Os caras de Dunga – Brasil mostra bipolaridade diante de Uruguai e Paraguai

Por Luís Curro

A seleção brasileira encerrou mais uma rodada dupla das eliminatórias da Copa de 2018 (a terceira de nove) sem vencer nem convencer e com comportamento bipolar.

Nos empates por 2 a 2 com Uruguai (em São Lourenço da Mata) e Paraguai (em Assunção), a seleção de Dunga foi da euforia à depressão, na Arena Pernambuco, e da depressão à euforia, no Defensores del Chaco.

Em casa, saiu ganhando por 2 a 0 e dominou as ações no primeiro tempo (mesmo tendo sofrido um gol); na segunda etapa, permitiu o empate no início, foi dominada e só não perdeu porque Alisson evitou gols da Celeste no final.

Fora, foi massacrada pelo Paraguai no primeiro tempo. Tomou um gol, mas poderiam ter sido dois ou três. No início da segunda etapa, veio o segundo gol, e parecia que sairia do estádio goleada. Mas não. Equilibrou as ações, teve gol anulado, pressionou, conseguiu diminuir (com Ricardo Oliveira) e, nos acréscimos, empatar (com Daniel Alves).

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A tal bipolaridade não é desejável, pois almeja-se a constância, um futebol de determinação e qualidade, naturalmente, durante toda a partida. Menos mal que no Paraguai a euforia sucedeu a depressão, e não o oposto. Menos mal que o Brasil mostrou poder de reação e não desistiu do jogo, como pareceu ter ocorrido diante dos uruguaios.

Pode-se dizer que esse é um discurso filosófico, que tenta explicar o inexplicável, já que no futebol não é incomum se ver a alternância de momentos entre os adversários. Há partes da partida em que um time está melhor, há partes em que outro se sobrepõe. Pode ocorrer num mesmo tempo (no decorrer do primeiro e/ou do segundo haver essa alternação) ou não (uma equipe ser muito superior apenas em um único tempo e muito inferior no outro, que é o que ocorreu nesses últimos dois jogos do Brasil). Isso desde que os rivais tenham níveis técnicos similares.

O que preocupa (até assusta) é que em, casa, contra o Uruguai, a seleção deveria se impor, controlar as ações por quase todo o jogo, pois, na teoria, tem valores individuais superiores. E mesmo fora, contra o Paraguai, também deveria se impor, pelo mesmo motivo.

O Brasil tem Neymar (Barcelona), Willian (Chelsea), Douglas Costa (Bayern de Munique), Daniel Alves (Barcelona), Miranda (Inter de Milão), David Luiz (PSG), Filipe Luís (Atlético de Madri), Fernandinho (Manchester City). Todos titulares de equipes de ponta na Europa, que disputam ou disputaram (à exceção da Inter) a Liga dos Campeões desta temporada.

A dupla de ataque do Paraguai é formada por atletas dos pequenos Málaga, da Espanha (Santa Cruz, já com 34 anos), e Ingolstadt, da Alemanha (Lezcano). Um dos beques (Paulo da Silva, outro veterano, de 36 anos) defende o Toluca, 14º no Campeonato Mexicano, e o meia Benítez, que deitou e rolou nesta terça (29), atua pelo Querétaro, 15º na tabela do mesmo Mexicano.

Só que, enquanto o futebol desses jogadores melhora ao enfrentar a seleção brasileira, o dos jogadores da seleção brasileira piora na comparação com o mostrado em seus respectivos clubes.

De duas alternativas, uma: ou eles estão menos comprometidos com a seleção brasileira do que com seus clubes ou o esquema da seleção é ruim (e aí a culpa é do treinador) e eles não conseguem se encaixar e render o suficiente.

Ou, talvez, das duas alternativas, as duas em concomitância.

Disso tudo, duas conclusões ficam: 1) bipolar desse jeito, o Brasil caiu para sexto na tabela e, se as eliminatórias sul-americanas terminassem hoje, estaria fora da Copa da Rússia (classificam-se quatro, e o quinto joga uma repescagem); 2) bipolar desse jeito, mesmo com dois terços das eliminatórias pela frente, será extremamente sofrido para o Brasil obter uma vaga.

E fica também uma pergunta no ar: o Brasil dará vida longa ao contestado Dunga?

