Chamado de Pitbull, brasileiro busca título nos EUA

Por Luís Curro

Começam neste domingo (22) nos EUA as semifinais da Major League Soccer (MLS), o principal campeonato de futebol que reúne equipes norte-americanas e canadenses.

E não será Kaká, melhor jogador do mundo em 2007 e que ainda defende a seleção (tem sido reserva no time de Dunga), o brasileiro em campo na reta final da disputa pelo título, mas sim Felipe Martins, 25 anos, 1,75 m, praticamente um desconhecido em seu país natal.

O Orlando City, equipe de Kaká, não conseguiu avançar aos playoffs (etapa decisiva e eliminatória da liga, com partidas mata-mata, em ida e volta).

O New York Red Bulls (NYRB), time em que Felipe está, sim. E com a melhor campanha na fase classificatória: 18 vitórias, 6 empates, 10 derrotas.

Na primeira rodada dos playoffs, eliminou o DC United, clube da capital dos EUA, Washington.

Na final da Conferência Leste, o NYRB duela com o Columbus Crew. O primeiro jogo é nesta noite, às 20 horas (horário de Brasília), em Ohio – a ESPN+ transmite. Na outra semifinal, o confronto é Dallas x Portland.

Felipe em ação na Major League Soccer (Divulgação New York Red Bulls)
Felipe em ação na Major League Soccer (Divulgação New York Red Bulls)

Na quarta (18), “O Mundo é uma Bola” entrevistou por telefone o paranaense Felipe, titular em todas as 36 partidas do NYRB, nas quais marcou três gols e deu cinco assistências.

O meio-campista, que revelou que é corintiano, falou, entre outros temas, sobre sua carreira (construída desde muito cedo longe do Brasil), seu estilo de jogo (de muito fôlego e pegada, tanto que é chamado de Pitbull pelos torcedores do NYRB), das perspectivas de conquistar o título inédito para o clube (“se estivermos no nosso melhor, somos os favoritos”), da vida em Nova York (dedicada, além do futebol, à mulher, a italiana Nicole, e ao filho, Noah, de um ano e cinco meses), da preocupação com atos terroristas depois dos atentados de sexta (13) na França que deixaram 129 mortos.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista:

Terrorismo

O EUA são um país que mantêm muito a preocupação. Aumentaram a segurança na cidade (Nova York) e já falaram que a segurança nos estádios será reforçada. Pediram aos torcedores para chegar antes ao estádio porque a segurança vai ser muito maior por causa desses acontecimentos. Tentamos levar uma vida normal, mas a gente acaba se preocupando, até porque sou pai de família e fico preocupado com o que pode acontecer. Mas temos que seguir e esperar que essas coisas mudem, que um dia isso tudo acabe.

Evolução da carreira

Comecei a jogar em Engenheiro Beltrão (PR), na escola, quando tinha de 5 para 6 anos, ganhando campeonatos escolares. Depois, jogue em Londrina, depois em Santa Catarina. Daí eu fui para o Campo Grande (no Rio de Janeiro), que na época era do empresário Pedrinho Vicençote, tinha um time lá que mandava jogadores para a Itália. Disputei o Campeonato Carioca, fui um destaques, com 14 para 15 anos. Isso despertou o interesse do Padova, fui para lá com 15 anos e meio. Lá joguei três anos e me profissionalizei, joguei na Série C. De lá fui para o Winterthur, na parte alemã da Suíça, onde joguei cinco meses lá e despertei o interesse do Lugano (outro time da Suíça). No fim de 2011, treinador atual dos Red Bulls (Jesse Marsch) me viu jogar e me contratou para jogar no Montreal (do Canadá, que disputa a MLS). Na primeira temporada fiquei entre os cinco melhores jogadores jovens da liga. Neste ano, o treinador veio para os Red Bulls e me trouxe para cá também.

