Pep Guardiola, quem diria, passa por apuros na Inglaterra

Por Luís Curro

Jamais pensaria pouco tempo atrás que pudesse escrever isto: Pep Guardiola, o grande Pep Guardiola, um dos melhores técnicos do mundo, se não o melhor, vive apuros na Inglaterra.

Depois de apenas cinco meses na terra da rainha, à frente do endinheirado Manchester City, o espanhol de 45 anos –afamado pelo sucesso no Barcelona e no Bayern de Munique – está sofrendo para aplicar seus conhecimentos táticos, baseados no controle da bola e na imposição de um ritmo ao adversário, no ultradinâmico futebol inglês.

Demorou um pouco, mas caiu a ficha para Guardiola. Ele achava que seu estilo encaixaria rapidamente no City, porém isso não aconteceu. A derrota no sábado (10) para o Leicester por 4 a 2 (o placar chegou a estar 4 a 0) parece ter-lhe dado um estalo.

A posse de bola, indubitavelmente, é importante. Mas, na Inglaterra, um time que tem o domínio das ações a maior parte do tempo pode em instantes, se não tiver aberto uma boa vantagem, ser surpreendido por um velocíssimo contra-ataque ou por uma jogada de bola aérea – e sucumbir.

Mas não é assim em todo lugar? Na Inglaterra é mais. O pequeno Leicester, recheado de jogadores operários, foi campeão na temporada 2015/2016 deste jeito: com contra-ataques mortais, com precisão nas jogadas de bola parada e com uma raça sem fim.

Guardiola, enfim, identificou isso. Compreendeu o cenário macro.

Pep Guardiola no Old Trafford, antes de Manchester United 1 x 0 Manchetsr City, na Copa da Liga Inglesa (Dave Thompson - 26.out.2016/Associated Press)
Pep Guardiola no Old Trafford, antes de Manchester United 1 x 0 Manchester City, na Copa da Liga Inglesa (Dave Thompson – 26.out.2016/Associated Press)

“Eu entendi o futebol inglês no dia em que vi, na minha casa, um jogo: Swansea x Crystal Palace. Nove gols, oito em jogadas de bola parada. Você precisa controlar isso (as bolas paradas), e nós não somos capazes de controlar agora”, disse o treinador, que tem no currículo duas Ligas dos Campeões da Europa, três Mundiais de Clubes, três Campeonatos Espanhóis e três Campeonatos Alemães, entre outros títulos – são ao todo 24 entre 2008 e 2016.

“Oito gols de bola parada: escanteios, faltas, laterais. Isso é o futebol inglês e eu tenho que me adaptar porque nunca antes vivenciei isso.”

O Swansea ganhou essa partida, por 5 a 4, no dia 26 de novembro, depois de estar vencendo por 3 a 1 e perdendo por 4 a 3. Os gols do empate e da vitória, ambos do espanhol Llorente, saíram aos 46 minutos e aos 48 minutos do segundo tempo.

“Em muitos outros países, quando um cara tem a bola nos pés, as pessoas sabem o que vai acontecer. O futebol aqui (Inglaterra) é mais imprevisível porque a  bola fica no ar mais do que no chão”, constatou Guardiola. “Você precisa controlar a segunda bola. Sem isso você não sobrevive.”

É isso mesmo.  Bem-vindo à Premier League, Pep! Onde a disputa é intensa até a última jogada do último minuto.

O Swansea é o atual último colocado no campeonato, e o Palace está em 14º lugar. Na Inglaterra, e eu acompanho há quase dez anos a divisão de elite com atenção, todo jogo, com raras exceções, é uma pedreira, sendo grande versus grande, pequeno versus pequeno ou grande versus pequeno.

