Único técnico brasileiro nas maiores ligas europeias culpa CBF: “Paramos no tempo”

Por Luís Curro

As sete principais ligas da Europa (Alemanha, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Itália e Portugal) possuem 134 clubes na soma das divisões de elite. Em apenas um deles, um brasileiro é responsável pelo comando técnico. Fabiano Soares Pessoa, de 49 anos, é o seu nome.

Para o treinador do Estoril Praia, de Portugal, a responsabilidade por essa situação é da Confederação Brasileira de Futebol. Na opinião de Soares, o Brasil conta com técnicos de qualidade, mas desatualizados na comparação com os de outros países.

“Está igual há 20 anos. Não há cursos de treinadores e de reciclagem para que os técnicos não parem no tempo. Os treinadores brasileiros estão perdendo oportunidades por falta de reciclagem, mas não por culpa deles. Por culpa da direção da CBF, que não faz um convênio com a Fifa, com a Uefa, para levar gente especializada para cursos e melhorar o nível dos nossos treinadores.”

Nascido no Rio de Janeiro, Soares, então chamado de Fabiano, iniciou a carreira de jogador no Botafogo, em 1987. Era volante. Com poucas oportunidades de jogar, e tendo a ajuda de Alemão (volante titular da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1986, no México), conseguiu uma transferência para o Fabril, de Lavras (MG). De lá, foi para o Cruzeiro e disputou o Brasileiro de 1988. No ano seguinte, atuou no São José, que perdeu o título do Paulista para o São Paulo de Raí. Depois, rumou para a Espanha, onde passou a atuar mais adiantado e a marcar mais gols: defendeu Celta de Vigo (até 1992), Compostela (até 2003) e Racing de Ferrol (até 2004).

Ao se aposentar, decidiu prosseguir ligado ao futebol. “A Real Federação Espanhola ofereceu um curso para ex-jogadores, eu me inscrevi e fiz os três necessários para poder treinar.”

Ele explica que são três módulos: um para treinar equipes juvenis, outro para treinar equipes até da terceira divisão e um último, chamado de Uefa Pro, para treinar equipes de qualquer nível. A partir de 2006, dirigiu Compostela (duas vezes), Bergantiños e Estradense, todos da Espanha. Em 2011, convidado por Vinícius Eutrópio, hoje técnico do Figueirense e então treinador do Estoril, tornou-se auxiliar técnico do clube português. Permaneceu até 2015 na função. Foi quando, no primeiro semestre, assumiu o time, que corria risco de ser rebaixado.

“Estavam com problemas de descenso e confiaram a mim a equipe. Nos salvamos.”

Soares permaneceu no cargo para esta temporada, com o objetivo, segundo ele, de manter o time, que teve uma redução de 40% no orçamento, na primeira divisão do Campeonato Português. A oito rodadas do término da competição, a meta é considerada cumprida – o Estoril está dez pontos à frente do Acadêmica de Coimbra, primeiro clube na zona da degola.

Agora, diz Soares, há uma nova meta estabelecida pela direção do clube (controlado pela empresa de marketing esportivo Traffic): obter vaga para a Liga Europa, o segundo interclubes em importância no velho continente – oito pontos separam o Estoril, hoje, de cumprir essa missão.

Em entrevista por telefone a “O Mundo é uma Bola”, Soares, além de expor sua opinião acerca da falta de técnicos brasileiros na elite da Europa, falou também sobre seu estilo como treinador, a admiração por Pep Guardiola (atual Bayern de Munique, em breve Manchester City) e o desejo de treinar um clube do Brasil.

Também citou três jogadores com idade olímpica que defendem o Estoril e que considera terem potencial para vestir a camisa canarinho, em especial o artilheiro Léo Bonatini.

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Fabiano Soares, treinador do Estoril, da primeira divisão do Campeonato Português (Rodrigo Antunes/Estoril Praia)

Há uma meta traçada para esta temporada com o Estoril?