Estilo de jogo

Sou versátil, atuei em várias posições na Europa, taticamente eu me considero um jogador inteligente. Eu cresci jogando de meia direita e no futebol europeu me tornei um meia-atacante. Aqui no Estados Unidos eu tenho atuado no meio, no esquema 4-2-3-1. Então eu me considero um segundo volante. Eu lidero a liga em vários aspectos, como em maior distância percorrida no campo, em bolas recuperadas, e nos últimos quatro anos tive 22 assistências (foram na verdade 29) e 15 gols. Se for para me comparar com alguém, pode ser com o Elias, que joga de área a área, faz tanto a parte ofensiva como a defensiva. Mas com certeza eu não chego aos pés do Elias, que é um grande jogador e tem feito muito pela seleção e pelo Corinthians.

Fator Kaká

Depois que o Kaká chegou (aos EUA), muito mais jogos são exibidos no Brasil, a imprensa está cobrindo muito mais a liga americana. Para o próximo ano, o Orlando já tem todos os ingressos vendidos para toda a temporada. Ele causou um impacto muito grande na liga e pode abrir a porta para brasileiros nos próximos anos.

Veteranos famosos

O (italiano) Pirlo é um jogador conhecido mundialmente, ganhou o máximo que um jogador pode ganhar na carreira (a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha). Alguns jogadores chegam à liga com um pouco mais de idade e não conseguem apresentar o mesmo nível físico dos outros jogadores. Não sou hipócrita de me comparar com esses jogadores (Pirlo, Gerrard, Lampard, Kaká), mas joguei alguns jogos contra eles e em todos esses jogos eu saí vitorioso. Não falaria que sou melhor que eles, mas em campo, fisicamente, eu saí vitorioso, e isso é o mais importante.

Jogador provocativo

(Risos) Eu tenho alguns apelidos aqui. Os torcedores dos Red Bulls me chamam de Pitbull. Alguns jogadores me chamam de Iron Horse, que seria o cavalo de corrida (a tradução literal é Cavalo de Ferro). Eu sou um jogador muito provocativo dentro de campo. Principalmente em uma liga muito física como a dos Estados Unidos, em que se joga muito forte e que é comparada com o Campeonato Inglês, às vezes é importante procurar desequilibrar as pessoas mentalmente para buscar conseguir algo a mais. Especialmente agora, nos playoffs, com bastante jogador argentino, paraguaio, venezuelano, todos esses jogadores latinos que perdem a cabeça muito fácil, esse é um ponto que ajuda meu time também. (Risos) Eu tento sempre provocar, aquela discussão verbal, tentando chegar mais firme, mas nada que não seja coisa do futebol, sempre procurando ser leal em campo.

D.C. United forward Chris Rolfe, front, New York Red Bulls midfielder Felipe Martins (8) and midfielder Dax McCarty (11) go for the ball during the first half of an MLS playoff soccer match, at RFK Stadium, Sunday, Nov. 1, 2015, in Washington. New York won 1-0. (AP Photo/Alex Brandon
O camisa 8 no NYRB marca Chris Rolfe, do DC United (Alex Brandon – 1º.nov.2015/Associated Press)

Problema na Itália

França e Itália são países com regras absurdas, questões burocráticas de exames médicos. Passaram-se muitos anos, joguei em países como Suíça, Canadá e Estados Unidos e nunca tive nenhum problema (cardíaco). Inclusive no Brasil, sempre fiz exames, se acontecesse de eu jogar um dia aí não teria nenhum problema. Foi mais uma questão de regras, de exames, do que um problema de verdade comigo. Uma questão burocrática. Na Itália, a responsabilidade não é do atleta, é do clube, lá é o presidente do time, o time que tem a responsabilidade por tudo. Enfim, eu estou bem, nunca tive nenhum problema.

Jogar no Brasil

Saí do Brasil muito cedo, mas o coração brasileiro sempre fica. Houve sondagens de times grandes no Brasil neste ano e no ano passado, mas ainda tenho mais um ano de contrato com os Red Bulls. Se um dia aparecer uma oportunidade e for um time que vale a pena, e eu puder realizar esse sonho de jogar no Brasil, com certeza eu agarraria essa oportunidade. Minha família inteira é corintiana, então eu cresci corintiano, mas tem muitos times em que eu gostaria de jogar, e um deles é o Atlético Paranaense, que é do meu Estado.