Guardiola deu essas declarações nesta terça (13), véspera da partida, em Manchester, diante do Watford, com o City na quarta colocação, com 30 pontos (9 vitórias, 3 empates e 3 derrotas), a sete do líder, o Chelsea de Antonio Conte, que implantou com sucesso o esquema 3-4-3 no time de Londres – Guardiola largou o seu 4-3-3 e tentou o mesmo nos três jogos mais recentes e não deu certo (um empate, na Liga dos Campeões, e duas derrotas, no Inglês).

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Tenho visto o City, e não dá para dizer que Guardiola tem feito um trabalho ruim. Não mesmo.

Contra o Chelsea, por exemplo, 11 dias atrás, saiu na frente e não matou o jogo porque Agüero não se cansou de perder gols (três) e De Bruyne desperdiçou um chute na pequena área, sem goleiro. Em dois contra-ataques, o aparentemente inofensivo Chelsea virou a partida (Diego Costa e Willian). E em um terceiro fez 3 a 1 (Hazard), o placar final.

Só que jogar bem e não triunfar adianta?

Guardiola bem disse uma coisa, que todo treinador está ciente: futebol é resultado. E o inimaginável, em um repente, materializa-se: ele considera seu emprego em risco.

“Sinto que eles (os donos do City) confiam em mim, mas a realidade é que você precisa ganhar. Quando vim para cá, sabia que precisava vencer, imediatamente. É muitas vezes injusto, mas você sabe que nas grandes companhias do mundo, se alguma coisa não dá certo, você precisa encontrar uma solução.”

É a mais pura verdade. Não dá para se sustentar só com o nome.

O português José Mourinho, outro treinador badaladíssimo, não resistiu a maus resultados no Chelsea em 2015. Foi demitido. (E hoje vai aquém do esperado no Manchester United.)

Guardiola é o mais bem pago treinador do planeta. Embolsa mais de R$ 5 milhões mensais. Com esse salário, e com um time cheio de atletas de seleção (o chileno Bravo, os ingleses Stones e Sterling, o brasileiro Fernandinho, o belga De Bruyne, o espanhol David Silva, o argentino Agüero, entre outros), não se espera menos que… vitórias, vitórias e vitórias. Que significarão títulos.

O título da Copa da Liga Inglesa, conquistado por seu antecessor, Manuel Pellegrini, neste ano, já não dá mais – o City perdeu em outubro para o United de Mourinho. Ainda há chance na Copa da Inglaterra (o próximo rival é o West Ham), na Liga dos Campeões (duela nas oitavas de final com o Monaco) e na Premier League.

O problema é que, obviamente menos importante que a Liga dos Campeões, o Inglês paradoxalmente tem uma influência maior, um peso maior. Porque toda semana tem jogo, e a performance do time está mais visível nele.

Guardiola tem quatro desafios na Premier League até o final de 2016: Watford, Arsenal (ambos em casa), Hull City e Liverpool (ambos fora), nessa ordem.

Se não conseguir pelo menos sete pontos (o que é até pouco na situação atual), e depois de ter externado que “futebol é curto prazo”,  a confiança da cúpula diretiva do City terá caído talvez a um nível suficiente para ter a coragem de dispensar Guardiola.

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Em tempo 1: Talvez não baste só coragem para sacar Guardiola. Ele saindo, quem entra? Disponíveis no mercado, quais treinadores estão à altura do City? O francês Laurent Blanc? O argentino Marcelo Bielsa? O brasileiro Cuca? Todos bons nomes, mas manobrar um transatlântico momentaneamente à deriva, no meio da viagem, não é fácil.

Em tempo 2: O leitor pode achar que citei Cuca de brincadeira. Mas não. Ele está entrando em um período sabático e pode ser tentado a assumir uma das principais equipes do planeta. O jeito de pensar futebol do treinador campeão brasileiro pelo Palmeiras (puro dinamismo) teria tudo para emplacar na Inglaterra. Além disso, Gabriel Jesus, o melhor atacante do Brasileiro-2016 e a quem Cuca tão bem conhece, estará em breve se integrando ao elenco do City.