Clube da 3ª divisão inglesa fracassa em venda de rifa e inventa premiado

Por Luís Curro

Fundado no século 19, precisamente em 1867 (quando o Brasil ainda vivia a época do Império), o Chesterfield FC, da cidade de mesmo nome localizada no norte da Inglaterra, registrou neste mês um dos momentos mais lamentáveis de sua longa história.

Com o intuito de angariar fundos e envolver os torcedores na preparação da equipe para a temporada 2016/2017, o clube da terceira divisão decidiu fazer uma rifa. O preço da adesão: £ 20 (R$ 86). O prêmio: uma viagem para acompanhar a pré-temporada da equipe, na Hungria.

Veio o resultado e o anúncio do felizardo: James Higgins, de Surrey (sudeste da Inglaterra).

Só que a equipe embarcou para a Hungria e silenciou a respeito do ganhador, o que causou estranhamento entre os fãs mais ardorosos do time. Iniciou-se movimento nas redes sociais questionando o motivo de Higgins não aparecer nas fotos com os jogadores em solo húngaro.

Onde estava ele?

O elenco do Chesterfield passou seis dias na Hungria, mas James Higgins não estava por lá (Reprodução - 11.jul.2016/Site do Chesterfield FC)
O elenco do Chesterfield passou seis dias na Hungria em pré-temporada, porém sem o premiado James Higgins (Reprodução – 11.jul.2016/Site do Chesterfield FC)

O Chesterfield publicou uma explicação em seu site: o sortudo ficou doente e por isso não pôde viajar. “James, que naturalmente está desapontado, será convidado para ver um jogo durante a temporada”, dizia o texto, acrescentando que ele teria direito a regalias de torcedor VIP e encerrando com um: “Fique bom logo, James!”.

Parecia algo plausível, entretanto o final do comunicado trazia um novo motivo para estranheza: “Em um gesto de boa vontade, todos aqueles que participaram da rifa terão direito a ressarcimento. Favor contatar o clube”.

Eis a dúvida que pairava no ar: por que o Chesterfield devolveria o dinheiro aos não contemplados? Afinal, o agora desafortunado Higgins seria compensado de outra forma por não ter podido usufruir seu prêmio. Os torcedores do time voltaram à carga, a fazer questionamentos, e a alta cúpula do Chesterfield decidiu intervir.

Houve uma investigação interna, e dois comunicados do clube, um na segunda (18) e outro na quarta (20), esclareceram tudo.

James Higgins não existia.

Foi uma invenção do chefe de marketing do Chesterfield para “consertar” uma ação fracassada: o interesse na rifa foi irrisório, com apenas quatro compradores – a arrecadação seria insuficiente para bancar os custos do prêmio. O jeito, para Kevin Fitzgerald, foi criar uma farsa.

Farsa essa condenada por seus superiores, incluindo Ashley Carson, um dos membros do Conselho de Diretores. Fitzgerald perdeu o emprego.

“Foi um incidente vergonhoso. O Conselho não tinha conhecimento das ações (de Fitzgerald) e agiu depois de descobrir a verdade. Esperamos seguir adiante após juntar os cacos desta lamentável confusão”, escreveu Carson.

Segundo ele, todos os demais sorteios e rifas organizados pelo Chesterfied, “que são tão valiosos para arrecadar fundos, não foram afetados por esse incidente isolado”.

A primeira atitude para “seguir adiante”, recomendação minha, é retirar o nome e o contato do detrator da página de contatos do clube.

Kevin Fitzgerald, o inventor de James Higgins, ainda está lá, na seção “Behind the Scenes” (algo como “Nos bastidores”), para ser lembrado e desprezado pelos íntegros fãs do Chesterfield.

O nome de Fitzgeral ainda aparecianesta quinta (21) na lista de contatos do clube inglês (Reprodução/Site do Chesterfield FC)
O nome de Fitzgeral ainda aparecia nesta quinta (21) na lista de contatos do clube inglês (Reprodução/Site do Chesterfield FC)

Em tempo: Em 149 anos de história, o máximo que o Chesterfield obteve no mundo da bola, em termos de resultados, foram quatro títulos da quarta divisão, em 1970, 1985, 2011 e 2014.