A decadência do drible e o malabarista da bola

Por Luís Curro

Os momentos lúdicos são um dos prazeres do futebol.

Porém dentro de campo só raramente se vê, nos campeonatos de primeira linha, uma jogada individual espetacular, um lance de efeito, um drible desconcertante, algo que, além do gol bonito (que ocorre com mais frequência), chame a atenção, faça o torcedor/espectador ficar boquiaberto.

O drible, infelizmente, está em baixa nos dias de hoje. Um elástico (consagrado por Rivellino), uma carretilha ou lambreta (marca de Falcão, do futsal), um chapéu, uma caneta (Luis Suárez adora tentar), uma meia-lua (“drible da vaca”)… todas essas fintas estão em desuso.

O drible desconcertante se tornou uma espécie de vilão. Sem ser denunciado por crime algum, virou réu.

(Um parênteses: a embaixadinha, que nem drible é, é “crime hediondo”; não há quem ouse fazer.)

Basta um Neymar, um dos raros jogadores que ainda ousam ir para cima de um rival e arriscar fazer algo diferente, tentar uma jogada audaciosa (geralmente encerrada com uma falta dura) que os jogadores do time adversário o cercam, o intimidam, alegam que ele falta com o respeito.

Faz alguns meses, Douglas Costa, da seleção brasileira e do Bayern de Munique, decidiu peitar as “regras” e arriscou uma lambreta em jogo da Bundesliga. Foi repreendido até por um companheiro de time, o hábil e veloz holandês Robben.

Não me surpreenderei se em breve os árbitros forem orientados por comitês retrógrados de federações nacionais e/ou internacionais a advertir com cartão amarelo o atleta que se atrever a dar um drible ousado.

Afinal, hoje nem comemorar gol à vontade se pode. Dependendo da rigidez do juiz, tirou a camisa, cartão amarelo, exagerou na vibração fora das quatro linhas, cartão amarelo.

Fazem de tudo para deixar o futebol menos alegre.

Então, se dentro de campo o drible sofre (afinal, pra que driblar, já que o exemplo maior de sucesso é o Barcelona, cuja característica marcante é a eficácia do passe?), resta olhar para fora dele, onde o ludismo ainda tem algum espaço.

(Outro parênteses: felizmente o passe de calcanhar ainda não é hostilizado ou condenado.)

Neymar já se divertiu com um golaço que fez pelo Barcelona no Villarrreal, jogadores e ex-jogadores já “ficaram tontos” em prol de uma campanha das Nações Unidas, e há mais situações em que é possível se entreter e dar risadas com invencionices diversas.

Uma delas é o desafio entre o holandês Soufiane Touzani, um dos expoentes do futebol “freestyle” (execução de malabarismos com a bola) e também apresentador de programa de televisão, e o centroavante italiano Mario Balotelli, emprestado pelo Liverpool ao Milan.

Dono de estilo despojado, Balotelli, 25 anos, 1,89 m e 88 kg, disse que Touzani, 29 anos, altura e peso desconhecidos, não seria capaz de lhe aplicar uma caneta (passar a bola entre as pernas).

A brincadeira, gravada em vídeo, viralizou: já teve mais de 960 mil visualizações no YouTube.

Balotelli x Touzani (Reprodução YouTube)
Balotelli x Touzani (Reprodução YouTube)

Super Mario, como é apelidado Balotelli, surgiu há alguns anos como um potencial superatacante. Alto, forte, vigoroso, habilidoso, bom finalizador com os pés e com a cabeça.

Só que o temperamento muitas vezes explosivo e a falta de maturidade, além de uma série de polêmicas extracampo, o prejudicaram. Teve problemas disciplinares (especialmente com o técnico José Mourinho, na Inter de Milão) que ofuscaram seu talento.

Mesmo assim, o jogador  fez boas temporadas nos anos que antecederam competições internacionais importantes (em 2011/2012, pelo Manchester City, e em 2012/2013 e 2013/2014, pelo Milan), resultando em convocações para defender a Squadra Azzurra na Eurocopa de 2012, na Copa das Confederações de 2013 e na Copa do Mundo de 2014.

Depois, decaiu. Registrou péssima passagem pelo futebol inglês e é reserva no Milan.

A meu ver, ainda é o melhor atacante que a Itália tem. Mas, para regressar à seleção, precisa voltar a mostrar o futebol vistoso e eficiente de anos atrás. Ser o artilheiro de outrora.

E, menos relevante, fechar as pernas para evitar levar um drible humilhante – constrangimento inofensivo em uma brincadeira, mas digno de abalar o moral em uma partida de campeonato.