Fabiano Soares: O Estoril,  no final da temporada passada, a Traffic quis vender o clube. No final de junho, os compradores não chegaram com o dinheiro e ela teve que retomar o clube. Me chamaram e disseram: “Fabiano, segue no comando, nós confiamos em você”. O clube baixou o orçamento em 40% e trouxe muitos jogadores que estavam por aí, sem equipe, e muitos que nunca tinham disputado a primeira divisão. Foram contratados na última hora para o campeonato. Eles queriam a manutenção na primeira divisão, não cair para a segunda. Conseguimos o objetivo, mas agora estão apertando, o objetivo já mudou, querem que a gente lute pela Uefa (classificação para a Liga Europa), apesar de baixarem 40% o orçamento. Futebol é isso.

É possível?

Soares: Enquanto tiver esperança, há vida. Não podemos renunciar a nada, mas, sinceramente, a equipe foi montada para não cair. Correspondeu no campo, o sistema tático ajudou a esconder as carências de muitos jogadores. Tudo é possível no futebol. Mas a direção trocou seu objetivo depois que conseguimos os pontos necessários para não cair, e os treinadores sempre estão em um estresse total. Poderíamos não colocar essa pressão nos jogadores, é uma pressão a mais, era melhor tentar conseguir os pontos jogo a jogo, pensando sempre no jogo seguinte, para no final fazer um balanço. Eu acho que trocar o objetivo e ir pensando declaradamente em ir para a Uefa (Liga Europa) pode ser uma pressão em alguns jogadores que não estão preparados para isso.

Fale sobre a estrutura do clube.

Soares: Nos falta um campo de treinamento, infelizmente a gente treina no campo em que a gente joga. Mas a Traffic nos dá uma estrutura boa para trabalhar, nos dá o que precisamos, estou bastante contente com o que eles têm feito. Como não venderam o clube, estão pouco a pouco melhorando a estrutura e trazendo profissionais formados e capacitados para melhorarmos também a parte técnica. A parte que deveria melhorar é ter um campo de treinamento. Eles estão conversando com a prefeitura e vamos ver se somos capazes de conseguir.

Qual o seu estilo como treinador? Você se espelha em alguém?

Soares: Eu gosto de jogador que trata bem a bola e de uma equipe que pressiona o adversário, não uma equipe que fica lá atrás e joga em contra-ataque. Eu gosto de assumir o controle do jogo, com a equipe sempre pressionando o adversário, para que o adversário sempre rife a bola, para nós recuperarmos a bola e circularmos a bola rápido. É o que eu gosto. Pensar em algum treinador em que eu me espelhe… Eu acho que as comparações são odiosas. Eu não gosto de me comparar com ninguém porque cada um é filho de uma mãe e é único. Eu gosto muito do Pep Guardiola (técnico do Bayern de Munique), ele fez curso comigo e tinha as ideias muito claras, via-se que iria ser um bom treinador. É um treinador que a gente gosta de ver suas equipes jogarem, mas me espelhar nele, não.

Pensa em treinar para clubes mais importante? Como traça a evolução de sua carreira?

Soares: Eu estou bem aqui no Estoril, a direção fala que está contente comigo, mas futebol você sabe como é, o momento muda a cada dia. Eu gostaria de treinar no Brasil ou na Espanha. Tenho o sonho de treinar uma equipe espanhola ou brasileira. Mas aqui estou contente, é uma liga boa, e a cada dia se pode ganhar mais experiência e melhorar o nível como treinador.

Você tem um empresário, alguém que cuide de sua carreira e possa tentar uma transferência?

Soares: Eu acho que o treinador tem que ter um empresário, e eu não tenho. Estou livre e estou confiando em fazer um bom trabalho aqui e ter alguma possibilidade melhor. Ou renovar aqui, como já me prometeram. Mas, para ter uma carreira melhor, eu precisaria conseguir um empresário, até porque hoje em dia é assim que funciona e é assim que tem que ser. Então eu tenho que começar a olhar alguém que me represente para me oferecer a outros clubes.

