“Putin gentil” em partida na Turquia rende multa milionária a jogador russo

Por Luís Curro

As relações diplomáticas entre Rússia e Turquia pioraram desde que, no final de novembro passado, os turcos derrubaram um avião militar russo, alegando invasão de seu espaço aéreo. Houve dois mortos, e a Rússia impôs sanções econômicas à Turquia.

Os países já vinham tendo diferenças devido a posições divergentes acerca da Síria, nação em guerra civil desde 2011 e que faz fronteira com a Turquia. O presidente russo, Valdimir Putin, mantém uma base militar na Síria e defende a permanência do colega sírio, Bashar al-Assad, no poder, enquanto o presidente turco, Recep Erdogan, quer o afastamento dele.

Os interesses políticos e econômicos na região se multiplicam, e não é o caso de detalhá-los aqui.

É o caso, sim, de expor que um jogador do Lokomotiv de Moscou recebeu uma multa de € 300 mil (R$ 1,35 milhão) de seu clube, além de uma sanção disciplinar a ser definida, por, ao término da partida diante do Fenerbahçe, na Turquia, exibir uma camiseta, que ele vestia sob o uniforme da equipe, com a foto de Putin em roupa de soldado e os dizeres “O presidente mais gentil” (feita a tradução do russo).

Ocorreu na terça-feira (16), em Istambul, pela Liga Europa, o segundo interclubes em importância no velho continente, e o meio-campista Dmitri Tarasov, de 28 anos, protagonizou a cena.

Dmitri Tarasov com camiseta com elogio ao presidente russo, Vladimir Putin (Emrah Gurel - 16.fev.2016/Associated Press)
Dmitri Tarasov, do Lokomotiv de Moscou, com camiseta com elogio ao presidente russo, Vladimir Putin (Emrah Gurel – 16.fev.2016/Associated Press)

“Esse é o meu presidente. Eu o admiro e queria mostrar que lhe dou apoio. Não pretendia ofender nem desrespeitar ninguém. Não há nada grave no que fiz e tenho certeza de que as pessoas inteligentes entenderão”, disse Tarasov à TV russa LifeNews.

Então, pelo raciocínio do jogador, os dirigentes do próprio clube são burros, pois a multa indica sinal de reprovação. “A iniciativa de Dmitri, tomada por conta própria, mostrou-se inapropriada para o clube, bem como para ele mesmo”, escreveu o Lokomotiv em seu site.

Também, na visão do jogador, são burros os cartolas da Uefa, que analisará o acontecimento e poderá aplicar sanções ao Lokomotiv e a ele. Ambos serão julgados pelo comitê disciplinar da entidade que rege o futebol europeu, por conduta imprópria.

E também sou burro eu, por estar certo de que, ao fazer o que fez em solo turco, em um jogo com mais de 36 mil pessoas no estádio Sukru Saracoglu, com fotógrafos de diversas agências de notícias presentes, Tarasov fez uma clara provocação. Agiu, sim, premeditadamente.

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Não houve desrespeito? A atitude não foi grave? Há de se perguntar à população turca, que não deve morrer de amores por Putin nem pelos russos. Tanto que turcos, antes do jogo, em atitude condenável, alvejaram com garrafas o ônibus que levada a delegação do Lokomotiv ao estádio.

Eu, nessa disputa, não estou nem do lado da Turquia nem do da Rússia, e sim do lado do diálogo, do entendimento e do bom senso. Do lado da paz. E Tarasov claramente mostrou não estar.

Tanto que, mesmo com a polêmica e torno de seu ato, disse não estar arrependido e avisou que deverá exibir a camiseta novamente futuramente. (Só que, futuramente, o Lokomotiv certamente fará uma vistoria nele antes que entre em campo.)

Por ora, o “patriota” (conforme ele mesmo se autoproclama) Tarasov, que defende o Lokomotiv desde 2010, não pode reclamar de nenhuma punição, já que infringiu norma da Uefa que proíbe aos atletas manifestações políticas, ideológicas e religiosas durante as partidas. Fala-se que a entidade o suspenderá por dez jogos.

Também por ora, o jogador, presente na Copa do Mundo do Brasil em 2014 (foi reserva e não entrou em nenhum jogo da Rússia), só terá a conta bancária um pouco menos gorda. Dono de um salário anual de € 1,5 milhão(!), ficará dois meses e alguns dias sem receber um tostão.

Em tempo 1: O termo “educado”, com o qual Tarasov se refere a Putin, presidente que é aprovado por mais de 89,9% da população de seu país (segundo o Instituto Vtsiom, controlado pelo Estado), é uma alusão à anexação pela Rússia da península ucraniana da Crimeia, em março de 2014, processo no qual o exército de Putin afirma não ter recorrido a armas de fogo. As tropas passaram a ser chamadas pelos russos de “gente gentil”.

Em tempo 2: O Fenerbahçe ganhou a partida por 2 a 0. Ambos os gols foram do volante Souza, ex-São Paulo. O jogo de volta desse mata-mata, que classifica o vencedor às oitavas de final da Liga Europa, será na próxima quinta (25), em Moscou. Mesmo que não tivesse feito nada que o complicasse, Tarasov não jogaria, pois está suspenso por cartões amarelos.