Felipão comemora título na China com crítica ao próprio time

Por Luís Curro

Sempre achei Luiz Felipe Scolari, o popular Felipão, meio ranzinza.

Não só ele. Há outros técnicos que exalam um cheiro de insatisfação constante – Dunga, especialmente, e Muricy Ramalho são dos que se enquadram na lista.

Até quando tudo está às mil maravilhas, fazem questão de pigarrear, achar defeito, olhar torto, desconfiar – a arbitragem e a imprensa são os alvos preferidos da rabugem.

Erros de árbitros (e de seus auxiliares) acontecem aos montes, assim como há algumas perguntas e/ou abordagens feitas por jornalistas que podem parecer inconvenientes.

Mas Felipão é daqueles que estrilam contra a arbitragem e a mídia acima da média. Faz parte de seu estilo, é um treinador muito emocional, e eu na maioria das vezes até me divirto com seus acessos de raiva e/ou inconformismo, e com suas caretas e trejeitos.

Os contrapontos são Oswaldo de Oliveira, Marcelo Oliveira, Dorival Jr., Roger, Falcão – para citar alguns treinadores que via de regra prezam pela serenidade. Oswaldo está no topo da lista – é quase sempre um mar de calma. Parreira, hoje aposentado, também era assim.

Tite é o meio-termo. Passional na hora certa. Controlado na hora certa. Impressiona-me como mede bem as palavras nas entrevistas, sempre muito cuidadoso em seu “titês”.

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Volto a Felipão. Neste sábado (31), ele teve o dia perfeito.

O time que dirige desde junho, o Guangzhou Evergrande, derrotou por 2 a 0 Beijing Guoan, fora de casa, e faturou o Campeonato Chinês.

Seu desempenho à frente do clube é marcante: desde que chegou, não perdeu.

São 22 jogos de invencibilidade (14 vitórias e 8 empates), incluindo Chinês, Liga dos Campeões da Ásia e um amistoso – no qual triunfou nos pênaltis diante do superpoderoso Bayern de Munique, após 0 a 0 no tempo regulamentar.

No campeonato nacional, sob seu comando, o time anotou 38 gols, praticamento o triplo do que sofreu (13).

E a equipe está na decisão da Champions asiática, contra o Al Ahli, dos Emirados Árabes. Vencendo, disputará o Mundial de Clubes.

Felipão cumprimenta jogador do Guangzhou após a classificação para a final da Champions asiática (Liu Dawei - 21.out.2015/Xinhua)
Felipão cumprimenta jogador do Guangzhou após a classificação para a final da Champions asiática (Liu Dawei – 21.out.2015/Xinhua)

Está bom, não? Para Felipão, parece que não.

Não é que ele criticou, em entrevista logo após a conquista do Chinês, o próprio time?

“Tem uma coisa que não está correta no Guangzhou: não dá para empatar em casa como nós empatamos neste ano. Nós temos que mudar a nossa forma de jogar, nós temos que buscar alternativas porque, se continuar assim, no ano que vem dificilmente a gente vai ser campeão.”

Fazia referência ao desempenho da equipe como mandante. Com Felipão, o Guangzhou, em seu estádio, ganhou um jogo e empatou quatro no Chinês. Fora dele, somou 11 vitórias e um empate.

“Terminou um campeonato, eu já estou pensando no outro”, concluiu o técnico campeão com o Brasil na Copa de 2002, na Ásia, e que completará 67 anos no próximo dia 9.

Lembrou-me Bernardinho, supercampeão com a seleção masculina de vôlei.

Em entrevista a jornalistas brasileiros, eu incluído, depois da conquista do ouro olímpico em Atenas-2004, o técnico certamente estava muito feliz.

Mas Bernardinho também estava tenso, já angustiado com o futuro, em como fazer para manter o nível de excelência da equipe brasileira.

“No começo, treinávamos a partir das 9 horas. Depois, baixamos para as 8 horas. Agora, os treinos estavam começando às 7 horas. Para nos mantermos à frente, tem que ser às 6 horas”, preocupava-se ele.

Para Felipão, o inédito título do Chinês, sua primeira conquista depois da campanha fracassada na Copa de 2014 (que incluiu o famoso 7 a 1 para a Alemanha em pleno Mineirão), acabou de chegar.

Estará no seu currículo, ninguém mudará isso. Será incluído em sua biografia.

Assim como lá estará mais um episódio de rabugice.

Em tempo: o Guangzhou de Felipão, que conta com os brasileiros Ricardo Goulart (ex-Cruzeiro), Paulinho (ex-Corinthians), Robinho (ex-Santos) e Elkeson, começa a decidir a Champions da Ásia no próximo sábado (7), em Dubai. A partida decisiva, na China, será no dia 21.

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