Marfinense ‘bad boy’ salva vida de rival em campo

Por Luís Curro

Alguns meses atrás, o lateral direito Serge Aurier, da Costa do Marfim fez uma bobagem que poderia ter encerrado sua passagem pelo Paris Saint-Germain, o mais forte time da França.

Em fevereiro, em uma sessão de perguntas e respostas no aplicativo Periscope, ele teceu comentários depreciativos a alguns companheiros de equipe e ao treinador Laurent Blanc.

Por essas coisas que o futebol não explica, não foi expulso do clube, apenas suspenso por algumas semanas. Cumprida a punição, voltou a treinar e retomou aos poucos a posição de titular do PSG.

Ironia do destino, quase todos os alvos de injúrias de Aurier deixaram o clube, inclusive o técnico, o que pode tê-lo ajudado a se firmar novamente.

Mas a fama de “bad boy” estava criada. Fama essa que acabou ampliada em maio depois de o jogador ter agredido um policial na saída de uma casa noturna. No julgamento, em setembro, recebeu pena de dois meses de prisão – recorre em liberdade.

Assim, é impossível não tocar no nome do marfinense de 23 anos sem recordar esses episódios que mancham severamente sua imagem.

Pois no sábado (8) um lance fortuito ajudou Aurier a limpar momentaneamente, e com louvor, sua barra (explicação deste “momentaneamente” mais à frente).

O jogo era Costa do Marfim x Mali, um confronto de grande rivalidade, pelas eliminatórias africanas para a Copa do Mundo de 2018, que será na Rússia.

Aurier, lateral do PSG, cabeceia a bola em Costa do Marfim x Mali, pelas eliminatórias da Copa de 2018 (Issouf Sanogo - 8.out.2016/AFP)
Aurier (de camisa laranja), lateral direito do PSG, cabeceia a bola em Costa do Marfim x Mali, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2018 (Issouf Sanogo – 8.out.2016/AFP)

Mali surpreendia, ganhando por 1 a 0 antes dos 20 minutos. E atacava em busca de mais.

Um cruzamento veio da direita e houve uma dividida forte entre o beque marfinense Koné, que defende o inglês Sunderland, e o meia malinês Doumbia, do russo Rostov, que levou a pior.

Depois da queda violenta no gramado, Doumbia, de 22 anos, começou, segundo relatos, a ter uma espécie de convulsão e sua língua, a enrolar, obstruindo sua respiração. Não haveria tempo para que os médicos entrassem em campo para socorrê-lo.

Então, nas palavras de Alain Giresse em entrevista à rádio francesa RMC, surgiu um salvador.

“Aurier rapidamente o colocou de lado e puxou sua língua, porque ele (Doumbia) estava prestes a perder a vida”, disse o treinador do Mali, que disputou duas Copas do Mundo pela França (Espanha-1982 e México-1986).

Atendido na sequência pelos médicos, Doumbia acabou substituído e foi levado a um hospital. Estava salvo.

Moussa Doumbia, que foi socorrido por Aurier ao desabar depois de forte choque com um beque da Costa do Marfim (Reprodução/Malifootball.com)
Moussa Doumbia, socorrido por Aurier ao desabar depois de forte choque com um beque da Costa do Marfim (Reprodução/Malifootball.com)

Aurier, o vilão do ano, tornava-se herói em minutos. O destino sorria para o lateral de má fama.

Mas, e parece sempre haver um mas, menos de 15 minutos depois desse ato heroico, o marfinense teve uma “recaída”. Por isso escrevi que ele “momentaneamente” limpou seu nome.

Na comemoração do gol da virada da Costa do Marfim, que já havia empatado, Aurier celebrou fazendo, em direção à torcida, um movimento com a mão que indicava cortar o pescoço.

O ato foi interpretado como ofensivo, especialmente por as seleções serem adversárias ferrenhas, e teve repercussão (negativa) nas redes sociais.

O que me leva a concluir que Aurier é um desses casos (raros, suponho) de dupla personalidade: o bom moço convive com o mau moço.

No Estádio da Paz, na cidade de Bouaké, Aurier teve a chance de se eternizar como um exemplo de companheirismo extremo entre adversários. Um gesto agressivo impensado, porém, ofuscou um dos instantes mais emocionantes de 2016 em um campo de futebol.

Em tempo: A Costa do Marfim ganhou a partida por 3 a 1 e lidera o Grupo C do classificatório da África para o Mundial da Rússia, após a rodada inicial. São cinco grupos, e o campeão de cada um obtém a vaga.