perdeu no acidente 19 jogadores e 24 integrantes da comissão técnica.

Houve promessas e há intenções. Serão cumpridas ou levadas adiante? Ou serão esquecidas?

Ninguém, mesmo que tenha se compadecido com o ocorrido (quem não se compadeceu posso dizer que não é humano), é obrigado a colaborar com atitudes. Cada um sabe as suas condições e como e/ou quanto é possível doar. O limite da caridade e da solidariedade é muito pessoal.

Não deixa de ser, contudo, um teste entre teoria e prática. Cujas conclusões só serão conhecidas no médio prazo.

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Inicialmente, a prática. O que a Chapecoense já obteve, e quem propiciou esse ganhos?

  • Título da Copa Sul-Americana. Ponto para o Nacional de Medellín, rival da Chape na decisão da competição, que se propôs a abrir mão do troféu, e ponto para a Conmebol, que aceitou a proposta. Com o título, o time verde e branco disputará a Libertadores de 2017, ganhando status internacional e obtendo bom retorno financeiro.
  • Participação no Troféu Joan Gamper. Ponto para o Barcelona, que convidou a Chape para atuar no torneio amistoso de pré-temporada, no início do segundo semestre do próximo ano. Além da exposição internacional para equipe e jogadores, entrarão R$ 900 mil nos cofres da agremiação catarinense.

Menções honrosas ao técnico Levir Culpi, que se ofereceu via rede social para treinar de graça a Chape até o fim do Campeonato Catarinense de 2017 (a direção do clube, contudo, preferiu contratar Vagner Mancini) e ao atacante islandês Guðjohnsen, de 38 anos, ex-Barcelona, que declarou que, “se eles tiverem um lugar para mim”, defenderia o time (a ideia até agora não avançou e nada indica que irá avançar).

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Agora, a teoria. A conferir se o que se disse avançou ou se vai ou não se concretizar.

  • Empréstimo gratuito de jogadores. No mesmo dia do acidente, clubes grandes do Brasil divulgaram comunicado no qual se comprometiam a emprestar, sem custo, atletas para a temporada de 2017, a fim de reforçar um time esfacelado. Até agora, só o Cruzeiro cedeu um jogador, o desconhecido beque Douglas Grolli. Os demais, por enquanto, nada. Além disso, o mais digno seria emprestar, por alguns meses, um atleta titular, e não alguém subaproveitado.
  • Ajuda da CBF. No dia 5 de dezembro, a Confederação Brasileira de Futebol informou, segundo a agência Reuters, que será organizado um amistoso da seleção brasileira, em janeiro, contra a Colômbia, cuja renda será revertida a parentes dos mortos no acidente aéreo, além da doação de R$ 5 milhões à Chapecoense. No site oficial da entidade, entretanto, não constam essas intenções.
  • Ronaldinho Gaúcho. Assis, irmão e empresário do pentacampeão mundial, que está sem clube desde o começo do ano mas ainda não se considera um ex-jogador em atividade, disse que havia a propensão de o duas vezes melhor jogador do mundo (2004 e 2005), hoje com 36 anos, ajudar. Se não com um vínculo com a Chape, ao menos vestindo a camisa do time em amistoso(s). Foi no começo do mês. Desde então, silêncio.
  • Auxílio do governo federal. Em entrevista à rádio Bandeirantes no dia 3 de dezembro, dia do velório coletivo na Arena Condá, em Chapecó, o ministro do Esporte, Leonardo Picciani, declarou que o presidente da República, Michel Temer, agendaria uma audiência com a diretoria da Chape para “ouvir quais são as necessidades e avaliar de que forma vamos auxiliar o clube”. Pelo que se sabe, nenhuma reunião foi agendada.
  • Fundo de amparo às famílias. De acordo com Marco Aurélio Cunha, diretor do São Paulo, o presidente do clube (Leco) propôs a criação de um fundo, bancado pelas agremiações, para auxiliar os parentes das vítimas da tragédia. O dirigente disse isso no dia 30 de novembro – depois, nada mais se falou.

O passar de algumas poucas semanas trará as respostas acerca desses tópicos.

Palavras o vento leva. Atitudes o tempo eterniza. Quiçá a prática prevaleça.