Dunga, pensativo, durante a partida em que  Brasil e Paraguai empataram por 2 a 2 em Assunção (Lucas Figueiredo - 29.mar.2016/MoWA Press)
Dunga, pensativo, durante o jogo em Assunção (Lucas Figueiredo – 29.mar.2016/MoWA Press)

A seguir, o desempenho de cada jogador da última lista de Dunga (6 dos 25 atuam no Brasil) nos últimos oito dias:

Goleiros

Alisson (Internacional) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Não teve culpa no gol de Cavani, mas o chute de Suárez, autor do segundo gol, era defensável. Fez três defesas na parte final da partida que evitaram que o Brasil saísse de campo derrotado. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Fez duas defesas difíceis no 1º tempo, uma à queima-roupa em chute de Gòmez. Não falhou nos gols. Bom

Marcelo Grohe (Grêmio) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Ficou na reserva. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Ficou na reserva. Sem avaliação

Diego Alves (Valencia-ESP) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Ficou na reserva. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Ficou na reserva. Sem avaliação

Defesa

Daniel Alves (Barcelona-ESP) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Esteve ativo no apoio, especialmente no 1º tempo, e deixou Neymar na cara do gol com um lançamento – o atacante desperdiçou. Caiu de rendimento no 2º tempo. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Permitiu que Benítez cruzasse a bola para Lezcano marcar o primeiro gol do jogo e era quem marcava Benítez no segundo gol da partida. Redimiu-se nos acréscimos do 2º tempo ao aparecer na área, chutar de canhota e  fazer o gol que evitou a derrota. Regular

Miranda (Inter de Milão-ITA) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). A exemplo de quase todo o time, jogou um 1º tempo decente. Depois, sofreu com o crescimento do futebol uruguaio, mas não teve nenhuma falha grave. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Capitão do time na ausência de Neymar, sofreu junto com Gil e companhia com a bola aérea paraguaia no 1º tempo. Sem culpa nos gols, recebeu um cartão amarelo na metade do 1º tempo ao fazer falta em Lezcano. Regular

David Luiz (PSG-FRA) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Não lhe faltou vontade, porém falhou na marcação de Cavani (posicionamento) e de Suárez (lentidão) nos gols do Uruguai. Uma outra falha quase resultou em outro gol de Suárez – Alisson defendeu. Levou um cartão amarelo e ficou suspenso do jogo contra o Paraguai. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Suspenso, não jogou. Péssimo 

Filipe Luís (Atlético de Madri-ESP) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Mal posicionado, não cortou cruzamento para Sánchez, que ajeitou de cabeça para Cavani marcar o primeiro gol. Pelo seu setor, o Uruguai criou alguns problemas no 2º tempo. No ataque, não foi efetivo. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Deu uma escorregada na jogada do primeiro gol do Paraguai, o que o impediu de tentar bloquear o chute de Lezcano. No segundo gol, foi um dos três brasileiros driblados facilmente por Santa Cruz no início da jogada. Fraco no apoio ao ataque. Ruim

Danilo (Real Madrid-ESP) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Ficou na reserva. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Ficou na reserva. Sem avaliação

Marquinhos (PSG-FRA) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Ficou na reserva. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Ficou na reserva. Sem avaliação

Felipe (Corinthians) – Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Convocado para o lugar de David Luiz, ficou na reserva. Sem avaliação

Gil (Shandong Luneng-CHN) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Ficou na reserva. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Substituiu David Luiz e não teve responsabilidade nos gols do Paraguai.  No 2º tempo, fez um gol de cabeça, anulado pelo árbitro, que marcou falta dele no lance. Regular

Alex Sandro (Juventus-ITA) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Ficou na reserva. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Ficou na reserva. Sem avaliação

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Meio-campo

Luiz Gustavo (Wolfsburg-ALE) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Jogou o que se esperava dele: marcação firme e criação nenhuma. Cometeu algumas faltas mais duras. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Não acompanhou Lezcano na jogada do primeiro gol do Paraguai e permitiu drible de Santa Cruz na jogada do segundo gol. Saiu do jogo aos 25 minutos do 2º tempo – entrou Lucas Lima. Ruim

Fernandinho (Manchester City-ING) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Teve liberdade para avançar e esteve na área uruguaia em pelo menos duas oportunidades, uma delas, no gol de Douglas Costa. Com Dunga querendo que o Brasil atacasse mais, deu lugar a Philippe Coutinho, aos 23 minutos do 2º tempo. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Com o Brasil envolvido pela velocidade paraguaia, não viu a bola no 1º tempo. Saiu no intervalo para a entrada de Hulk. Ruim

Oscar (Chelsea-ING) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Ficou na reserva. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Ficou na reserva. Sem avaliação

Willian (Chelsea-ING) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Seu maior mérito foi cruzar na medida para Douglas Costa abrir o placar. Falhou na marcação de Álvaro Pereira, que o driblou facilmente e cruzou para Sánchez escorar e Cavani concluir para o gol. No restante, jogou muito menos do que sabe e pode. Foi substituído por Lucas Lima aos 40 minutos do 2º tempo. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Um jogo de altos e baixos. No 1º tempo, correu muito, chutou a gol e deu passe para Ricardo Oliveira chutar na trave, mas também perdeu a bola que originou o lance do primeiro gol do rival. No 2º tempo, pouco rendeu, porém, já nos acréscimos, percebeu a infiltração de Daniel Alves e rolou a bola para o colega, que dominou na área e empatou o jogo. Regular

