Do rosa ao preto: morte de rei longevo da Tailândia suspende futebol no país asiático

Por Luís Curro

“Antes dos jogos, tocava-se o hino do rei. No treino, parávamos para ouvir o hino do rei. Até no cinema havia interrupção para o hino do rei.”

As palavras são de Ricardo Jesus, atacante brasileiro de 31 anos que já rodou por Rússia, Grécia e México e hoje atua no futebol da Tailândia.

O rei citado é Bhumibol Adulyadej, venerado por toda uma nação de 67 milhões de habitantes e que morreu no dia 13 deste mês, aos 88 anos, de causa não divulgada. Notícias davam conta de que ele já estava doente havia cerca de um ano, quando deixou de fazer aparições públicas.

Centenas de tailandeses reúnem-se próximo ao palácio imperial, em Bancoc, para cantar o hino real, em homenagem a Bhumibol Adulyadej (Jorge Silva - 22.out.2016/Reuters)
Centenas de tailandeses reúnem-se perto do palácio imperial, em Bancoc, para cantar o hino real, em homenagem a Bhumibol Adulyadej (Jorge Silva – 22.out.2016/Reuters)

Bhumibol era o monarca mais longevo do mundo, tendo ocupado o trono por 70 anos. Assumiu em 1946, quando apenas três Copas do Mundo tinham sido disputadas (1930, 1934 e 1938). Hoje já são 20 as edições realizadas do Mundial – a Tailândia jamais participou de um.

A adoração ao rei era tão intensa que o país está praticamente parado há pouco mais de duas semanas, desde que Bhumibol morreu. “Ele era um semideus, um apaziguador entre os rebeldes e o Exército”, comentou Ricardo Jesus.

Ricardo, que joga desde o início deste ano pelo Thai Honda, da capital Bancoc, contou a “O Mundo é uma Bola” que a moderna cidade, geralmente movimentada e colorida, aquietou-se e escureceu.

“O pessoal tinha passado a usar rosa, roupas e telefones (celulares), mesmo os homens, depois que se soube que o rei havia melhorado e deixado o hospital usando um terno rosa. Relacionaram a cor à saúde”, disse o jogador, que não tem relação de parentesco com Gabriel Jesus, atacante do Palmeiras e da seleção brasileira.

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A morte de Bhumibol afetou toda a rotina da Tailândia, país de economia emergente (é considerado um dos novos tigres asiáticos) situado na Ásia meridional, inclusive o futebol.

Os campeonatos de todas as divisões foram imediatamente interrompidos.

“Chegamos ao treino e foi constrangedor. Deram a notícia de que o campeonato estava encerrado”, afirmou Ricardo, que nasceu em Cosmópolis, no interior paulista.

Faltando ainda dois jogos a disputar, o Thai Honda, que tinha três pontos de vantagem para o Ubon United e cinco para o Port FC, sagrou-se campeão da segunda divisão, em uma situação inusitada para o brasileiro. “Foi uma experiência ruim. Fomos campeões sem comemoração. Não recebemos troféu ou medalhas. O país ficou preto, de luto, e está sofrendo muito.”

Ricardo disse que o time teve as férias antecipadas, as quais ele pretende passar em Florianópolis, onde já estão sua mulher, Lia, e a filha, Isabelle, de 7 anos. O jogador ainda não voltou ao Brasil porque está em vias de assinar a renovação de contrato com o Thai Honda, que em 2017 jogará na divisão de elite.

Ele diz que a intenção é continuar ao menos mais uma temporada no futebol tailandês. Considera sua família adaptada à comida e aos costumes locais e frisa um aspecto importante: o clube paga em dia. Lembrou que sofreu com atrasos no Avaí, no Atlético Goianiense e no Querétaro (México). “Com salário atrasado a gente perde um pouco dos cabelos, temos dívidas para pagar.”

Ricardo Jesus em ação no Campeonato Tailandês da segunda divisão (Arquivo Pessoal)
Ricardo Jesus em ação no Campeonato Tailandês da segunda divisão (Arquivo Pessoal)

Ricardo Jesus disse ter ouvido que o luto na Tailândia em homenagem ao falecido rei duraria um ano. Sim, é verdade, mas não será para todos. Apenas funcionários do governo tailandês terão de manifestar o pesar pela perda pelo período de 12 meses, mantendo o uso de roupas da cor preta.

“Mas (o país) deve ficar um mês sem festas ou comemorações”, avaliou o jogador, que pretende um dia voltar a jogar no Brasil.

Suas preferência são pelo Internacional, clube gaúcho que o revelou, em 2006, e pela Ponte Preta, na qual se destacou em 2011: fez 19 gols na Série B e ajudou a equipe campineira a obter o acesso.