A justa conquista do Seattle e o “se” no futebol

Por Luís Curro

Depois de encerradas as partidas, é comum as rádios que fizeram a transmissão e algumas emissoras de TV que se dedicam exclusivamente a esporte iniciarem um programa com comentários e análises acerca de determinado jogo ou de alguns ou vários jogos da rodada.

Fala-se sobre que jogadores tiveram boa atuação, se a arbitragem interferiu no resultado, se a partida foi ou não emocionante. Os treinadores e os atletas emitem opinião sobre o embate. E sempre há a inevitável pergunta feita pelo apresentador ao comentarista, ao locutor ou ao repórter: “Fulano, o resultado foi justo?”.

E Fulano argumenta e dá o seu veredicto. “Sim, foi” ou “não, não foi”.

Para mim, não há injustiça no futebol. Se um time deixou o campo com a vitória, é porque de alguma forma fez por merecer. Então todo resultado é justo. Sempre.

Um parênteses: se eu acreditasse em injustiça e tivesse de citar uma, diria que a derrota do Brasil para a Itália, na segunda fase na Copa da Espanha-1982, que eliminou aquele mágico time comandado por Telê Santana (com Zico, Sócrates, Falcão, Júnior e companhia), conhecida por aqui como “a tragédia de Sarriá“, em alusão ao nome do estádio, foi “a” injustiça do futebol. Dominante, o Brasil marcou “só” dois gols (o goleiro Dino Zoff fez ótimas defesas), enquanto a Itália anotou três (todos de Paolo Rossi, um dos maiores carrascos da história da seleção canarinho).

Paolo Rossi, o algoz do Brasil na Copa do Mundo de 1982 (Reprodução/YouTube)
Paolo Rossi foi o algoz do Brasil na Copa do Mundo de 1982 (Reprodução/YouTube)

Fala-se também muito do “se”.

“Se” aquela bola que bateu na trave tivesse entrado, time A teria ganhado. “Se” o árbitro tivesse marcado aquele pênalti, time B teria grande chance de empatar. “Se” Beltrano não tivesse cometido aquela falta violenta e sido expulso, time C não seria dominado. São “ses” e mais “ses”.

Sim, o “se” existe no futebol (e como!), é o 23º jogador de cada confronto, e é inevitável comentar uma partida sem a presença dele, mas o “se” não toca na bola, não dribla, não desarma, não chuta, não faz gol. O “se” é, posso afirmar, um “ente invisível”, que estimula o imaginário do torcedor, e só.

Esqueça o “se”. O que aconteceu na partida aconteceu, está registrado e é fato consumado.

Cada jogo tem sua história, e nem sempre a equipe que mais tem posse de bola, que mais cria chances, que joga mais bonito, que tem a torcida a favor ou que possui no papel os melhores jogadores (às vezes tudo isso junto) ganha a partida. E é aí que, também, está a graça do futebol.

Eis a decisão da MLS (Major League Soccer), a liga de futebol dos Estados Unidos (com times agregados do Canadá), disputada no sábado (10) à noite, entre Toronto FC e Seattle Sounders.

Por ter feito uma campanha melhor, a equipe canadense teve a vantagem de jogar a final (jogo único) em casa, diante de sua torcida. O favoritismo era ampliado pela grande fase de dois de seus atacantes, o norte-americano Altidore e o italiano Giovinco.

O Seattle se amparava no recente histórico de ter superado nos mata-matas Dallas e Colorado, respectivamente o melhor e o segundo melhor time da Conferência Oeste.

No jogo viu-se o previsto: Toronto mostrou evidente superioridade. Durante o tempo normal e a prorrogação, teve mais posse de bola (54% a 46%), conseguiu mais escanteios (10 a 5) e jogou com objetividade, finalizando 19 vezes, sete delas na direção correta – o goleiro suíço Frei, dono de barba respeitável, evitou os gols.

Do lado do Seattle, em 120 minutos de bola rolando (sem contar os acréscimos), apenas três tentativas a gol, nenhuma delas na direção da meta defendida por Irwin – duas para fora (muito para fora) e uma bloqueada. Perigo zero.

Resultado: 0 a 0 e cobrança de pênaltis.

O goleiro Frei, herói do Seattle na decisão da(Reprodução/Site da Major League Soccer)
O goleiro Frei foi o melhor jogador do Seattle na decisão da MLS (Reprodução/Site da Major League Soccer)

Aproveitando, derrubo uma máxima mentirosa do futebol: “Pênalti é loteria”.

Pênalti é competência.

Bem batido (com força, em um dos lados, na direção do ângulo), a chance de o goleiro pegar é próxima de zero, mesmo que ele seja ágil e tenha grande envergadura.

E com treino é possível ter confiança para cobrar desse jeito, sem medo de errar. A confiança faz o jogador conseguir controlar o lado psicológico, afinal, em uma final, a pressão é enorme.

Cavadinha, em disputa de pênaltis, jamais; quando dá certo, é até gostoso de ver (vide o uruguaio Loco Abreu na Copa de 2010), mas beira a irresponsabilidade (certo, Alexandre Pato?).

Enfim, o que aconteceu? Exato, deu Seattle. Frei defendeu pênalti mal batido pelo experiente Michael Bradley (ex-Roma e Borussia Mönchengladbach), o capitão do Toronto e da seleção dos EUA, e Morrow acertou o travessão.

Coube ao beque panamenho Román Torres (com seu visual heterodoxo), nenhum gol marcado em 2015 e em 2016 na MLS (ou desde que chegou aos EUA e ao Seattle), a glória de balançar a rede pela última vez no campeonato.

Jogadores do Seattle festejam a conquista do título (Reprodução/Siter do Seattle Sounders)
Elenco do Seattle festeja a conquista do título do campeonato norte-americano (Reprodução/Site do Seattle Sounders)

Esse é o primeiro título do Seattle, que disputa a MLS desde 2009. O maior vencedor da liga é o Los Angeles Galaxy (cinco conquistas, em 2002, 2005, 2011, 2012 e 2014).

Em tempo: Algum jogador conhecido dos brasileiros no elenco do campeão Seattle? Um deles, sim, pelo menos para os torcedores do time mais popular de São Paulo. O meia uruguaio Nicolás Lodeiro defendeu o Corinthians em 2014.