Ex-goleiro da seleção alemã ganha 30 quilos e flerta com luta livre farsesca

Por Luís Curro

Na Alemanha, a camisa 1 da seleção tem dono.

Seu titular desde a Copa do Mundo de 2010, na África do Sul, é Manuel Neuer, do Bayern de Munique, considerado o melhor da atualidade em sua posição.

Seguro sob as traves, sabe interceptar cruzamentos, sabe fechar o ângulo no “um contra um” e sabe jogar com os pés, o que lhe permite fazer as vezes de líbero.

É também um exemplo de seriedade. Raramente ele é visto sorrindo durante as partidas.

Tem mais: é um grande pegador de pênaltis. Nas quartas de final da Eurocopa, contra a Itália, o jogo foi para a disputa de penalidades, e Neuer defendeu duas cobranças, de Bonucci e de Darmian.

Enquanto Neuer estiver disposto a defender a Alemanha, e ele fará isso mais uma vez nesta quinta (7), na semifinal da Eurocopa contra a França, os demais guarda-redes alemães terão de se satisfazer em esquentar o banco.

Tim Wiese já passou por isso. Às vésperas do Mundial de 2010, o goleiro do Werder Bremen, então com 28 anos, viu aparecer a grande chance de atuar em uma Copa quando uma contusão tirou da ativa o titular, René Adler. Com Wiese, o Werder Bremen havia sido vice-campeão da Bundesliga em 2007/2008 e conquistado a Copa da Alemanha em 2008/2009.

Só que havia a concorrência de um jovem de 24 anos, então goleiro do Schalke 04: Neuer. Wiese foi preterido na disputa e viu do banco o colega se destacar e a Alemanha conquistar o terceiro lugar.

A mesma história se repetiu na Eurocopa de 2012, na Polônia e na Ucrânia. A Alemanha disputou cinco jogos, caindo na semifinal contra a Itália. Neuer, titular absoluto. Wiese, só na torcida.

Depois daquela Euro, Wiese não teve mais oportunidades na seleção dirigida por Joachim Löw. Entenda-se por “oportunidades” ser convocado, pois jogar era impossível. Neuer era tão bom que se mostrava, inclusive, imune a lesões.

Wiese uma única vez se disse frustrado com a situação na seleção alemã, antes da Copa de 2010: “Obviamente sou um perdedor, mas tenho que aceitar”. E se conformou com a realidade de que, sendo perdedor, ao menos perdeu a luta para um dos melhores da história.

Wiese, em jogo da BUndesliga, quando defendia o Hoffenheim (Martin Meissner - 25.ago.2012/Associated Press)
Tim Wiese, em jogo da Bundesliga, quando defendia o Hoffenheim (Martin Meissner – 25.ago.2012/Associated Press)

Só que sua motivação para atuar sob as traves perdia força, dia após dia. Tanto que, no início de 2014, desinteressado do futebol, passou a dedicar cada vez mais tempo às atividades físicas, na academia, e afastou-se do Hoffenheim, clube para o qual se transferira em 2012.

Levantar pesos e ganhar músculos se tornou uma obsessão para Wiese. O goleiro de 1,95 m e 90 kg rapidamente ultrapassou a marca dos 100 kg. Era um corpo em transformação.

Em setembro se 2014, já com 115 kg, anunciou o encerramento precoce da carreira futebolística, aos 32 anos.

Precoce porque goleiros costumam ser bem mais longevos, e a Eurocopa-2016 dá dois exemplos: Buffon, titular da Itália aos 38 anos, e Király, titular da Hungria aos 40. Fernando Prass, do Palmeiras, defenderá a seleção brasileira na Olimpíada do Rio com 38 anos.

Ao pendurar as luvas, Wiese mostrou-se pés no chão. Não podia mais, nem fisicamente, nem emocionalmente. “Não sou um sonhador, mas um realista que assume que meus melhores anos já se passaram.”

E, já que não pôde superar Neuer, partiu para outro tipo de luta. Literalmente.

Wiese continuou ligado ao esporte, enveredando por um caminho heterodoxo. Decidiu se tornar um praticante de luta livre.

Não da luta livre competitiva vista nos Jogos Olímpicos, e sim da versão artística. Aquela em que os combates só parecem que são reais. Os profissionais sobem no ringue com o objetivo de propiciar entretenimento aos fãs – simultaneamente, também de divertem.

Resumindo: é tudo armado. Mesmo assim, a chamada “marmelada” é um sucesso e atrai milhares de espectadores mundo afora, com eventos que lotam ginásios e têm boa audiência na TV.

A maior empresa no segmento é a norte-americana WWE (World Wrestling Entertainement), e um dos países de suas turnês é a Alemanha.

Em novembro de 2014, Wiese, já interessado em uma possível nova carreira, compareceu como convidado especial a um desses shows, em Frankfurt, e se empolgou com a atmosfera.

Esteve perto do ringue e chegou a entrar nele, contracenando com alguns dos lutadores. A resposta do público foi positiva, com aplausos e gritos de incentivo.

Wiese se empolgou e começou a negociar com Paul “Triple H” Levesque, executivo da WWE, uma chance para integrar o espetáculo farsesco.

O ex-goleiro Tim Wiese posa com Paul “Triple H” Levesque, executivo da WWE  (Reprodução/Site da World Wrestling Entertainment)
Wiese posa com Paul “Triple H” Levesque, executivo da WWE (Reprodução/Site da World Wrestling Entertainment)

Durante o ano passado, o ex-goleiro deu declarações no sentido de que seu objetivo seria concretizado. Demorou, mas sua insistência, aliada a um treinamento cada vez mais intenso, deu resultado.

No mês passado, Triple H formalizou o convite para que Wiese passasse a frequentar o centro de preparação que a WWE oferece a seus contratados, em Orlando, nos EUA.

“Tim é um obstinado”, declarou o executivo. “Tem demonstrado uma determinação tremenda para conquistar uma oportunidade. Se tudo correr bem na Flórida, ele terá sua vez no ringue.”

“Finalmente está acontecendo!”, festejou Wiese, empolgado, via Twitter.

Agora com cerca de 120 kg, ele continuará a moldar seu corpo, que cada vez mais se aproxima do visual de um fisiculturista, e se esforçará para aprender os macetes da luta de mentirinha – como os golpes falsos e as provocações sórdidas.

Se tudo der certo, ele voltará ao país natal em novembro, mês que a WWE agendou um tour pela Alemanha, para exibir seus novos talentos.

Quiçá com Neuer na plateia, já que uma das paradas será Munique.