Tecnologia determina pela 1ª vez expulsão de jogador e dá sinal de como será o futuro do futebol

Por Luís Curro

Escrevi meses atrás, em março, sobre a introdução de mais tecnologia no futebol, o que ajudaria a arbitragem a ser, teoricamente, mais justa.

Posicionei-me contra, e volto ao tema depois de, pela primeira vez, um jogador ser expulso de campo após o assistente que acompanha a partida pelo vídeo orientar o árbitro a fazê-lo.

Ocorreu nesta quarta (21), no jogo da Copa da Holanda entre Ajax e Willem II, em Amsterdã.

Mandante, o Ajax ganhava por 2 a 0 quando, aos 13 minutos do segundo tempo, o meia marroquino Anouar Kali, do Willem II, deu uma entrada violenta no tornozelo do também meia Schöne. Falta para cartão vermelho, sem dúvida. Kali não foi maldoso, mas imprudente, o que não faz diferença.

Só que o árbitro Danny Makkelie advertiu Kali apenas com o cartão amarelo.

Imediatamente, o assistente Pol van Boekel, que assistia ao jogo pela TV em uma cabine, entrou em contato por áudio com Makkelie. Alguns momentos depois, para perplexidade do marroquino, o árbitro reviu sua decisão e o expulsou.

Kali atinge Schöne em Ajax x Willem II pela Copa da Holanda (Reprodução/YouTube)
Kali atinge Schöne em Ajax x Willem II pela Copa da Holanda (Reprodução/YouTube)

“Perguntei a Pol se ele estava 100% certo e ele me falou que não tinha dúvida. O vídeo fala por si. É um dos momentos em que a videoarbitragem prova que é muito útil”, afirmou Makkelie.

Van Boekel declarou que em questão de segundos viu o lance por vários ângulos, a fim de se certificar de que era uma jogada para expulsão. “Se eu tivesse a chance de ter visto no campo a falta como vi (no vídeo), eu teria mostrado o cartão vermelho.”

Fez, então, a recomendação a Makkelie, que a aceitou.

O que se conclui é que Makkelie, da posição em que estava, não pôde perceber a violência de Kali. E confiou na interpretação do colega que estava instalado em uma sala de vídeo.

Por enquanto, a videoarbitragem está em fase de testes, mas tudo indica que a era do “futecbol” veio para ficar. Será assim, e não adiantará “românticos” como eu (o leitor pode me chamar de conservador ou de retrógrado, se desejar), que consideram que erros de avaliação da arbitragem fazem parte da graça do futebol, relutarem.

Mantenho a posição de que o árbitro deve ser suficientemente bom para estar bem posicionado, a fim de acertar na ampla maioria das vezes. Além disso, ele conta com dois auxiliares (os bandeirinhas) para tirar eventuais dúvidas, por exemplo, nas faltas mais duras. Em alguns campeonatos são quatro os assistentes, pois há um a mais em cada linha de fundo.

Levanto, então, duas questões.

1) Já que a tendência é a videoarbitragem avançar e se tornar praxe no futebol, para que o árbitro precisa de assistentes no gramado? Desnecessário. O cara que fica na frente da TV, com visão privilegiada e por vários ângulos, avisa quando vir algo que mereça atenção ou correção. Não será preciso de mais ninguém.

2) Mesmo com a ajuda do vídeo, não há certeza de que em 100% das vezes o “cara da TV” estará certo. Em muitas ocasiões, será questão de interpretação, do mesmo modo que age o árbitro no campo. E aí o papel de justiceiro que o vídeo supostamente faz não se sustenta.

Espero estar errado, e isso o tempo dirá, mas será que o “cara do vídeo” terá a mesma atitude ao analisar uma falta violenta cometida por um jogador de um clube pequeno e de um clube grande?

Não tenho dúvida, olhando para o futuro, de que haverá questionamentos, de todos os lados (técnicos, jogadores, cartolas, torcedores), à atuação desse assistente, do mesmo jeito que se reclama hoje dos árbitros e dos auxiliares tradicionais.

E será necessária mais uma burocracia: formar uma comissão para analisar o trabalho dos “caras do vídeo”. E colocar os que errarem “na geladeira” – como é feito com os juízes que falham durante os jogos. Veja só aonde chegaremos: haverá reciclagem até para o “cara da TV”.

Sei que sou minoria, já vi e ouvi muita gente defender com veemência a tecnologia no futebol.

Sou a favor dela para determinar se a bola entrou ou não no gol, isso é essencial para a justiça no jogo. Ademais, defendo o emprego dos vídeos após os jogos. Se houve uma jogada violenta que o árbitro deixou passar, uma que tivesse sido digna de expulsão, que o jogador seja responsabilizado a posteriori, que seja devidamente punido e suspenso.

Tecnologia para apontar se a bola cruzou a linha do gol é testada antes de jogo do Campeonato Inglês (Dylan Martinez - 18.set.2016/Reuters)
Tecnologia para apontar se a bola cruzou a linha do gol é testada antes de jogo do Campeonato Inglês (Dylan Martinez – 18.set.2016/Reuters)

Porém, do jeito que está sendo feito, repito o que já escrevi: o futebol virará, em breve, outro esporte. Com outra dinâmica. Com outro contexto. Com outra cara. A cara do “cara da TV”.

Em tempo: Depois da expulsão de Kali, o Ajax ainda fez mais três gols e ganhou por 5 a 0.