Técnico ridiculariza altura de goleiro que pegou três pênaltis

Por Luís Curro

Aconteceu no domingo (4), em Bruxelas, no Campeonato Belga.

O superpoderoso Anderlecht, maior vencedor no país, com 33 títulos nacionais, o último deles em 2013-2014, recebia o modesto Mechelen, 4 títulos nacionais, o mais recente em 1988-1989.

Cinco minutos de jogo: pênalti para o Anderlecht. O camisa 10 do time, Praet, bate baixo e no meio do gol. O goleiro Gillet salta para a esquerda, mas consegue defender com as pernas.

Passam-se mais sete minutos: pênalti para o Anderlecht. Praet deixa dessa vez a responsabilidade com o camisa 99, o italiano Okaka, artilheiro da equipe no campeonato. Ele cobra rasteiro, no canto direito do goleiro. Gillet salta e agarra a bola.

43 minutos do 2º tempo: pênalti para o Anderlecht. Que já vencia por 1 a 0, gol de Okaka, o mesmo que havia desperdiçado a segunda penalidade, aos 10 minutos da segunda etapa. O atacante já tinha sido substituído, então Tielemans, o camisa 31, que havia entrado na partida dez minutos antes no lugar de Gillet (um “xará” do arqueiro do Mechelen), pega a bola. Corre e bate no canto esquerdo, baixo, do goleiro. Gillet de novo adivinha o canto e espalma.

Muito esforço do guarda-metas para nada, já que a partida chegava ao final. Certo? Errado.

Aos 48 minutos, lateral para o Mechelen próximo à linha de fundo. Volkov, da seleção de Montenegro, arremessa a bola com muita força, na direção da pequena área. Ninguém cabeceia, a bola pinga, bate no peito do zagueiro Kara Mbodji e entra na meta do goleiro e capitão Proto. Gol contra do senegalês. Final: 1 a 1.

Inconformado com o resultado, o treinador do Anderlecht, o albanês Benik Hasi, criticou seu time ridicularizando a estatura de Gillet: “Com todo respeito que tenho por ele, o goleiro do Mechelen tem 1,45 m e nós conseguimos bater três pênaltis rasteiros”.

Pegou mal, e no dia seguinte, com a cabeça fresca, Hasi tentou consertar: “Não quis magoá-lo ao falar de sua altura. Ele teve uma grande atuação e tem meu respeito. Foi um momento de frustração. Eu queria dizer que meus jogadores deveriam ter cobrado os pênaltis de outro jeito”.

Hasi afirmou que telefonou para Gillet para pedir desculpas.

Fez bem. Até porque o camisa 1 do Mechelen, que atuou várias temporadas no futebol italiano (por Torino, Bari, Bologna, Catania), tem 1,80 m de altura. É mais baixo que a maioria dos colegas de posição que atuam em grandes clubes, mas está muito longe de ter 1,45 m.

Além disso, foi convocado para a seleção belga para as partidas deste sábado (10), contra Andorra, e de terça-feira (13), contra Israel, pelas eliminatórias da Eurocopa-2016.

Deve ser reserva de Mignolet, do Liverpool, mas… se houver um pênalti para o adversário no fim do jogo que ameace tirar pontos da Bélgica… certamente o técnico da seleção, o ex-atacante Marc Wilmots (que enfrentou o Brasil na Copa de 2002 e teve um gol legítimo anulado), no mínimo olhará para o lado.

(Na Copa do Mundo do Brasil, no ano passado, o treinador da Holanda, Louis Van Gaal, substituiu Cillessen por Krul antes da disputa de pênaltis, e a seleção laranja eliminou a Costa Rica.)

Sobre sua atuação contra o Anderlecht, Gillet disse que “defender três pênaltis em uma partida é algo único”. O herói do Mechelen lembrou que, quando no Bari, evitou dois gols de pênalti em partida diante do Brescia.

Gillet comemora seu feito no estádio Constant Vanden Stock, em Bruxelas (Reprodução Instagram)
Gillet comemora seu feito no estádio Constant Vanden Stock (Reprodução Instagram)

Jean-François Gillet é um personagem que entra para os anais do futebol. Não me lembro de um goleiro que, nos principais campeonatos (de clubes ou seleções), tenha, no tempo regulamentar de uma partida, defendido três penalidades máximas.

“Estou contente de poder ter contribuído com a minha equipe”, concluiu, modestamente.

Tremenda contribuição.