Treinador português do Cruzeiro abre discussão sobre o “fair play”

Por Luís Curro

“A partir deste momento, por uma questão de filosofia, o Cruzeiro não colocará a bola fora. E, se o adversário colocar, nós não a devolveremos.”

A frase é de Paulo Bento, treinador português que comanda o Cruzeiro, e foi dita depois da partida de sábado (28), 1 a 1 com o América-MG pelo Campeonato Brasileiro, no Mineirão. O Cruzeiro empatou a oito minutos do fim, gol do uruguaio Arrascaeta.

Paulo Bento indicou que sua equipe, quando houver um atleta do time rival caído no gramado, será orientado a não mais chutar a bola para a lateral, a fim de que possa haver atendimento. E que, se o oponente o fizer, na hipótese de um cruzeirense estar caído, não receberá a bola de volta.

Há anos esse é o ato mais comum do chamado “fair play” (jogo limpo) nas partidas de futebol.

“Eu não peço a nenhum jogador para gastar o tempo, para se atirar no chão”, declarou o treinador ao justificar sua posição. Não falou abertamente, mas deu a entender que companheiros de profissão recorrem a esse artifício.

No fim do jogo, Paulo Bento e Givanildo Oliveira, técnico do América, discutiram à beira do campo e foram expulsos.

O português declarou instruir seus jogadores para que joguem um futebol objetivo e que o caso de fazer cera (quando um atleta, por exemplo, simula contusão para ganhar tempo quando o placar é favorável a sua equipe) não foi inédito em Cruzeiro x América, tendo acontecido também no confronto anterior.

Antes de jogar com o América, a Raposa foi derrotada por 4 a 1 pelo Santa Cruz, cujo treinador é Milton Mendes, no Recife.

“É o árbitro que tem que apitar, é quem tem que analisar, é quem tem que parar o jogo”, concluiu Paulo Bento, que comandou a seleção de seu país na Copa do Mundo de 2014, no Brasil.

Paulo Bento, que comandou Portugal na Copa de 2014 e atualmente treina o Cruzeiro (Hugo Correia - 30.mai.2014/Reuters)
Paulo Bento, que comandou Portugal na Copa de 2014 e atualmente treina o Cruzeiro (Hugo Correia – 30.mai.2014/Reuters)

É perfeitamente defensável o ponto de vista do técnico de 46 anos.

Não é sempre, mas às vezes percebe-se que, com seu time à frente no placar, o jogador fica caído depois de uma dividida que claramente não foi forte o suficiente para machucá-lo. Acontece mais no futebol da América do Sul, especialmente no Brasileiro, que no de outros continentes.

O “fair play” torna-se, então, um recurso para praticar o “dirty play”, termo que acabo de inventar. É o jogo sujo, em tradução literal. Na prática, o antijogo.

Pois, via de regra, ao ver um adversário no chão, o jogador do outro time manda a bola para fora, abrindo mão de um ataque ou contra-ataque. Também via de regra, depois de o atleta supostamente contundido estar recuperado, seu time agradece ao “fair play”, devolvendo a bola para o adversário, só que bem longe de seu gol – geralmente a lança para o goleiro.

Ou seja, a equipe autora do “fair play” inicial é punida, tem de recomeçar do zero o ataque.

Como bem disse Paulo Bento, que atuou de volante quando jogador, o árbitro está em campo também com a função de paralisar o jogo se perceber que a saúde de algum jogador está em risco. Ele tem autoridade para solicitar o atendimento médico e, depois, reiniciar o jogo.

Divididas, disputas mais duras, fazem parte da partida de futebol. Há quem se machuque de verdade, há quem exagere (dorzinha vira dorzão) e há quem faça teatro.

O jogador de um time caiu, parece sem condição de levantar? Precisa ser atendido? Que seus companheiros se desdobrem para fazer uma falta, o que interromperia o jogo, ou para recuperar a bola sem infração e então chutá-la para fora, o que igualmente paralisaria o jogo. Feito isso, que chamem a atenção do árbitro para aquele que está no chão.

Sabendo que não terá mais essa vantagem “automática” do “fair play” executado pela equipe rival (que, frise-se, não está nas regras do jogo), o espertalhão que quer ganhar tempo certamente pensará duas vezes antes de simular, já que estará deixando seu time em desvantagem numérica temporariamente.

Em tempo: Há treinadores que pedem a seus jogadores que, quando o time está vencendo (ou mesmo empatando, se for um resultado que interessa), façam cera? Não duvido. Mas até hoje jamais houve notícia, publicamente, de isso ter acontecido. Parece-me que o ato parte naturalmente dos atletas. Um exemplo: neste ano, Robinho, então meia do Palmeiras, admitiu que se fosse necessário faria cera em partida contra o Nacional, no Uruguai, pela Libertadores. Hoje, o jogador veste a camisa justamente o Cruzeiro, de Paulo Bento.