Voltar à Europa

Tem muitos clubes interessados, há pessoas e clubes que me ligaram, mandaram e-mails. Estou em fim de contrato, daqui a seis meses posso assinar com outros clubes. Se um dia aparecer uma oportunidade que seja boa de voltar para a Europa… Antes de tudo você tem que pensar na família, no futuro. Sou totalmente grato aos Red Bulls por tudo o que fizeram por mim, e posso renovar, ficar por muitos anos aqui. Mas nunca se sabe na vida o que pode acontecer. Tudo é questão de oportunidade, e se aparecer uma oportunidade que seja boa para o clube, para a minha família e para mim, seja no Brasil, na Europa ou aqui, pois vivo muito bem aqui, vamos ver o que acontece no futuro.

Favoritismo do NYRB

O nosso time, pelo jeito que tem jogado durante o ano, e se a gente conseguir estar em um bom dia e fizer tudo o que o treinador nos pede, pode ser um dos favoritos a ganhar esse título. Tem outros times bons, como o Dallas, que apresentou um ótimo futebol neste ano. O Columbus também é um time com bastante qualidade. Mas, se estivermos no nosso melhor, somos os favoritos.

Craque do time

É o Bradley Wright-Phillips, irmão do Shaun, que jogou no Chelsea (2005 a 2008). No ano passado fez 27 gols, neste ano já tem 17. Ele é o jogador mais falado.

Importância do título

Todo jogador que é campeão fica na história, cria ainda mais uma imagem boa. Fui campeão na Série C na Itália, fiquei em segundo lugar na Suíça, no Canadá fui duas vezes campeão. Se eu conseguir um título com os Red Bulls será algo a mais para mim. Jogadores que ganham são sempre lembrados pelos torcedores, por treinadores. O título melhoraria ainda mais a minha imagem e as pessoas começariam a ter uma atenção maior pelo meu futebol, tanto no meu país, o Brasil, como na Europa e aqui.

Seleção brasileira

A liga americana, se continuar crescendo, os treinadores das seleções irão começar a respeitá-la mais e a olhar os jogadores daqui. Só o Brasil não tem olhos para a liga americana. No ano passado, especularam que eu poderia ir para a seleção do Canadá. Eu tenho o passaporte italiano e agora, com o “green card”, em quatro anos vou conseguir o passaporte americano, então a seleção em que aparecer uma oportunidade… Representar  um país seria uma coisa gratificante, mas representar o Brasil seria ainda maior. Nunca se deve considerar nada impossível, deve-se acreditar no seu futebol. Vou continuar trabalhando. A possibilidade é pequena, mas se acontecesse seria o máximo.

Inspiração no futebol

São vários jogadores nos quais você pode se inspirar, e o Cafu é um deles, pela persistência, pela força de vontade. Eu não sou um jogador conhecido no Brasil, mas graças a Deus eu passei por muitos países e tive muita gratificação na minha vida. Pela persistência e pela força de vontade, você pode chegar onde quer, então o Cafu é um jogador para se inspirar.

Lazer em Nova York

A cidade tem várias atrações. Em Nova York, 24 horas por dia você tem alguma coisa para fazer.  Mas o que a gente mais gosta é de sair com o Noah, ir ao Central Park, fazer piquenique, coisas de família.

À frente do touro vermelho, que dá nome à equipe (Site do NY Red Bulls)
À frente do touro vermelho, que dá nome à equipe (Site do NY Red Bulls)

Em tempo: Se Felipe for campeão, não será o primeiro brasileiro com esse status na MLS, disputada desde 1996. O meia Juninho, por exemplo, que defendeu o São Paulo nas categorias de base e hoje está com 26 anos, defendeu o Los Angeles Galaxy nos títulos da equipe da Califórnia em 2011, 2012 e 2014.