Bebedeira de Rooney faz federação inglesa rever política de folgas

Por Luís Curro

Wayne Rooney sempre foi visto como um futebolista diferenciado na Inglaterra. Tanto que é considerado o mais destacado jogador de seu país nos últimos dez anos. Tem no currículo três Copas do Mundo (Alemanha-2006, África do Sul-2010 e Brasil-2014) e é o maior artilheiro da história do English Team, com 53 gols, quatro a mais que o lendário Bobby Charlton.

Historicamente acostumados a ter no comando de ataque da seleção atletas grandalhões, de muita força física, técnica questionável e raciocínio duvidoso, os ingleses viram em Rooney, desde o começo deste século, quando ele despontou no futebol, um estranho no ninho – no bom sentido.

Rooney, com técnica acima da média para os ingleses, sempre pensou rápido com e sem a bola, o que o tornou, além de artilheiro (já foi mais em anos anteriores, é verdade, até porque sofreu nos últimos com seguidas lesões), uma referência na distribuição de jogadas. Tem elevada capacidade para criar situações de gol, com a bola parada ou rolando. Isso sem deixar de ser aguerrido – se precisar dar um pique e um carrinho para recuperar uma bola, ele dá. E com gosto.

Seus predicados o tornaram o capitão do Manchester United, clube que defende desde 2004, e do English Team. Veste a camisa 10, a mais valorizada (geralmente é o craque do time o seu dono), tanto no time como na seleção.

Rooney conversa com Gareth Southgate, treinador interino da Inglaterra, na vitória sobre a Escócia por 3 a 0 em Wembley, pelas eliminatórias da Copa de 2018 (Eddie Keogh - 11.nov.2016/Reuters)
Rooney conversa com Gareth Southgate, treinador interino da Inglaterra, na vitória sobre a Escócia por 3 a 0 em Wembley, pelas eliminatórias da Copa de 2018 (Eddie Keogh – 11.nov.2016/Reuters)

Depois da geração de David Beckham, a Inglaterra certamente se lembrará da geração de Rooney, mesmo sem títulos para a primeira e, muito possivelmente, para a segunda – a Inglaterra não triunfa em um campeonato relevante desde a Copa de 1966, quando atuou em casa.

Ambos são ídolos e ostentam grande popularidade. Com um escancarado diferencial, todavia.

O loiro e metrossexual Beckham – que na beleza, me diziam as jornalistas com quem trabalhei, dava de mil a zero não só em Rooney como em quase qualquer outro – sempre esteve no papel de um ídolo comportado e civilizado.

Pelo menos em público, sempre se portou, com seu 1,83 m e 75 kg, como um cavalheiro: educado, bem vestido, corte de cabelo moderno, imagino que até perfumado estivesse com frequência. Exalava nobreza. E estava sempre sóbrio.

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Rooney é quase uma antítese do ex-colega de seleção. Não é bonito, pelo contrário, tanto que seu apelido é Shrek (o ogro da famosa e divertidíssima animação da Dreamworks), pesa mais do que mede (83 kg, 1,76 m), é sardento e a calvície o acompanha desde tenra idade.

Seu comportamento faz com que se equivalha ao inglês “comum” fã de futebol, aquele que não faz questão de se vestir com pompa e que curte mesmo uma boa farra, regada a muita cerveja.

Já houve episódios que mancham a imagem de Rooney, como o de ter furtado itens em uma loja da Nike, de ter pago para se aventurar em um “ménage à trois” com prostitutas quando sua mulher estava grávida de cinco meses e de ter denegrido, em autobiografia, a imagem de David Moyes, que o treinou no início da carreira no Everton e na temporada 2013/2014 no Man United.

Então com 20 anos, Rooney exibe sua autobiografia, "Minha História Até Agora" (Paul Ellis - 10.ag.2006/AFP)
Então com 20 anos, Rooney exibe sua autobiografia, “Minha História Até Agora” (Paul Ellis – 10.ag.2006/AFP)

O mais recente caso envolvendo Rooney mexeu até com a FA (a federação inglesa de futebol).

Na sexta (11), a Inglaterra jogou em Londres contra a Escócia, em um dos maiores clássicos do futebol mundial, pelas eliminatórias da Copa do Mundo da Rússia. Rooney estava lá, como capitão, na contundente vitória por 3 a 0. Foi dele o passe para o zagueiro Cahill marcar o terceiro gol.

