Volta dos Rangers à elite renova rivalidade de 128 anos com o Celtic na Escócia

Por Luís Curro

Depois de ser relegado ao quase esquecimento por quatro anos, um dos maiores clássicos do mundo da bola, Celtic x Glasgow Rangers, os dois gigantes do futebol escocês, voltará neste ano a ficar em evidência.

Muito em breve, na temporada 2016/2017, os arquirrivais se reencontrarão, quatro vezes, na divisão de elite do futebol do país.

O último confronto pelo Campeonato Escocês entre os tradicionalíssimos Glasgow Rangers, fundado em 1872, e Celtic, fundado em 1888, aconteceu no dia 25 de março de 2012, com vitória do primeiro por 3 a 2. Os Rangers foram os mandantes, no estádio Ibrox tomado por mais de 50 mil torcedores.

Essa partida é um exemplo do clima de vontade exacerbada que envolve esse clássico entre as equipes de Glasgow, a maior cidade escocesa. O Celtic, mesmo com dois jogadores expulsos e perdendo por 3 a 0, não se entregou. Fez um gol aos 44 minutos do segundo tempo e outro aos 47 minutos. A luta pela igualdade persistiu até o apito final.

A falta de igualdade, aliás, é o que alimenta a repulsa de lado a lado. Nesse caso, a desigualdade é política, étnica e religiosa.

Política porque os Rangers são historicamente favoráveis à unidade do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales), enquanto o Celtic, não – a Irlanda do Norte, na concepção de seus seguidores, deveria ser independente.

Foi justamente da Irlanda a origem dos fundadores do Celtic, que migraram para a Escócia devido à fome que assolou sua terra natal na metade do século 19. Os fundadores dos Rangers têm sangue escocês. Eis a questão étnica.

A religião também influencia a rixa, já que os Rangers são seguidores do protestantismo anglicano, e o Celtic, do catolicismo.

A intolerância de lado a lado relacionada a essa trinca de fatores gerou ao longo de décadas violentas brigas entre torcedores dos dois clubes. A polícia escocesa sempre dobra, até triplica, as atenções em dias de dérbi.

Só que o clássico conhecido como “Old Firm” (Velha Firma), realizado pela primeira vez em 1888 com vitória do Celtic por 5 a 2, teve uma interrupção abrupta depois daquele Rangers 3 x 2 Celtic de março de 2012.

Torcedor do Glasgow Rangers diante da sede do clube, à época da decretação da falência (David Moir - 14.fev.2012/Reuters)
Torcedor do Glasgow Rangers diante da sede do clube, à época da decretação da falência, em 2012 (David Moir – 14.fev.2012/Reuters)

Com uma dívida de milhões de libras com o fisco britânico, os Rangers decretaram falência, o que resultou em seu rebaixamento para a quarta divisão da Escócia ao término daquele campeonato, vencido pelo Celtic.

Novos donos assumiram os Rangers, e o clube teve de “recomeçar do zero”.

A força da camisa pesou, e dois acessos seguidos vieram, em 2012/2013 e 2013/2014. Porém, em 2014/2015, os Rangers não conseguiram ganhar o campeonato que os levariam direto de volta à elite. O time ainda teve a chance por meio de um playoff, mas duas derrotas para o Motherwell significaram passar pelo menos mais uma temporada na segunda divisão.

E foi somente mais uma temporada mesmo. No início deste mês, com a vitória por 1 a 0 sobre o Dumbarton, os Rangers ganharam com antecedência de quatro rodadas a Segundona.

Football Soccer - Rangers v Dumbarton - Ladbrokes Scottish Championship - Ibrox Stadium - 5/4/16 Rangers' James Tavernier celebrates after being promoted to the Scottish Premiership Action Images via Reuters / Russell Cheyne
James Tavernier, lateral do Glasgow Rangers, depois do jogo contra o Dumbarton, no estádio Ibrox, em Glasgow, que assegurou ao time a volta à primeira divisão escocesa (Russell Cheyne – 5.abr.2016/Reuters)

O título foi muito celebrado, mas celebrou-se mais ainda a certeza do reencontro com o arquirrival.

