Quem é melhor: Bayern de Munique-2015/16 x Manchester City-2015/16

Por Luís Curro

Uma das principais notícias deste ano no futebol é a contratação do treinador espanhol Pep Guardiola, ex-Barcelona e atualmente no Bayern de Munique, pelo Manchester City, da Inglaterra.

Guardiola é, disparado, o mais elogiado técnico dos dias de hoje. Questionamentos a ele até existem, mas são raridade.

Que Guardiola é mais bem-sucedido que o treinador do City, Manuel Pellegrini (que considero um bom técnico), isso é evidente, basta comparar os currículos.

Que Guardiola fez o que almejava ao trocar a Alemanha pela Inglaterra, isso também está mais que esclarecido, pois quer um novo desafio.

Um ponto interessante é analisar a qualidade de “pé de obra” que Guardiola vai ter à disposição em seu novo clube – assumirá o City em junho.

Ele terá em Manchester uma equipe titular mais qualificada, menos qualificada ou igualmente qualificada à que tem em Munique?

Com base nos atuais elencos, essa comparação pode ser feita e, sendo feita, é possível mensurar se a vida de Guardiola será mais fácil, menos fácil ou igualmente fácil na Inglaterra.

O espanhol Pep Guardiola (esq.), atual treinador do Bayern, que substituírá o chileno Manuel Pellegrini no Manchester City (Fotos Christof Stache/AFP)
Guardiola (esq.), atual treinador do Bayern, que substituírá o chileno Manuel Pellegrini no Manchester City (Fotos Christof Stache/AFP)

Goleiro – Neuer x Hart

É um confronto do titular da seleção alemã contra o titular da seleção inglesa. Hart, que teve algumas falhas no início da carreira, tornou-se um goleiro confiável. Só que Neuer é o melhor de sua posição, no mundo, há pelo menos uns cinco anos. Praticamente não erra e ainda faz com excelência o papel de líbero. Neuer.

Lateral direito – Lahm x Zabaleta

O argentino Zabaleta é um jogador comum que muitas vezes apela para jogadas mais ríspidas, as chamadas “zabaletadas”. Como esteve contundido por um tempo, em seu lugar jogou o francês Sagna, igualmente comum, só que sem a rispidez de Zabaleta. Capitão da Alemanha campeã mundial no Brasil, em 2014, Lahm é o melhor lateral direito deste século, um dos melhores da história. Lahm, com sobras.

Zagueiro – Boateng x Kompany

Esse é um duelo entre dois jogadores que estão no momento contundidos – o belga Kompany retornará aos gramados em breve, antes de Boateng. Ambos são altos (1,92 m) e o alemão é mais forte, com uma cintura um pouco mais dura. Boateng passa mais segurança na marcação do que Kompany, que nas jogadas ofensivas (escanteios, basicamente) é mais perigoso. Empate.

Zagueiro – Badstuber x Otamendi

Ambos estão bem abaixo do nível de Boateng e Kompany. Badstuber, muito querido pela torcida do Bayern, preza pela seriedade, mas eu sempre o considerei grosso. Titular da seleção argentina, Otamendi, que tem atuado na zaga central do City durante a ausência de Kompany, é igualmente sério e igualmente medíocre, além de constantemente dar “zabaletadas”. Empate.

Lateral esquerdo – Alaba x Kolarov

Dois atletas de estilos muito diferentes. O sérvio Kolarov é grandalhão (1,87 m), marcador razoável e bom apoiador e finalizador – bate muito bem na bola. O austríaco Alaba é uma referência na posição. Muito bom marcador, ótimo apoiador, bom finalizador, e é superior a Kolarov no passe e no drible. De quebra, joga também na zaga e no meio-campo quando necessário. Alaba.

O espanhol Xabi Alonso, o polonês Lewandowski e o alemão Thomas Müller, do Bayern de Munique (Fabian Bimmer - 22.jan.2016/Reuters)
O espanhol Xabi Alonso, o polonês Lewandowski e o alemão Thomas Müller, do Bayern de Munique (Fabian Bimmer – 22.jan.2016/Reuters)

Volante – Xabi Alonso x Fernandinho

Campeão mundial com a Espanha em 2010, o experiente Xabi Alonso (34 anos) é o primeiro volante do Bayern. É alto, seguro, preciso nos passes e na bola parada e um dos líderes do time – é durão tanto no cerco aos rivais como aos árbitros, que não lhe poupam advertências ou por jogadas mais ríspidas ou por reclamações. Fernandinho, um dos personagens do 7 a 1 da Alemanha no Brasil na Copa de 2014, joga às vezes de primeiro, às vezes de segundo volante no City – se sai muito melhor no segundo papel, que lhe permite avançar mais, já que sua estrutura física (é um jogador magro e leve) não o torna apto a levar vantagem diante de rivais na marcação, especialmente na bola áerea. Xabi Alonso.

