Vitória por larga margem mascarou deficiências da seleção de Tite

Por Luís Curro

3 a 0. Foi bom. Mais que bom. Foi ótimo. Excelente.

Para uma estreia, fora de casa, na altitude, Tite não poderia esperar um resultado melhor na partida de quinta (1º), em Quito, contra o Equador, pelo qualificatório da Copa da Rússia-2018.

Ainda mais em um estádio no qual o Brasil não ganhava havia 33 anos e que era até então o maior alçapão recente nas eliminatórias sul-americanas.

De quebra, a seleção voltou à zona de classificação para o Mundial: era sexto, agora está em quinto, lugar que dá direito à disputa da repescagem.

Corro o risco de ser ranzinza, porém o Brasil poderia ter tido uma outra sorte na partida. O primeiro tempo foi sofrível, muito ruim.

O veloz Montero, que atuava pelo lado esquerdo do ataque equatoriano, deitou e rolou por ali, na “avenida” Daniel Alves. O meio-campo tinha dificuldade na marcação e, quando com a posse de bola, o Brasil não conseguiu trocar passes, armar jogadas. Willian não estava bem; Renato Augusto, idem; Paulinho, também. Nem Neymar conseguia criar. Gabriel Jesus viu-se isolado, a bola pouco chegava a ele.

A seleção, entretanto, não levou o gol, por mérito dos zagueiros (Miranda teve intervenção salvadora no começo do jogo) e do goleiro Alisson e por incompetência do ataque que vestia amarelo – o Brasil jogou de azul.

No segundo tempo, o time de Tite melhorou (seria difícil piorar), e o treinador tem mérito por isso, só que a criação continuou pobre. O Brasil precisa criar muito mais, e com qualidade.

Ah, mas saíram três gols!

Sim, o primeiro, após falha grotesca do zagueiro Mina, do River Plate. Ele estava à frente de Jesus, mas permitiu que o atacante o ultrapassasse e sofresse o pênalti cometido pelo goleiro Domínguez. convertido por Neymar aos 27 minutos.

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O segundo e terceiro gols, méritos imensos para Jesus. Marcou de calcanhar, depois de bom cruzamento de Marcelo (é animador ver o lateral do Real Madrid, ótimo apoiador, ser titular, e não Filipe Luis), e fez um golaço em chute da entrada da área.

Nesses dois momentos, entretanto, o Equador já estava perdido em campo, devido à expulsão de Paredes ao 31 minutos.

É cedo, porém, para afirmar que Jesus é a solução para o ataque, que é um novo Romário. Ele precisa repetir o desempenho em outras partidas.

Não deixa, porém, de ser um alento sua atuação, já que, não muito tempo atrás, quando o treinador era Dunga, o veterano Ricardo Oliveira parecia ser a solução. Não foi, e é bom, mesmo sendo Oliveira um grande artilheiro, ver sangue novo no ataque da seleção.

Por ser muito rápido (Neymar e Willian tambem são), Jesus tende a render bem em jogadas de velocidade, em contra-ataques.

Contra a Colômbia, em Manaus, nesta terça (6), será interessante observar como Tite fará o Brasil funcionar tendo de tomar a iniciativa. Os colombianos virão fechados. Será necessário tocar a bola com precisão e rapidez e fazer jogadas de linha de fundo com frequência, além de alternar as infiltrações com chutes de fora da área.

Outra deficiência que Tite terá de sanar são as “avenidas” na defesa, que tendem a aparecer mais ainda se a Colômbia encaixar contra-ataques. Daniel Alves, que sofre na marcação não é de hoje, e Marcelo sentir-se-ão instados a apoiar, e devem mesmo fazê-lo, alternadamente.

Caso o treinador argentino José Pékerman, da Colômbia, tenha estudado o jogo do Brasil contra o Equador, sabe que há esse ponto fraco.

A cobertura dos laterais caberá primeiramente a Casemiro – o problema é que o volante não é veloz. Se Casemiro falhar, restarão os zagueiros, Miranda e Marquinhos. O segundo tem bom senso de cobertura, o primeiro, nem tanto – Miranda é mais forte na antecipação.

Tite, a quem defendi na seleção por considerá-lo o mais habilitado treinador, com certeza já percebeu os problemas, tanto de criação como de marcação. Hoje, não há por que pensar que ele não tem as soluções. Precisará ter êxito ao implantá-las.

Quem torce pela seleção espera um novo 3 a 0. Mas, idealmente, um 3 a 0 no qual o Brasil convença do início ao fim.

Dancinha

Em tempo: Se gols saírem, tomara que na comemoração os jogadores repitam a dancinha vista no vestiário (participaram Marcelo, Paulinho, Daniel Alves, Marquinhos e Neymar), após treino na capital amazonense, feita ao som de “My Boo”, sucesso de 1996 do grupo de hip-hop Ghost Town Dj’s, de Atlanta. Divertida e muito engraçada.