O English Team permaneceu reunido para o amistoso desta terça (15), também no estádio de Wembley, contra a Espanha. E, no sábado à noite, jogadores, comissão técnica e dirigentes aproveitaram o dia de folga para celebrar o resultado da véspera, batendo papo e tomando uns drinques (cerveja e vinho tinto) no hotel estilo castelo medieval em que a delegação se hospedava.

Em determinado momento, todos se recolheram aos seus aposentos. Rooney, não. Convidado a participar de uma festa de casamento no local, decidiu esticar a noite. Esticar mesmo.

Convidados afirmaram que o jogador, que usava uma camisa vermelha da seleção inglesa, permaneceu na balada até as cinco da manhã, sempre com o copo na mão.

Um deles disse, conforme relato do tabloide sensacionalista “The Sun”, que em determinado momento Rooney estava tão bêbado que andava pelo salão cambaleando, trançando as pernas. E que mal conseguia proferir uma frase inteligível.

Em uma fotografia, estampada pelo “Sun” em sua capa, ele aparece com os olhos vermelhos e parece estar desorientado e sonado, características de quem tomou um porre daqueles. Em outra, está “largado” em um sofá, ao lado de duas mulheres jovens, uma delas com um dos braços em volta do pescoço dele.

Rooney, depois de bebedeira em hotel de Watford, em foto na capa do jornal "The Sun" (Reprodução)
Rooney, depois de bebedeira em hotel de Watford, em foto na capa do jornal “The Sun” (Reprodução)

A conduta de Rooney repercutiu muito mal, ainda mais porque na Inglaterra se dá um grande valor para o capitão da seleção nacional. É um exemplo a ser seguido.

A FA soltou um comunicado no qual afirma que todos os membros da delegação “têm a responsabilidade de se comportar adequadamente o tempo todo”.

A atitude de Rooney pode, inclusive, afetar os seus companheiros de English Team, de acordo com a federação. “Estaremos revisando nossa política no que concerne ao tempo livre (dos jogadores) enquanto eles estão servindo a seleção.”

O treinador Gareth Southgate, que comanda interinamente a Inglaterra depois de uma denúncia afastar Sam Allardyce, não relacionou Rooney para o jogo contra a Espanha, que terminou 2 a 2.

Oficialmente, o motivo foi uma leve lesão no joelho.

Caso essa “leve lesão” não impeça Rooney de atuar pelo Campeonato Inglês, neste sábado (19), contra o Arsenal, a hipótese de que a ausência do atacante diante dos espanhóis deveu-se a uma punição por comportamento impróprio ganhará força.

Até agora, Rooney não falou. Preferiu mandar recado por meio de um porta-voz.

“Wayne naturalmente está arrependido. Embora tenha sido um dia de folga, ele reconhece que as imagens são inapropriadas para alguém em sua posição. Ele já teve uma conversa reservada com Gareth Southgate e Dan Ashworth (diretor técnico da FA) para se desculpar. Ele quer estender essas desculpas a todos os jovens fãs de futebol.”

Enfim, Rooney deve estar envergonhado e desculpou-se pelo ocorrido. Ok, mas… não é mais um garoto. Já é trintão. Está na hora de se comportar como adulto, caso seja capaz.

Pois, em relação à bebida, há sempre uma preocupação maior, pois é um vício.

Que Rooney não repita a triste história de Paul Gascoigne, craque de bola que disputou a Copa de 1990 (quando a Inglaterra só caiu na semifinal, eliminada nos pênaltis pela Alemanha) e vive perdendo a luta contra o álcool. Hoje, aos 49 anos, Gazza, semblante castigado, parece ter 65. Em julho, foi flagrado indo comprar bebida de roupão. Tropeçou, e o traje caiu. Estava nu.

Ou a de Mané Garrincha, bicampeão mundial com a seleção brasileira (Suécia-1958 e Chile-1962), que para muitos é o melhor jogador do Brasil depois de Pelé. Gênio do futebol, Garrincha era também um alcoólatra. Morreu em 1983, aos 49 anos.

Rooney e a mulher, Coleen, assistem a uma luta de boxe em Manchester (Peter Cziborra - 24.set.2016/Reuters)
Rooney e a mulher, Coleen, assistem a uma luta de boxe em Manchester (Peter Cziborra – 24.set.2016/Reuters)

Em tempo: Rooney deve levar uma bela bronca de sua mulher, a bela Coleen, mãe de seus três filhos, pelo nada belo papelão. Se é que já não levou.