Os caras de Dunga – O lugar certo para Douglas Costa é na ponta, de preferência na esquerda

Por Luís Curro

Já faz um tempo, quase três meses, mas não custa lembrar: nos últimos jogos da seleção brasileira, Douglas Costa foi fundamental.

13 de novembro. O Brasil não joga bem em Buenos Aires e perde para a Argentina por 1 a 0. Aos 12 minutos do segundo tempo, Dunga coloca Douglas Costa no lugar do centroavante santista Ricardo Oliveira. Aos 13 minutos, o jogador do Bayern de Munique aparece na área para cabecear firme. A bola bate no travessão e, na sobra, Lucas Lima chuta para empatar. Resultado final: 1 a 1.

17 de novembro. O Brasil soma uma vitória, um empate e uma derrota e precisa passar pelo Peru em Salvador para não correr risco de encerrar o ano fora da zona de classificação para a Copa de 2018. Aos 22 minutos, Willian vai à linha de fundo pela direita e cruza à meia altura; Douglas Costa aparece na pequena área e desvia para a rede: 1 a 0. Segundo tempo. Aos 13 minutos, Douglas Costa domina a bola na ponta direita, faz fila na defesa do Peru, passando por quatro rivais, e toca para Renato Augusto, que amplia: 2 a 0. Aos 32 minutos, Douglas Costa recebe na ponta direita, invade a área, se livra de um beque e chuta forte; o goleiro rebate e Filipe Luís pega o rebote: 3 a 0.

Em quatro gols, participação em todos. Não dá para imaginar que Douglas Costa não seja titular diante do Uruguai, no dia 25 de março, na Arena Pernambuco, na retomada das eliminatórias sul-americanas. Ou dá?

Essa dúvida existia, ou ainda existe, porque há uma boa disputa pelas vagas no setor ofensivo da seleção. Neymar não pode não jogar, então são dois lugares a serem preenchidos no esquema 4-2-1-3 que tem sido utilizado por Dunga. E há quatro jogadores, se a última convocação for repetida, para ocupá-los: Douglas Costa, Willian, Ricardo Oliveira e Hulk.

Neymar de centroavante é uma alternativa, mas seria deixá-lo fora de posição e possivelmente minimizar seu potencial. Ele rende muito mais pela esquerda do ataque.

Na direita, a primeira opção de Dunga é Willian, que já mostrou jogar muito bem por ali, tanto pela seleção como pelo Chelsea.

Com Neymar e Willian abertos, no meio jogaria Ricardo Oliveira, único centrovante de ofício na relação de convocados. Nem Douglas Costa nem Hulk atuam enfiados entre os zagueiros em seus respectivos clubes (Bayern e Zenit).

Hulk, apesar de canhoto, gosta de atuar pela direita, onde consegue ampliar as possibilidades de dar seu potentíssimo chute: corta o marcador para o meio e dispara a bomba.

E Douglas Costa?

Não poderia ser o “1” no esquema, em vez de Renato Augusto, Lucas Lima, Oscar ou Kaká?

O técnico Guardiola instrui Douglas Costa em treino do Bayern (Karin Jaafar - 10.jan.2016/AFP)
O técnico Guardiola instrui Douglas Costa em treino do Bayern (Karin Jaafar – 10.jan.2016/AFP)

A resposta é não.

Nas vezes em que Pep Guardiola escalou Douglas Costa como meia ofensivo no Bayern, com o francês Coman na ponta esquerda e o holandês Robben na ponta direita, o rendimento do brasileiro não foi o mesmo. Foi o que se viu na partida diante do Bayer Leverkusen, no sábado (6), e na anterior, contra o Hoffenheim. Nesses jogos, ele só cresceu ao cair pelas pontas.

Pois o forte mesmo desse gaúcho de Sapucaia do Sul é atuar pelos flancos. Receber a bola e partir para cima do adversário, usando seus melhores recursos, a velocidade e o drible. Não foram poucas as vezes em que, desse modo, chegou à linha de fundo e cruzou para Lewandowski ou Müller entrarem de frente para o gol e concluírem com sucesso.

Douglas Costa faz essa jogada, a de linha de fundo (que, como o drible, está em desuso no futebol) parecer fácil – e mortal. E, por ser canhoto, a ponta esquerda é seu habitat.

E então, Dunga, como fica? Escalar Douglas Costa ou não escalar? E, escalando-o, onde?

Eis questões a serem respondidas, em breve, pelo treinador.

