Para camisa 10 da Rússia, torcedor brigar pode, desde que seja fora do estádio

Por Luís Curro

Brigar pode. Só não pode brigar dentro do estádio.

Em uma Eurocopa que vai se celebrizando pelas confusões causadas por torcedores durante algumas partidas, esse foi o recado passado por Fedor Smolov, o camisa 10 da seleção da Rússia.

Em dez dias de competição, disputada na França, em quatro jogos a torcida causou problemas: Inglaterra x Rússia, Croácia x República Tcheca, Espanha x Turquia e Hungria x Islândia.

Ao falar sobre o assunto em entrevista antes do jogo desta segunda (20) contra o País de Gales, Smolov, de 26 anos, soltou a seguinte pérola: “Esse tipo de acontecimento não pode acontecer nas arquibancadas. Se as pessoas estão dispostas a brigar, que o façam em outro lugar”.

Condenável. Estamos no século 21, as sociedades evoluíram, e a ampla maioria do planeta clama por paz. Brigas não devem ocorrer em nenhuma, absolutamente nenhuma, situação.

Em casos de desentendimentos, e isso vale para qualquer tema, não apenas os ligados ao esporte, têm de prevalecer o diálogo.

Smolov na partida em que Inglaterra e Rússia empataram por 1 a 1, em Marselha (Yves Herman - 11.jun.2016/Reuters)
Smolov na partida em que Inglaterra e Rússia empataram por 1 a 1, em Marselha (Yves Herman – 11.jun.2016/Reuters)

Artilheiro do último Campeonato Russo pelo Krasnodar, com 20 gols em 29 partidas, Smolov não se deu por satisfeito e ainda fez uma defesa dos hooligans (torcedores briguentos) de seu país.

Eles são, na visão do meia-atacante, inocentes. “Há uma série de vídeos na internet que mostram claramente que os ingleses provocaram os russos.”

Ora, mesmo que tenha sido o que aconteceu, retomo o discurso evolutivo e pacifista.

Provocar é errado. Responder às provocações é igualmente errado. Trata-se do velho ditado: “Quando um não quer dois não brigam”.

O leitor, especialmente aquele que frequenta estádios de futebol, sabe que a provocação verbal faz parte do jogo. Que é indissociável. Que é tão natural quanto chamar o juiz de “filho da p…”. Querer acabar com os insultos direcionados por torcedores de um time aos do outro é perda de tempo. Há a divisão de torcidas nos estádios justamente por isso. A fim de evitar embates físicos.

Em um momento em que a Rússia está sob ameaça da Uefa (entidade que controla o futebol na Europa) de ser excluída da Eurocopa se seus simpatizantes voltarem a se envolver em brigas, era de se esperar de Smolov outro tipo de atitude. Como as de jogadores da Croácia, que condenaram com veemência o comportamento de torcedores que atiraram um rojão e sinalizadores no campo na partida diante da República Tcheca.

Mas não.

Para ele, se as brigas não forem no estádio, pois atrapalham o andamento do jogo, tudo bem.

Que Smolov, que precisa dar ouvidos ao treinador da Rússia, para saber como se portar em campo, possa também escutá-lo quando o assunto é a violência dos torcedores, para saber como se portar fora da quatro linhas.

Assim disse Leonid Slutsky: “Se isso puder ajudar, quero dizer aos nossos torcedores que continuem nos apoiando, embora sempre respeitando a legislação, não somente no futebol mas na sociedade civilizada”.

Ele poderia ser mais incisivo, dizer “chega, não briguem mais!”, mas, como para bom entendedor meia palavra basta, Smolov, a partir da mensagem do chefe, deve mudar seus conceitos.

Será bom para ele, que crescerá como como cidadão, e bom para o mundo da bola.