Volante – Vidal x Yaya Touré

Duelo parelho entre jogadores que fazem uma temporada ruim em relação às anteriores. Fisicamente muito diferentes (o chileno tem 1,80 m e 75 kg, e o marfinense, 1,91 m e 90 kg), ambos têm a função de marcar e também de atacar. Nesse conjunto, Vidal consegue se “multiplicar em campo” mais que Touré, pois é mais jovem (28 anos contra 32) e tem mais fôlego. O chileno é um verdadeiro motor, incansável, sem deixar de ser uma presença ofensiva, apesar de no Bayern estar fazendo menos gols que na Juventus. Touré, que não deve ficar no City quando Guardiola chegar (devido a problemas de relacionamento entre eles no Barcelona), finaliza melhor que Vidal, aparece mais no ataque, porém é pior marcador. Vidal, por pouco.

Meia-atacante – Robben x De Bruyne

Robben é bem mais um atacante do que um meia, e De Bruyne, o inverso, mas são os jogadores que atuam pelo setor direito do ataque. O belga, que custou € 74 milhões ao City, está lesionado no joelho e ficará pelos menos dois meses no estaleiro. Ele é muito ótimo na criação e nas assistências, finaliza bem de meia distância, é o cara das bolas paradas (escanteios e cobranças indiretas de faltas). Dribla pouco e falta-lhe velocidade, duas das características mais marcantes do incisivo Robben, que, recuperado de lesão, voltou a jogar com constância pelo Bayern. É explosão (Robben) x cadência (De Bruyne). Empate.

Meia-atacante – Douglas Costa x Sterling

Douglas Costa tem sido um dos melhores jogadores do Bayern nesta temporada. Atuando pelas pontas, especialmente pela esquerda, faz qualquer marcador sofrer com seus dribles em velocidade, que culminam em cruzamentos venenosos para Müller e Lewandowski finalizarem. Sterling, uma das revelações recentes do futebol inglês, faz temporada decepcionante, em especial pelo que custou: o City pagou cerca de € 62 milhões ao Liverpool. São cinco gols e duas assistências em 23 partidas no Campeonato Inglês. Douglas Costa, em 15 jogos na Bundesliga, marcou dois gols e deu oito assistências. Douglas Costa.

Meia-atacante – Thomas Müller x David Silva

Müller é o segundo atacante do Bayern, porém tem recuado constantemente para receber a bola, ficando Lewandowski mais próximo à área. Essa função permite confrontá-lo com David Silva, o principal articulador do time inglês. Os estilos são muito distintos, as características físicas e técnicas, também. O espanhol de 1,70 m é daqueles jogadores que cairiam como uma luva no Barcelona – toca, devolve, toca, devolve, faz a bola girar até que surja uma oportunidade de um passe vertical, geralmente para Agüero, ou para acelerar o jogo com uma tabelinha. Para o alemão de 1,86 m, ir em direção ao gol costuma ser a primeira opção. Ele é rápido e gosta de acelerar o jogo, fazer tabelas e estar muito presente na área para, ótimo finalizador que é, concluir os cruzamentos de Robben, Lahm, Alaba e Douglas Costa. Müller.

O argentino Agüero, o belga De Bruyne e o marfinense Yaya Touré, do Manchester City (Paul Ellis - 16.jan.2016/AFP)
O argentino Agüero, o belga De Bruyne e o marfinense Yaya Touré, do Manchester City (Paul Ellis – 16.jan.2016/AFP)

Atacante – Lewandowski x Agüero

Já fiz essa comparação à época em que tanto o polonês como o argentino marcaram cinco gols cada um em um mesmo jogo. O embate foi duro, e Agüero ganhou por, na minha avaliação, ser mais decisivo que Lewandowski. Agüero.

O conjunto

O Bayern é um dos times a serem batidos no futebol mundial. Em território alemão, tem sido hegemônico na Bundesliga desde antes da chegada de Guardiola. Pela qualidade de sues jogadores, em um campeonato de pontos corridos, não há quem possa superá-lo – caminha para o quarto título seguido na Bundesliga. É uma equipe muito entrosada e que não sente a troca de jogadores, ou por lesões ou por opção de Guardiola. Entram Rafinha, Juan Bernat, Thiago Alcántara, Götze, Coman… e o time mantém o ritmo. O City não está nesse nível. Possui substitutos menos qualificados (Sagna, Clichy, Fernando, Delph, Navas) e nesta temporada tem oscilado – ocupa a quarta posição na tabela da Premier League, liderada pelo Leicester. A dependência dos gols de Agüero e de Yaya Touré jogar bem é enorme. Bayern, fácil.

Resultado (o empate conta um ponto para cada clube): Bayern 11 x 4 City. Uma bela goleada.

Conclusão: Guardiola troca “o certo pelo duvidoso” e terá, sim, muito a fazer para transformar o Manchester City em uma potência na Europa. O time inglês tem, no papel, jogadores de altíssimo nível (e bem caros), mas na prática eles não rendem o suficiente para alçar voos mais altos.

Há limitações nas duas laterais, especialmente na direita. Fernandinho de primeiro volante é inviável. Yaya Touré, um dos pilares da equipe, deve ser negociado. Quando um titular do nível de De Bruyne se machuca, não há substituto que consiga fazer 10% do que ele faz…

X

Não é uma situação animadora, especialmente na comparação com o Bayern, então o City será, sim, um grande teste para o espanhol.

Guardiola, que não se contenta com pouco, já deve estar pensando, e muito, em como modificar esse cenário.

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