A seguir, o desempenho de cada jogador da última lista de Dunga (7 dos 23 atuam no Brasil) nos últimos seis dias:

Goleiros

Alisson (Internacional) – São José (2)0 x 0(3) Inter (Gaúcho e Recopa Gaúcha). Fez apenas uma defesa fácil durante a partida. Na disputa de pênaltis, chutou o seu para fora, mas defendeu o cobrado por Diego Torres e o batido pelo goleiro rival, Fábio, que deu o título da Recopa ao Inter. Inter 3 x 2 Ypiranga (Gaúcho). Fez uma boa defesa no 1º tempo e outra no 2º tempo e não teve culpa nos gols – um de falta e outro após escanteio. Bom

Cássio (Corinthians) – Audax 0 x 1 Corinthians (Paulista). Pouco exigido, no 2º tempo mostrou frieza ao defender um sem-pulo de Mike. Bom

Jefferson (Botafogo) – Botafogo 2 x 1 Portuguesa (Estadual do Rio). O capitão do time não teve culpa no gol de cabeça de Rafael Paty. Depois, fez uma defesa fácil, no meio do gol. Regular

Defesa

Daniel Alves (Barcelona-ESP) – Barcelona 7 x 0 Valencia (Copa do Rei). Poupado, não foi relacionado para a partida. Levante 0 x 2 Barcelona (Espanhol). Pouco presente no ataque, teve algumas falhas na marcação. Recebeu um cartão amarelo e foi substituído aos 31 minutos do 2º tempo – entrou Aleix Vidal. Regular

Miranda (Inter de Milão-ITA) – Inter 1 x 0 Chievo (Italiano). Em escanteio no início do 2º tempo, disputou a bola na área do Chievo, e ela sobrou para o artilheiro Icardi fazer o gol jogo. Em outro escanteio, conseguiu cabecear, mas o goleiro evitou o gol. Esteve bem na marcação, mas recebeu um cartão amarelo. Verona 3 x 3 Inter (Italiano). Suspenso pelo quinto cartão amarelo na Série A, ficou fora desse jogo. Bom

David Luiz (PSG-FRA) – PSG 3 x 1 Lorient (Francês). Poupado, ficou na reserva – jogaram Thiago Silva e Marquinhos. Olympique de Marselha 1 x 2 PSG (Francês). Voltou a formar dupla com Thiago Silva e não teve responsabilidade no gol do Olympique. Regular 

Filipe Luís (Atlético de Madri-ESP) – Atlético 3 x 1 Eibar (Espanhol). Cumpriu suspensão por causa da botinada que deu em Messi no jogo contra o Barcelona, que resultou em sua expulsão. Sem avaliação

Danilo (Real Madrid-ESP) – Granada 1 x 2 Real Madrid (Espanhol). Desta vez, não ficou nem na reserva de Carvajal. Um problema no pé o afastou da partida. Sem avaliação

Gabriel Paulista (dir.) tenta marcar Pugh, do Bournemouth (Dylan Martinez - 7.fev.2016/Reuters)
Gabriel Paulista (dir.) tenta marcar Pugh, do Bournemouth (Dylan Martinez – 7.fev.2016/Reuters)

Gabriel Paulista (Arsenal-ING) – Arsenal 0 x 0 Southampton (Inglês). Atuou novamente no lugar de Mertesacker. No 1º tempo, conseguiu impedir o senegalês Mané de marcar ao chegar junto, sem falta, em jogada na grande área. No 2º tempo, saiu jogando errado e deu a bola no pé de Mané, que por pouco não fez 1 a 0. Recebeu um cartão amarelo. Bournemouth 0 x 2 Arsenal (Inglês). Atuou mais uma vez na vaga que até então era de Mertesacker. No 1º tempo, perdeu na corrida para um rival e quase o Arsenal levou um gol – de resto, não comprometeu. Regular

Gil (Shandong Luneng-CHN) – Shandong Luneng 6 x 0 Mohun Bagan (Liga dos Campeões da Ásia). Diante da equipe da Índia, fez sua estreia pelo time dirigido por Mano Menezes, que goleou sem levar gol. Bom

Douglas Santos (Atlético-MG) – Figueirense  2 x 1 Atlético-MG (Primeira Liga). O treinador Diego Aguirre optou por dar chance a reservas, e Douglas Santos foi um dos titulares não relacionados para a partida. Sem avaliação

Meio-campo

Luiz Gustavo (Wolfsburg-ALE) – Schalke 3 x 0 Wolfsburg (Alemão). Suspenso pelo quinto cartão amarelo na Bundesliga, ficou fora dessa partida. Sem avaliação

Elias (Corinthians) – Audax 0 x 1 Corinthians (Paulista). No começo da partida, tentou de cabeça após cruzamento na área, mas errou o alvo. No 2º tempo, apareceu de surpresa em ataque pelo meio e quase fez o gol – o goleiro Felipe Alves salvou. Foi substituído aos 40 minutos por Willians. Bom

Fernandinho (Manchester City-ING) – Sunderland 0 x 1 Manchester City (Inglês). Jogou mais recuado, como primeiro volante, preocupando-se primordialmente com a marcação. Recebeu um cartão amarelo nos acréscimos do 2º tempo. Manchester City 1 x 3 Leicester (Inglês). A velocidade do Leicester no contra-ataque foi um complicador para Fernandinho, que no segundo gol falhou ao não conseguir desarmar Kanté. Regular

