O meu encontro com o Capitão do Tri

Por Luís Curro

São poucas as pessoas que sabem, mas em outubro de 2010 eu tive a oportunidade, em um projeto que contou com o apoio da Folha, de entrevistar Carlos Alberto Torres por mais de duas horas.

O Capitão do Tri foi o primeiro de uma lista de cinco titulares da Copa do Mundo de 1970 que me receberam, separadamente, para relembrar os acontecimentos daquela fantástica conquista da seleção brasileira: o tricampeonato mundial de futebol.

Ou outros ex-jogadores com quem falei foram Gerson, Clodoaldo, Tostão e Piazza.

As memórias de todos se tornaram os originais de um livro, com cinco capítulos, que trazem a versão de cada um deles do primeiro Mundial disputado no México.

Sujeito receptivo e simpático, além de ter sido um excepcional lateral direito, Carlos Alberto morreu nesta terça (25), aos 72 anos, vítima de um ataque cardíaco fulminante.

Talvez se encontre do outro lado (para os que acreditam que haja um outro lado) com os outros colegas daquela memorável seleção que também não estão mais vivos: o goleiro Félix (1937-2012), o lateral esquerdo Everaldo (1944-1974) e o zagueiro Fontana (1940-1980).

Informações da carreira do Capita, como ele era popularmente chamado (e gostava que fosse assim), os clubes que defendeu e suas conquistas, além de análises de colunistas do quilate de Juca Kfouri e PVC, é possível encontrar em textos da Folha.

Assim, para o leitor de “O Mundo é uma Bola”, ofereço um trecho, editado, da introdução do capítulo dedicado a Carlos Alberto na obra de minha autoria – até hoje não publicada.

Considero a melhor maneira de expressar minhas impressões a respeito desse mito do futebol.

Carlos Alberto posa com Bobby Moore antes de Brasil 1 x 0 Inglaterra, na Copa de 1970, no estádio Jalisco, em Guadalajara, México (7.jun.1970 - Associated Press)
Os capitães Carlos Alberto e Bobby Moore posam antes de Brasil 1 x 0 Inglaterra, na Copa de 1970, no estádio Jalisco, em Guadalajara, no México (7.jun.1970 – Associated Press)

“Nos primeiros contatos com alguns dos tricampeões, Carlos Alberto foi, ao lado de Tostão, o mais receptivo. Solícito, prontamente mostrou-se disposto a receber-me no Rio de Janeiro.

No dia 5 de outubro de 2010, uma terça-feira, a aterrissagem no Galeão. Ligação para Carlos Alberto, que indica um hotel na Barra da Tijuca para o encontro. Chego ao local por volta de 8h45.

Carlos Alberto entra. Vestia-se sem luxo: camiseta, calça esportiva, tênis desbotado.

Bem-humorado, sorridente, fala da vida tranquila que tem levado. Só exibe certa frustração por, há cerca de cinco anos, não receber um convite para dirigir um time de futebol no Brasil.

Breve interrupção para foto com um fã, descendente de orientais, que se diz honrado com aquele momento. Detalhe: pela aparência, ele não era nascido em 1970.

Carlos Alberto senta-se em um sofá no hall do hotel para a entrevista.

Bem articulado, tinha lembranças nítidas da Copa, e várias o empolgavam, mas continha a emoção.

Nada de lágrimas.

Dizia ter a convicção de que a Taça Jules Rimet estava destinada, desde o início do Mundial, a parar em suas mãos.

Para ele, a preparação física foi fundamental para que o Brasil “sobrasse” em campo naquela Copa.

Ele foi prova disso. Na final, teve fôlego para, aos 41 minutos do 2° tempo, aparecer no ataque, receber a bola de Pelé e disparar um petardo: Brasil 4 x 1 Itália.

Era 21 de junho de 1970. E quiseram os deuses da bola que fosse justamente do capitão da seleção o derradeiro gol daquela campanha histórica, marcante, seis vitórias em seis partidas.”

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Em tempo: Se você é jovem e não viu, procure na internet e veja os lances e os gols das partidas do Brasil na Copa de 1970. Caso você seja mais velho e já tenha visto, reveja. Recomendo muito. Será um tempo muito bem gasto.