Europa privilegiará ligas poderosas no filé mignon da Champions League

Por Luís Curro

Para os mais ricos e poderosos campeonatos, mais presença no campeonato mais badalado.

A Uefa, entidade que controla o futebol na Europa, decidiu que as quatro principais ligas nacionais, já donas de mais privilégios que quase todas as outras, vão ser recompensadas no sistema classificatório para a Liga dos Campeões.

Serão quatro os clubes dessas ligas a se classificarem direto para a fase de grupos da Champions League. Ou seja, os quatro primeiros colocados na tabela ao término do campeonato terão essa regalia. A medida vale a partir da temporada 2018-2019, quando se iniciará um novo ciclo comercial de três anos.

Atualmente, as ligas listadas com o status de “top” são a da Inglaterra, a da Alemanha, a da Itália e a da Espanha, conforme um ranking de pontos elaborado e modificado de acordo com o desempenho das equipes nos torneios europeus (Liga dos Campeões e Liga Europa) nos últimos cinco anos.

Segundo esse ranking, La Liga (Espanha), Bundesliga (Alemanha) e Premier League (Inglaterra) dão aos três primeiros uma vaga na etapa de grupos da Champions. O quarto colocado precisa passar por uma fase preliminar para se classificar. A Série A (Itália), quarta no ranking da Uefa, qualifica o campeão e o vice. O terceiro tem que jogar um mata-mata – a mesma fórmula vale para a Ligue 1 (França) e a Primeira Liga (Portugal).

Os 15 clubes mais bem classificados nessa lista são hoje Real Madrid-ESP, Bayern de Munique-ALE, Barcelona-ESP, Atlético de Madri-ESP, Juventus-ITA, Paris Saint-Germain-FRA, Borussia Dortmund-ALE, Chelsea-ING, Benfica-POR, Sevilla-ESP, Arsenal-ING, Porto-POR, Manchester City-ING, Schalke-ALE e Bayer Leverkusen-ALE. Quatro espanhóis, quatro alemães, três ingleses. Dois portugueses. Somente um italiano.

Assim, a modificação favorece, disparado, a Itália. De dois clubes garantidos na fase de grupos da Champions, o país passará a ter quatro. Neste ano, só Juventus e Napoli participarão da fase de grupos. A Roma foi eliminada pelo Porto (Portugal) na etapa preliminar.

Caso a nova norma estivesse em vigor já, tanto a Roma como a Inter de Milão estariam asseguradas no momento em que a competição começa a ter mais visibilidade para público e patrocinadores.

Nainggolan, da Roma, na derrota por 3 a 0 para o Porto; resultado impediu o time italiano de chegar à fase de grupos da Champions League  (Filippo Monteforte - 23.ago.2016/AFP)
Nainggolan, da Roma, na derrota por 3 a 0 para o Porto; resultado impediu o time italiano de chegar à fase de grupos da Champions League (Filippo Monteforte – 23.ago.2016/AFP)

Estar na fase de grupos significa, em suma, mais dinheiro: premiação maior oferecida pela Uefa, maior ganho na exposição de imagem pela TV (que resulta em mais oportunidades de marketing e, consequentemente, em mais venda de produtos), maior espaço para os patrocinadores (da camisa e do estádio), possibilitando renovações de contratos mais vantajosas.

Para o espectador que gosta de futebol parece um grande negócio, pois se minimiza o risco de os times famosos, que geralmente trazem o pé de obra de mais qualidade (os grandes astros), ficarem sem comer o filé mignon.

A fase de grupos de 2016-2017, cujo sorteio das chaves ocorreu na quinta-feira (25), poderia não ter, por exemplo, o Mancheter City (quarto colocado no último Inglês), do técnico Guardiola e de craques como Agüero, De Bruyne e David Silva, e sim o Steaua Bucareste, eliminado pelo City no mata-mata.

Ok, o Steaua é historicamente a maior força do futebol romeno, mas seu treinador é Laurentiu Reghecampf e seus principais jogadores são Pintilii, Popa e Stanciu. Conhece algum deles?

Esse é um lado. O outro é: reservando mais espaço para as ligas mais poderosas, as menores perdem esse mesmo espaço, e a busca por uma menor desigualdade no mundo da bola, algo com que concordo, fica prejudicada. O estímulo dos pequenos para crescer depende dos incentivos, das oportunidades, da abertura (e isso não apenas no futebol, mas em todas as áreas).

Não é bacana quando uma equipe pouca conhecido dá o ar de sua graça? Eu acho. Basta ver o sucesso do Leicester ao desbancar, na Premier League, clubes do quilate de um Manchester United, de um Chelsea, de um Arsenal, de um Liverpool. Empolgou e emocionou.

Os oito grupos da Liga dos Campeões da Europa 2016-2017 (Eric Gaillard - 25.ago.2016/Reuters)
Os oito grupos da Liga dos Campeões da Europa 2016-2017 (Eric Gaillard – 25.ago.2016/Reuters)

Na Champions League é bem difícil um “nanico” avançar, porém, quando acontece, é fato que se cria uma certa expectativa, às vezes maior, às vezes menor. A mesmice pode até ser boa, mas a novidade quase sempre é bem-vinda.

Na edição 2015-2016, o belga Gent surpreendeu e chegou às oitavas de final, que também tiveram o russo Zenit e o ucraniano Dínamo de Kiev. Na de 2014-2015, Basel, da Suíça, e Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, foram os “intrusos” nessa fase do mata-mata.

A mudança no regulamento, grosso modo, reduz a chance de um Reghecampf ou de um Stanciu ganharem renome. E de o Steaua reviver seus dias de glória: venceu a Champions League em 1986 e foi vice em 1989.

Enfim, a Uefa satisfaz quem investe, e alto, no produto Liga dos Campeões: emissoras de TV e grandes marcas. Que preferem, dentro da sua lógica de ganho financeiro rápido, mostrar e patrocinar quem dá retorno certo: Barcelonas, Manchesters, Bayerns e Reais Madrids.