Você é o único técnico brasileiro nas divisões de elite das principais ligas europeias (Alemanha, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Itália e Portugal). Há uma explicação para isso?

Soares: É um pouco culpa do Brasil, há mais dirigentes torcedores do que dirigentes com novas ideias. Paramos no tempo. Está igual há 20 anos. Não se faz uma reciclagem de direção para entrar gente nova e competente no Brasil, para ter cursos de treinadores e de reciclagem para que os treinadores não parem no tempo. Muito é culpa da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Assim é complicado. Aqui em Portugal, ou na Espanha, quando vou fazer cursos, sempre se fala que no Brasil não tem cursos, estrutura, que os dirigentes que estão lá não dão importância. O futebol mudou muito e é preciso essa reciclagem. Aqui na Europa, a cada três anos precisamos fazer cursos de reciclagem senão não podemos treinar mais. E no Brasil nem cursos tem.

Falta preparo para os brasileiros, há essa percepção na Europa?

Soares: Sim. O pessoal aqui reclama de que no Brasil há treinadores bons, mas não há cursos de reciclagem. Eles têm medo de apostar nesses treinadores porque a maneira de treinar no Brasil é diferente da que temos aqui, e pode ser complicado. Os treinadores brasileiros estão perdendo oportunidades por falta de reciclagem, mas não por culpa deles. Por culpa da direção da CBF, que não faz um convênio com a Fifa, com a Uefa, para levar gente especializada para cursos e melhorar o nível dos nossos treinadores.

Qual o melhor treinador em atividade em Portugal?

Soares: Acho que o Paulo Fonseca, do Braga. E se fala muito do Jorge Jesus, do Sporting. São treinadores muito bons. O Paulo Fonseca é mais jovem (43 anos) e é um treinador que está fazendo uma campanha espetacular. Eu gosto muito de ver a sua equipe jogar. Tem um sistema tático e uma organização, isso é bonito de se ver.

E no Brasil?

Soares: O Tite, no Corinthians, é o que está ganhando, organizando a sua equipe. Mas de longe é difícil (analisar), eu aqui metido no Campeonato Português, é complicado acompanhar o que se faz no Brasil, como se treina. Mas quem está em evidência é o Tite, porque está ganhando com o Corinthians e fazendo boas campanhas.

O que dizer do treinador da seleção de Portugal, Fernando Santos?

Soares: Sinceramente, eu pouco o conheço. Mas imagino que, se está no cargo, é uma pessoa capacitada para exercê-lo. Conheço pouco o trabalho dele.

Newly appointed Portuguese coach Fernando Santos delivers a speech during his presentation at the headquarters of the Portuguese Football Federation in Lisbon on September 24, 2014. Fernando Santos was on September 23 named as the new coach of Portugal, succeeding Portuguese compatriot Paulo Bento. Santos, who will be 60 next month, is a former coach of Greece, whom he took to the quarter-finals of the 2012 European Championship and the round of 16 in the World Cup in Brazil. AFP PHOTO / FRANCISCO LEONG
Fernando Santos é o treinador da seleção portuguesa de futebol (Francisco Leong – 24.set.2014/AFP)

Qual a sua opinião sobre o Dunga, técnico da seleção brasileira?

Soares: Se deram ao cargo a ele é porque acham que ele tem uma capacidade boa de treinamento e para levar a seleção a outros voos. É preciso dar o benefício da dúvida e deixá-lo aí. Antes, até o momento em que ele perdeu na Copa (de 2010, para a Holanda), tinha conseguido bons resultados. Há que deixá-lo trabalhar.

Que análise pode ser feita do elenco do Estoril? Quais os melhores jogadores?

Soares: Eu não gosto de falar individualmente de um jogador, prefiro enfatizar o trabalho de equipe. Essas coisas são proibidas para o treinador. Se eu enfatizo um e deixo outro fora, é complicado, terei problema. A equipe tem 11 e eu prefiro enfatizar os 11. Mas acho que tem jogadores no Estoril que poderiam estar na Olimpíada, disputando pelo Brasil.

