Treinadora faz sucesso na 2ª divisão da França e abafa preconceito

Por Luís Curro

Ex-capitã da seleção francesa, Corinne Diacre é uma exceção em seu país – e também no mundo.

É a treinadora do Clermont Foot, time da segunda divisão do Campeonato Francês (Ligue 2).

Mas a ex-zagueira não treina mulheres. É a técnica do time de homens do clube. A primeira mulher a dirigir efetivamente uma equipe masculina profissional na França.

E não é de hoje. Corinne foi contratada em julho de 2014. Ela se lembra com desgosto de palavras que ouviu e leu logo depois de sua chegada – havia muitos detratores, e era óbvio que a questão do gênero determinava a ofensiva deles.

Passados 18 meses, ela continua empregada, na mesma função. Teve seu contrato renovado em setembro último e abafou o preconceito.

Corinne pode ser uma precursora ao mostrar que mulheres também podem ter êxito ao comandar homens no futebol.

Corinne Diacre, treinadora do Clermont Foot, da França (Reprodução/Site do Clermont Foot)
Corinne Diacre, treinadora do Clermont Foot, da França (Reprodução/Site do Clermont Foot)

A princípio, parecia lance de marketing de Claude Michy, o presidente do Clermont Foot, sediado em Clermont-Ferrand, cidade da região central da França que tem 141,5 mil habitantes.

Um mês e meio antes de anunciar Corinne, o dirigente havia contratado outra treinadora, Helena Costa, de 37 anos, que ficou pouco tempo no cargo.

A portuguesa, chamada de “Mourinho de saias”, demitiu-se sem comandar o time em um único jogo. Saiu alegando “falta de respeito” de seus superiores (homens) e de não ser “mais que um rosto para atrair publicidade”.

Michy não se abalou, considerou a atitude de Helena “incompreensível” e fez o convite a Corinne, que havia três temporadas treinava o time feminino do Soyaux, conduzindo-o à elite em 2013.

Ainda tinha cara de jogada marqueteira, e de fato o Clermont Foot ficou mais conhecido, mas a aposta do cartola deu, e ainda está dando, certo.

A ex-capitã da seleção francesa passa orientações aos jogadores (Reprodução/Site do Clermont Foot)
A ex-capitã da seleção francesa passa orientações aos jogadores (Reprodução/Site do Clermont Foot)

Em sua primeira temporada (2014-2015), Corinne conseguiu melhorar a posição do clube em relação à anterior (subiu de 14º para 12º lugar, com 12 vitórias, 13 empates e 13 derrotas).

Na segunda temporada, a atual, o Clermont Foot é nada menos do que terceiro colocado na tabela. Soma 8 vitórias, 7 empates e 4 derrotas e, com 31 pontos, luta para se aproximar de Nancy (39) e Dijon (37), os clubes que subiriam de divisão se a Ligue 2 terminasse hoje.

“O sonho seria a promoção (para a Ligue 1) com o Clermont”, declarou Corinne à revista “France Football”, que a elegeu a melhor treinadora da Ligue 2 em 2015.

Se vai conseguir ou não esse feito, saberemos ao término do campeonato. Um outro, porém, ela já obteve: o respeito do mundo masculino ao seu redor.

Os jogadores estão com ela. Se não estivessem, o time não teria chegado aonde chegou. Um deles, aliás, é o artilheiro disparado da Ligue 2: o atacante senegalês Famara Diédhiou marcou 17 gols nas 18 vezes que esteve em campo.

O presidente Michy está com ela – ou não teria renovado o seu contrato até 2018.

E os assistentes técnicos também estão com ela – e são só elogios ao trabalho dela. “Corinne é a chefe. Ela sabe se fazer respeitar” disse Emmanuel Gas. “Não há diferenças para um técnico. A única é que tomamos banho em vestiários diferentes”, afirmou Jean Noel Cabezas.

A técnica conquistou o respeito dos jogadores e do estafe do time (Reprodução/Site do Clermont Foot)
A técnica conquistou o respeito dos jogadores e do estafe do time (Reprodução/Site do Clermont Foot)

Em tempo: Eu desejo que Corinne tenha a cada dia mais sucesso, pois a desigualdade de gênero não pode prevalecer nem no futebol nem em qualquer outra atividade, esportiva ou não.