À espera de um milagre que não vem, torcedor pede dissolução da seleção russa

Por Luís Curro

“Como as crianças no Ano Novo, todos os russos estão esperando por um milagre, mas esse milagre não acontece há décadas.”

O desabafo é de Artyom Khasanov, torcedor da Rússia, o país-sede da Copa do Mundo de 2018.

Ele cansou de esperar o que considera um milagre (um futebol decente da seleção de seu país) e decidiu, por meio de uma petição on-line, solicitar a dissolução do time.

Depois do péssimo desempenho da Rússia na Eurocopa da França (eliminação na primeira fase, com um empate, duas derrotas e futebol sofrível), Khasanov recorreu à plataforma change.org para fazer chegar ao presidente Vladimir Putin um abaixo-assinado com essa petição.

A situação para esse indignado torcedor é tão dramática que o levou a se lembrar do tradicional momento em que, no último dia de cada ano, as crianças russas, reunidas em torno de uma árvore decorada, celebram o “milagre” do recebimento de presentes, trazidos, conforme reza a lenda, por Ded Moroz (o Papai Noel dos russos) e por sua neta, Snegurochka.

É algo similar ao acontecimento vivenciado na festa religiosa do Natal por boa parte dos brasileiros – ressalte-se, pelos que têm condições de montar uma árvore com enfeites e de oferecer presentes para as crianças. Na Rússia, o Natal é comemorado não no dia 25 de dezembro, mas em 7 de janeiro, data que encerra o chamado “feriado de inverno”.

A empreitada de Khasanov, que solicita que novos jogadores sejam convocados para a seleção e que o governo destine fundos para fomentar o futebol do país (especialmente as categorias de base) para que em um futuro próximo a Rússia possa ser competitiva, obteve até agora perto de 1 milhão de adesões, chamando a atenção do governo russo.

“É claro que (a petição) será discutida, dada a quantidade de assinaturas”, declarou o ministro do Esporte, Vitali Mutko, que também é o presidente da União Russa de Futebol (a CBF local), adiantando que “estaremos formando um novo time, com um novo técnico”.

Football Soccer - Russia v Wales - EURO 2016 - Group B - Stadium de Toulouse, Toulouse, France - 20/6/16 - Russia's coach Leonid Slutskiy during the match. REUTERS (Vincent Kessler - 20.jun.2016/Reuters)
O treinador Leonid Slutskyi deixa o campo depois de Rússia 0 x 3 País de Gales na Eurocopa da França (Vincent Kessler – 20.jun.2016/Reuters)

Segundo Mutko, esse tipo de reação mostra que as pessoas não estão indiferentes ao futebol e anseiam por mudanças. “Se elas virem que a seleção nacional está se desenvolvendo na direção correta, a equipe terá o apoio de que precisa, do jeito que vimos em 2008.”

O que aconteceu em 2008? Naquele ano, a Rússia chegou às semifinais da Eurocopa co-organizada por Áustria e Suíça. Os atacantes Pavlyuchenko e Arshavin eram os destaques do time treinado pelo holandês Guus Hiddink, que, derrotado pela Espanha, não avançou à decisão.

Depois, a seleção russa não obteve nenhum resultado significativo em Eurocopas ou Copas do Mundo. Não se qualificou para a Copa de 2010 (eliminação diante da Eslováquia na repescagem) e caiu nas primeiras fases da Euro-2012, da Copa-2014 e da Euro-2016.

Apesar disso, teve o mérito de se classificar para essas competições.

A bem mais gabaritada Holanda, por exemplo, não obteve vaga para a Eurocopa deste ano.  E a Inglaterra, com um título mundial no currículo (1966), tem dado vexame nos principais torneios (caiu na fase de grupos na Copa de 2014 e no primeiro mata-mata nas duas últimas Eurocopas e na Copa de 2010, além de não ter se classificado para a Euro-2008).

Analisando esse contexto, não é um exagero a cobrança do torcedor russo em relação à sua seleção?

Pois a Rússia, desde a separação das repúblicas soviéticas, em 1991, nunca se mostrou uma potência com a bola nos pés – o melhor desempenho russo foi justamente a semifinal da Euro-2008. A extinta URSS ganhou a primeira Eurocopa, em 1960 (que teve só quatro participantes), e foi vice-campeã em 1964, 1972 (edições também só disputadas por quatro países) e 1988.

É preciso considerar que a atual geração russa é formada por jogadores medianos, tanto que quase não despertam o interesse das principais ligas do planeta.

Do grupo relacionado para a Eurocopa da França, apenas um jogador atua fora das fronteiras da Rússia: Neustädter, ex-Schalke, da Alemanha, atual Fenerbahçe, da Turquia, e ele nem nascido no país é – nasceu na Ucrânia).

O que não quer dizer que os atletas da seleção não sejam bem remunerados. Os salários pagos na primeira divisão russa são bem decentes, e é o que pode ajudar a explicar a exigência por um futebol de melhor qualidade dos torcedores que aderiram à petição.

E causar revolta nesses mesmos torcedores quando, de férias após a eliminação na Euro, dois jogadores da seleção (Korokin e Mamaev) foram flagrados por câmeras durante uma festa extravagante em Monte Carlo (Mônaco), entre dezenas de garrafas de um champanhe caríssimo.

Até a temporada passada, Kokorin, de 25 anos, recebia o equivalente a R$ 1,5 milhão por mês, e Mamaev, de 27 anos, a R$ 480 mil.

Kokorin (esq.) e Mamaev festejam vitória sobre Montenegro nas eliminatórias para a Eurocopa-2016 (Kirill Kudryavtsev - 12.out.2015/AFP)
Kokorin (esq.) e Mamaev festejam vitória sobre Montenegro nas eliminatórias para a Eurocopa-2016 (Kirill Kudryavtsev – 12.out.2015/AFP)

Dmitri Peskovo, porta-voz do presidente Putin, considerou o episódio uma “exibição descarada de prepotência”. A TV estatal russa criticou o comportamento deles. Seus clubes os multaram e os colocaram para treinar com as respectivas equipes B.

Ambos negaram ter pago pela comida ou bebida oferecida na festa.

Porém, como a situação na seleção russa está ruça, e como o ministro Mutko adiantou que “o comportamento dos candidatos a defender a seleção nacional será levado em conta” nas próximas convoações, é provável que Kokorin e Mamaev sejam esquecidos pelo novo treinador – o último, Leonid Slutskyi, demitiu-se depois do fiasco na Eurocopa.