Football Soccer - Rangers v Dumbarton - Ladbrokes Scottish Championship - Ibrox Stadium - 5/4/16 Rangers' fans with a banner directed at Celtic Action Images via Reuters / Russell Cheyne
Jovem fã dos Rangers ergue cartaz com os dizeres “Celtic, estamos chegando para pegar você” na partida contra o Dumbarton (Russel Cheyne – 5.abr.2016/Reuters)

“Como um casamento à beira do divórcio, Celtic e Rangers não podem conviver um com o outro, ainda que não possam viver um sem o outro.”

Essas são as palavras de um ótimo texto sobre a rivalidade entre os clubes que li, em inglês, no site “Soccerlens”, assinado por Paul MacTaggart, antes do duelo pela Copa da Escócia.

Uma analogia bem feita.

Entre Celtic e Rangers, não se trata de um caso de querer ou não querer ter o arquirrival por perto, mas de precisar tê-lo.

É como o Corinthians sem o Palmeiras, o Grêmio sem o Internacional. o Atlético sem o Cruzeiro, o Bahia sem o Vitória, o Ceará sem o Fortaleza, o Brasil sem a Argentina…

Um sem o outro pode até sobreviver, mas haverá uma saudade cavalar. Negue quem tiver coragem.

Em tempo 1: Quem comemorou também o reencontro das equipes (serão quatro duelos no Campeonato Escocês na temporada 2016-2017 pois cada clube sempre confronta os demais esse número de vezes) foi o executivo-chefe da federação escocesa, Neil Doncaster, que enxergou o óbvio: o campeonato se torna mais atraente, e isso inclui a potencial chegada de mais patrocinadores e de comercializar os direitos de TV da competição (ou ao menos os jogos Celtic x Rangers) para outros países, já que o interesse crescerá. “Isso será benéfico para todos os clubes”, disse ele à BBC escocesa.

Em tempo 2: No início deste post, escrevi que se instaurou um “quase esquecimento” do clássico desde a queda dos Rangers. Isso porque houve dois reencontros, ambos em partidas de Copas do país, já que esse tipo de competição permite o cruzamento entre times de divisões diferentes. No dia 1º de fevereiro de 2015, os times se cruzaram em semifinal da Copa da Liga. O Celtic ganhou por 2 a 0, com inesperada facilidade (o que corrobora que toda regra, e esta é a da constante pegada nos duelos entre os arquirrivais, tem sua exceção), um jogo em que a grande atração foi o  gramado horrendo do Hampden Park, que ganhou nota -10 do jornal “Herald Scotland”. Neste ano, uma semana atrás, depois que os Rangers já haviam assegurado o regresso à elite, o mesmo Hampden Park, com o campo em condições mais adequadas, abrigou novo confronto, dessa vez pela semifinal da Copa da Escócia. E dessa vez o jogo foi pegado: o empate por 2 a 2 após o tempo normal e a prorrogação resultou em disputa de pênaltis. Deu Rangers, por 5 a 4.

Football Soccer - Rangers v Celtic - William Hill Scottish Cup Semi Final - Hampden Park, Glasgow, Scotland - 17/4/16 Rangers players celebrate after winning the penalty shootout Action Images via Reuters / Russell Cheyne Livepic
Jogadores dos Rangers festejam a vitóiria sobre o Celtic, na disputa de pênaltis, em semifinal da Copa da Escócia, no Hampden Park, em Glasgow (Russell Cheyne – 17.abr.2016/Reuters)

Em tempo 3: A hegemonia de Celtic e Rangers no Campeonato Escocês é tão esmagadora que, das 118 edições realizadas até hoje, 100 foram conquistadas por um ou outro clube, e desde a temporada 1985/1986, ou seja, há 30 anos, sempre ou Celtic ou Rangers fica com a taça – em 1984/1985, o campeão foi o Aberdeen. Os Rangers têm vantagem (54 títulos). O Celtic aproveitou-se da ausência do maior inimigo nas últimas temporadas e chegou a 46 taças. E caminha a passos largos para erguer a 47ª, já que lidera com folga o atual campeonato.