Tecnologia mal entrou em cena e já precisa de ajuste

Por Luís Curro

A Fifa arriscou. Com poucos meses de testes, decidiu lançar mão da videoarbitragem no seu mais importante torneio interclubes, o Mundial adulto, disputado no Japão, com a participação dos campeões continentais mais um representante do país-sede.

De uma cabine, alguém gabaritado assistiria ao jogo pela TV e alertaria o árbitro no caso de erros em lances capitais, como gols, pênaltis e expulsões.

A tecnologia a favor do futebol. O “futecbol”. Quem pode ser contra?

Eu, desde que a ideia foi lançada, coloquei restrições, apresentando razões.

Uma delas, a principal, é esta: do mesmo jeito que o árbitro pode errar no campo, o “cara da TV”, responsável pela orientação em lances duvidosos, pode errar também, mesmo tendo a visão da jogada por vários ângulos.

Na semifinal entre Kashima Antlers, do Japão, e Atlético Nacional, da Colômbia, nesta quarta (14), em Osaka, todo cuidado deveria ser pouco no uso do artifício tecnológico. Afinal, o jogo valia nada menos que a classificação para a decisão do Mundial.

Evitar qualquer tipo de polêmica ou reclamação era altamente desejável.

Mas, porém, contudo, todavia…

Jogadores do Atlético Nacional, de Medellín,contestam o árbitro Viktor Kassai pela marcação de pênalti após lance revisado pela videoarbitragem (Kim Kyung-Hoon - 14.dez.2016/Reuters)
Jogadores do Atlético Nacional, de Medellín, contestam o árbitro Viktor Kassai pela marcação de pênalti após lance revisado em vídeo (Kim Kyung-Hoon – 14.dez.2016/Reuters)

Eram 27 minutos e 50 segundos do 1º tempo. Falta para o Kashima.

Shibasaki cobra na área, na direção de três companheiros, todos marcados por atletas do Nacional. Um deles era o lateral Daigo Nishi, que quando Shibasaki bateu na bola estava adiantado, supostamente impedido.

O juiz húngaro Viktor Kassai, de 41 anos, não marcou, pois o auxiliar não levantou a bandeira. Acertadamente, ressalte-se, pois o impedimento de Nishi, conforme a regra 11 do futebol, não se consumou – como o jogador não interferiu na jogada, segue o jogo.

Nesse mesmo lance, dois acontecimentos devem ser ressaltados:

1) Nishi deu um encontrão em seu marcador, Berrío, que se desequilibrou e esticou a perna direita (propositalmente ou devido à perda do equilíbrio, não dá para saber);

2) Nishi caiu na área (após ser tocado intencionalmente pelo pé de Berrío ou tropeçar nele, não dá para saber), e alguns jogadores do Kashima pediram pênalti, sem muita convicção.

Era claramente uma questão de interpretação. Poderia ser marcada falta de Nishi em Berrío. Ou pênalti de Berrío em Nishi. Ou nada.

O árbitro Kassai optou pelo nada, não viu falta de ninguém. O bandeirinha, que tinha visão privilegiada do lance, apesar de mais preocupado em acertar na marcação do impedimento, idem. Eu, pela TV, idem.

A defesa do Nacional afastou o perigo, e a partida continuou por mais 45 segundos, normalmente, até que a bola saiu pela linha lateral.

Naquele instante, Kassai interrompeu as ações. Ouvia pelo ponto eletrônico “o cara da TV”, que tem nome: Danny Makkelie, holandês de 33 anos que, em partida na qual atuava no fim de setembro, acatou recomendação feita pela videoarbitragem e expulsou de campo um jogador.

Passa-se um minuto, e o húngaro vai até a lateral do campo, gasta 15 segundos para rever o lance entre Nishi e Berrío em um monitor e confirma o que “o cara da TV” lhe disse: é pênalti!

Houve protesto do Nacional, mas, como o impedimento não ficou caracterizado, não havia muito do que reclamar – repito, era um lance interpretativo.

O lance que mereceu reavaliação do árbitro de vídeo em Kashima x Atlético Nacional (Reprodução/Site da Fifa)
O lance que mereceu reavaliação do árbitro de vídeo em Kashima x Atlético Nacional (Reprodução/Site da Fifa)

Aos 32 minutos, mais de quatro minutos depois da jogada polêmica, Doi converteu. Kashima 1 a 0.

Esse gol de Doi, com o perdão do trocadilho, doeu para o time colombiano, xodó dos brasileiros devido ao comportamento pós-tragédia da Chapecoense, que não conseguiu reagir e acabou levando, no 2º tempo, mais dois gols.

Mas, porém, contudo, todavia…

Há um detalhe que não pode ser relevado: e se durante o tempo que Kassai levou para interromper a partida, a fim de escutar “o cara da TV” e decidir rever o lance, tivesse, por exemplo, saído um gol do Nacional?

A lambança seria enorme. Ele precisaria anular o gol para dar o pênalti para o Kashima.

Imagina a confusão? O Nacional, tendo o gol anulado, reagiria como? E a sua torcida? Ficariam revoltados, certamente. Faço uma provocação: se isso ocorresse diante de uma fanática torcida, como a do Flamengo em um jogo no Maracanã lotado, o árbitro teria coragem de voltar atrás ou ignoraria a recomendação do “cara da TV”?

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Enfim, a solução é fácil. Basta fazer um ajuste.

Há dúvida em um lance? “O cara da TV” tem de avisar imediatamente o árbitro que está sendo feita uma revisão e a partida ser interrompida prontamente, para evitar um novo acontecimento importante no jogo.

A Fifa arriscou, e dessa vez deu sorte.

A ideia da videoarbitragem, Kashima x Nacional mostrou, está sujeita a polêmicas. Então precisa, de agora em diante, ser bem executada.

É preciso revisar um lance? Que seja feito. Com o jogo parado.