Astro da Roma explica o não ao Milan: “Minha mãe era a chefe. Ela ainda é”

Por Luís Curro

Francesco Totti, campeão mundial com a Itália em 2006, já está eternizado como o maior ídolo da história da Roma. É impossível dissociar a sua figura do time mais popular da capital italiana.

Mas a história poderia ter sido diferente.

Aos 13 anos, quando seu talento ainda estava em vias de aflorar, representantes do rubro-negro Milan bateram à porta de sua casa, em San Giovanni, Roma. Olheiros o tinham visto atuar pelo Lodigiani, clube hoje extinto. Queriam contratá-lo.

Uma ótima notícia, certo? Nem tanto.

O adolescente Francesco tinha aprendido desde pequeno a amar outra equipe, de cores vermelho e amarelo. A Roma era o clube pelo qual seu avô era fanático. E, desde garoto, Totti ia ao estádio Olímpico torcer por Giannini, “O Príncipe Romano”, e companhia.

A primeira vez foi aos sete anos, e ele descreveu, ou tentou descrever, a sensação: “Posso fechar meus olhos e sentir as cores, os cantos, a fumaça dos rojões. Eu era uma criança entusiasmada por estar no estádio rodeado por todos aqueles torcedores da Roma, e aquilo acendeu algo dentro de mim. Não sei como adjetivar a experiência…”.

Pausa.

“Belíssima.”

Ele soube, naquele momento, que a Roma seria sua maior paixão por toda a vida.

Totti festeja com uma selfie gol contra a Lazio em jogo no estádio Olímpio de Roma (Gregorio Borgia - 11.jan.2015/Associated Press)
Totti festeja com uma selfie gol contra a Lazio em jogo no estádio Olímpio de Roma (Gregorio Borgia – 11.jan.2015/Associated Press)

Mas os executivos do poderoso Milan estavam ali, na sua casa.

Oferecendo estrutura. Oferecendo dinheiro. Muito dinheiro.

Era a chance de Totti desfilar seu futebol em uma das potências do mundo da bola. Uma chance talvez única.

Ele, todavia, não seria o responsável por essa escolha.

Dona Fiorella intervém. “Não, não! Me desculpem. Não.”

Finito.

“Minha mamma era o chefe. Ela ainda é”, diz Totti.

“Ela era muito ligada a seus meninos, superprotetora. Não queria que eu saísse de casa por medo de que acontecesse alguma coisa. Minha mãe me ensinou uma coisa naquele dia: que o seu lar é o que há de mais importante na vida.”

Semanas depois, Totti começou a treinar nas categorias de base da Roma. Com total apoio de dona Fiorella, que o levava e buscava, que não o deixava faltar a nenhuma atividade.

“Ela esperava duas, três, até quatro horas enquanto eu treinava. Na chuva, no frio. Para que eu pudesse realizar meu sonho”, lembra o jogador.

Totti chegou lá. “Quando entrei no campo para meu primeiro jogo (pelo time profissional), eu estava inundado de orgulho por jogar por minha cidade. Por meu avô. Por minha família.”

Ele tinha apenas 16 anos.

Tudo isso foi relatado pelo próprio Totti, hoje com 39 anos, ao “The Player’s Tribune”, site no qual esportistas de diversas modalidades reportam suas experiências e exprimem suas opiniões.

O título do artigo resume o que é a vida para Totti: “Por Roma”.

Em tempo 1: Paulatinamente Totti conquistou seu espaço na Roma. Tornou-se titular aos 19. Depois, é necessário resumir: ganhou a camisa 10, a faixa de capitão e poucos, porém marcantes, títulos: um Italiano (2001), duas Copas da Itália (2007 e 2008), duas Supercopas da Itália (2001 e 2007). Jogou mais de 600 partidas na Série A e marcou 248 gols. É o principal artilheiro da história da Roma: 304 gols em 758 partidas. Inicia sua 25ª, possivelmente a derradeira, temporada pela equipe. Jamais vestiu a camisa de outro clube.

Leia também – O orgulho de vestir a camisa de um mesmo time por anos a fio

Em tempo 2: Totti vive até hoje com dona Fiorella? Não. Ele se casou com Ilary, como ele filha de Roma, em 2005. Constituíram família (um filho e duas filhas, a caçula nascida em março deste ano) e moram em casa própria. Em Roma, naturalmente.