Oscar (Chelsea-ING) –Watford 0 x 0 Chelsea (Inglês). No primeiro jogo depois de ter enfim jogado bem, deu duas finalizações, no 2º tempo. A primeira, de dentro da pequena área porém bem marcado, foi para fora; a segunda, de fora da área, o goleiro Gomes espalmou. Chelsea 1 x 1 Manchester United (Inglês). Saiu aos 10 minutos do 2º tempo sem ter feito praticamente nada – entrou Hazard. Ruim

Willian (esq.) em disputa de bola com Martial, do Manchester United (Stefan Wermuth - 7.fev.2016/Reuters)
Willian (esq.) em disputa de bola com Martial, do Manchester United (Stefan Wermuth – 7.fev.2016/Reuters)

Willian (Chelsea-ING) – Watford 0 x 0 Chelsea (Inglês). Mais fixo pela direita do ataque, criou menos que em partidas anteriores – deu alguns cruzamentos não aproveitados pelos companheiros. Chelsea 1 x 1 Manchester United (Inglês). Correu muito, bateu faltas, tentou jogadas pela direita do ataque. Faltou um gol ou uma assistência. Regular

Lucas Lima (Santos) – Ponte Preta 0 x 2 Santos (Paulista). Ativo e móbil, sofreu o pênalti que originou o segundo gol santista, de Gabriel. Ainda no 1º tempo, arriscou chute de direita, que não é a perna boa, e a bola passou perto do gol da Macaca. Levou um cartão amarelo por reclamação. Santos 2 x 1 Ituano (Paulista). Bateu o escanteio que resultou no gol de cabeça de Gustavo Henrique, e armou quase todas as jogadas ofensivas do Santos. Porém erros alguns passes e novamente recebeu um cartão amarelo. Regular

Renato Augusto (Beijing Guoan-CHN) – Deixou o Corinthians para atuar no futebol chinês, que está na intertemporada. Sem avaliação

Kaká (Orlando City-EUA) – Orlando 4 x 0 Eastern Florida State College (amistoso). Kaká não participou do primeiro amistoso da equipe do ano. Sem avaliação

Ataque

Neymar (Barcelona-ESP) – Barcelona 7 x 0 Valencia (Copa do Rei). No primeiro gol da goleada, roubou a bola no meio-campo, avançou e serviu Suárez, que marcou – foram quatro do uruguaio na partida. No terceiro, deu leve toque de calcanhar para Messi, que marcou – foram três do argentino na partida. Na melhor chance que teve para fazer o seu, um pênalti nos acréscimo do 1º tempo, Neymar desperdiçou – bateu na trave. Levante 0 x 2 Barcelona (Espanhol). Messi teve um gol legítimo anulado e deu o passe para Suárez marcar nos acréscimos do 2º tempo. Neymar não jogou mal, mas esteve longe de brilhar. Regular

X

Hulk (Zenit-RUS) – Norrköping 2 x 3 Zenit (Atlantic Cup). Marcou o segundo gol da equipe e deu o passe para Danny fazer o gol da vitória sobre a equipe sueca no torneio em Algarve (Portugal). Zenit (4)1 x 1(3) Örebro (Atlantic Cup). Fez o cruzamento para o o gol de Dzyuba, que abriu o placar para o Zenit diante de outra equipe da Suécia. Na disputa de pênaltis, converteu sua cobrança. O Zenit se sagrou campeão do torneio. Bom

Douglas Costa (Bayern de Munique-ALE) – Bayer Leverkusen 0 x 0 Bayern (Alemão). Jogou 60 minutos como meia-esquerda, sem brilho. A partir daí, foi deslocado para a ponta esquerda, onde é notório que rende mais, e fez jogadas em velocidade e cruzamentos, dessa vez insuficientes para levar o Bayern à vitória. Regular

Ricardo Oliveira (Santos) – Ponte Preta 0 x 2 Santos (Paulista). Logo aos 9 minutos de jogo, apareceu na pequena área para concluir cruzamento de Gabriel e fazer seu primeiro gol em 2016. Santos 2 x 1 Ituano (Paulista). Marcou de pênalti, nos acréscimos do 2º tempo, o gol da vitória santista. Bom

Em tempo: Tem um leitor que sugeriu uma troca de esquema na seleção, para o 3-5-2, em uma solução que deixaria o time, hipoteticamente, assim escalado: Alisson; Miranda, David Luiz e Gil; Willian, Elias, Luiz Gustavo, Renato Augusto (ou Lucas Lima) e Douglas Costa; Ricardo Oliveira e Neymar. Willian e Douglas Costa seriam alas, que atacariam quando o Brasil estivesse com a bola e marcariam quando não estivesse. Parece-me uma boa opção, pois permitiria a formação de duplas gabaritadas por ambos os lados (Willian e Elias na direita e Douglas Costa e Neymar na esquerda), sem abrir mão de um armador pelo meio e de um centroavante. Só há um problema: Dunga não usa o 3-5-2 – e não o vejo mudando de ideia.