Léo Bonatini (ex-Goiás), o artilheiro do time, é um dos que poderiam ser lembrados?

Soares: Acho que sim. Ele tem 15 gols (no Português, em 25 jogos), e o Estoril nunca teve um goleador que tenha feito tantos gols, e em uma liga difícil ele conseguir fazer tantos gols eu acho que já é meritório para ele ir à Olimpíada. Ele seguramente estará só até junho (quando termina a temporada) aqui, haverá muitas equipes atrás dele. É um jogador jovem (21 anos). Com a idade que tem, e facilidade para fazer gols que tem, é lógico que ele estará pouco tempo aqui. Mas esse jogador teria muitas possibilidades de estar na seleção olímpica. Ele e outros também, mas principalmente ele.

Há muitos brasileiros no elenco do Estoril (13), e muitos deles, jovens. Por quê?

Soares: A Traffic comenta comigo que pode vir um jogador, a gente vê os vídeos (desse jogador) e afirmamos “sim” ou “não”. A Traffic tem muitos jogadores, alguns estavam sem equipe no Brasil e eles mandam para cá para ver se conseguem funcionar em outro tipo de futebol. Alguns triunfam, outros não, mas é assim que funciona. Há grandes jogadores no Brasil carentes de oportunidade e quando vêm para cá mostram seu potencial, e a Traffic consegue fazer dinheiro vendendo esses jogadores futuramente.

Algum jogador em Portugal merece ser convocado para a seleção brasileira?

Soares: Eu gostaria de falar dos meus. Por exemplo, o Léo Bonatini para a seleção olímpica, eu duvido que tenha um jogador no Brasil que tenha, com a idade que ele tem, mais gols que ele e jogando como ele vem jogando. Depois, o Jonas (Benfica) é um grande jogador, que tem facilidade para fazer gol e que toda equipe gostaria de ter. Eu duvido que um Bonatini ou um Jonas, que têm muitos gols, não se precise em uma seleção.

Você enaltece o conjunto, mas, além do Léo Bonatini, é possível citar outros nomes para prestar atenção no Estoril?

Soares: O pessoal no Brasil tem muita dúvida sobre o filho do Bebeto (atacante campeão na Copa do Mundo de 1994, nos EUA), o Mattheus (meia-atacante de 21 anos, ex-Flamengo). Ele tem um ano aqui comigo, não tinha dinamismo, e é um jogador que mudou a maneira de jogar e está evoluindo bem. Tem muito talento, ganhou mais agressividade, é um jogador a se ter em conta. O Michael (atacante de 22 anos), ex-Fluminense, que veio para cá com fama de farrista, está se adaptando e para mim vai ser um jogador que vai marcar um tempo aqui no Estoril. Esses três jovens (Matheus, Michael e Bonatini) vão dar muita alegria para nós, aqui, e seguramente para a nossa seleção.

Qual o pior e o melhor momento na sua carreira de treinador?

Soares: Depois que eu tirei a carteira de Uefa Pro, o Compostela me convidou para treinar uma segunda vez e eu fui. Depois de duas semanas, os jogadores resolveram entrar em greve, pois não estavam recebendo, e só apareciam no dia do jogo. Essa foi uma situação horrível, eu jamais pensei que ia passar por isso. O Compostela foi penalizado, caiu e foi uma experiência desagradável que eu tive. E a melhor foi no ano passado, quando me deram a confiança de treinar o Estoril, com problemas de descenso, e salvar a equipe. Foi um bom momento e, depois, claro, seguir no comando. Neste ano estou feliz também.

Em tempo 1: O tempo em Portugal (cinco anos) influenciou bastante Soares, que adquiriu sotaque – o “português de Portugal” é bastante evidente em sua fala.

Em tempo 2: Jonas, artilheiro do Português pelo Benfica, foi convocado por Dunga neste sábado (19) devido a uma contusão de Roberto Firmino, do Liverpool.