Lucas Lima (Santos) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Substituiu Willian aos 40 minutos do 2º tempo. Teve tempo apenas para fazer ótimo lançamento para Neymar, que perdeu a bola, e para sofrer uma falta, que Neymar cobrou por cima do gol. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Entrou aos 25 minutos do 2º tempo no lugar de Luiz Gustavo. Um minuto depois, deu ótimo lançamento para Ricardo Oliveira, que furou na hora do chute. Com seu toque de bola, ajudou o Brasil a botar pressão no rival. Regular

Renato Augusto (Beijing Guoan-CHN) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Ao receber lançamento de Neymar, em bola que ainda foi desviada por Álvaro Pereira, iludiu o goleiro Muslera com um drible de corpo e marcou um belíssimo gol. Esteve bem no 1º tempo, tocando bem a bola, e pareceu cansado no 2º. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). No 1º tempo, esteve sumido e arriscou uma vez a gol, sem direção. No 2º tempo, recuou para cumprir a função de segundo volante. Esforçado, conseguiu ir ao ataque para tentar o gol em um chute e em uma cabeçada, porém foi driblado no início do lance do segundo gol paraguaio. Regular

Philippe Coutinho (Liverpool-ING) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Entrou no lugar de Fernandinho aos 23 minutos do 2º tempo para dar mais dinamismo e movimentação à seleção. Não conseguiu. Pouco pegou na bola e deu um único chute a gol – Muslera defendeu. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Ficou na reserva. Ruim

Ataque

Neymar (Barcelona-ESP) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Como falso centroavante, esteve à vontade no 1º tempo, voltando até a intermediária uruguaia para armar as jogadas. Deu bom passe para Renato Augusto fazer o segundo gol do Brasil. Pecou nas finalizações, errando as três tentativas – duas delas, perto do gol. No 2º tempo, a marcação apertou, especialmente a feita pelo lateral Fucile, e o camisa 10 se irritou, fez falta dura e levou cartão amarelo, ficando suspenso da partida no Paraguai. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Suspenso, não jogou. Ruim

Hulk (Zenit-RUS) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Ficou na reserva. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Substituiu Fernandinho no intervalo e pouco participou da partida até, aos 34 minutos, acordar e disparar um petardo de fora da área, a seu estilo, que Villar rebateu nos pés de Ricardo Oliveira, que concluiu com eficiência. Cinco minutos depois, ainda arriscou mais uma vez – o goleiro pegou. Bom

Douglas Costa (Bayern de Munique-ALE) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Oportunista, marcou de sola, aos 40 segundos de jogo, o primeiro gol do Brasil, após cruzamento de Willian. No restante, a exemplo de Willian, jogou muito menos do sabe e pode. Foi substituído por Ricardo Oliveira aos 32 minutos do 2º tempo. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Mais uma vez, jogou menos do que sabe e pode, dando dois chutes a gol – ambos errados. Regular

Ricardo Oliveira busca a bola dentro do gol do Paraguai após marcar no Defensores del Chaco (Lucas Figueiredo - 29.mar.2016/MoWA Press)
Ricardo Oliveira pega a bola no gol do Paraguai após marcar no Defensores del Chaco (Lucas Figueiredo – 29.mar.2016/MoWA Press)

Ricardo Oliveira (Santos) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Aos 32 minutos do 2º tempo, substituiu Douglas Costa. A bola não chegou até o artilheiro santista. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Apesar de receber pouco a bola, tentou como pôde. Quase marcou no 1º tempo ao acertar o travessão de Villar – também deu um chute para fora. No 2º tempo, errou uma finalização e furou em outra tentativa até que, enfim, balançou a rede ao pegar rebote de Villar em chute forte de Hulk, fazendo o primeiro gol do Brasil. Foi substituído por Jonas aos 35 minutos do 2º tempo, um minuto depois de ter feito o gol. Bom

Jonas (Benfica-POR) – Brasil 2 x 2 Uruguai (eliminatórias). Ficou na reserva. Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Entrou aos 35 minutos do 2º tempo no lugar de Ricardo Oliveira. Participou de uma única jogada e não teve chance de finalizar. Regular

Gabriel (Santos) – Paraguai 2 x 2 Brasil (eliminatórias). Convocado para a vaga de Neymar, ficou na reserva. Sem avaliação

Em tempo 1: As eliminatórias têm uma pausa e só serão retomadas em setembro, quando o Brasil visitará o Equador, segundo colocado (o Uruguai lidera) e receberá a Colômbia, a quinta colocada. A Argentina está em terceiro lugar, e o Chile, em quarto. Antes, veremos a seleção em campo em duas oportunidades. A equipe principal na Copa América, em junho, nos EUA, e a equipe olímpica (com jogadores até 23 anos e três deles com idade acima dessa) nos Jogos do Rio, em agosto – esta última também sob o comando de Dunga. 

Em tempo 2: Esta seção, “Os caras de Dunga”, inaugurada há nove meses, também terá uma pausa, quiçá provisória, no atual formato. O blog continuará a tratar de assuntos relacionados à seleção brasileira e aos jogadores que a integram, porém sem a avaliação individual, semana a semana, de cada atleta convocado.