Seleção de futebol se salva na devastada Síria

Por Luís Curro

País devastado pela guerra civil iniciada em 2011, convivendo sob um regime ditatorial e com o avanço da facção radical Estado Islâmico, a Síria tem sido presença constante no noticiário há vários meses. Mortes, atrocidades, bombardeios, destruição… tudo de ruim.

X

Milhares de seus habitantes, em busca de sobrevivência, optaram pelo êxodo, pela debandada rumo a países europeus, mesmo sem praticamente nenhuma condição estrutural. Desespero puro.

X

Uma foto, a do garoto sírio Alan Kurdi, de 3 anos, encontrado morto à beira do mar, resume essa tragédia humanitária e virou símbolo do sofrido movimento migratório de não só um, mas de vários povos de África e Ásia.

Só que, em meio ao caos, há quem se salve. Ao menos no futebol, sim. A seleção da Síria vai bem.

Nas três partidas na segunda fase das eliminatórias asiáticas para a Copa da Rússia-2018, obteve três vitórias: 6 a 0 no Afeganistão, 1 a 0 em Cingapura e 6 a 0 no Camboja. Treze gols a favor, nenhum contra, a liderança do Grupo E. Apenas o Qatar, depois de três jogos, tinha campanha melhor, devido ao saldo de gols (marcou 19, levou 2).

Surpreendente? Em termos.

O time nacional conta com o suporte do ditador Bashar al-Assad, conforme relato ao jornal “USA Today” de James Dorsey, autor do blog The Turbulent World of Middle Eastern Soccer (O Mundo Turbulento do Futebol do Oriente Médio, em tradução livre).

Segundo ele, é incerto se os jogadores da seleção defendem a equipe por livre e espontânea vontade ou sob pressão governamental.

De toda forma, não vejo como Assad pode fazer a seleção de seu país jogar melhor. Se o time é de “pernas de pau”, não há influência de ditador que resolva.

Vitórias são vitórias, frutos da competência e do esforço de técnico e jogadores. Resultado de o individual e o coletivo darem liga.

Nesta quinta (8), a situação da Síria nas eliminatórias pode ficar ainda melhor. Será, na verdade, um teste de fogo.

O adversário é o Japão, presente nas cinco últimas Copas do Mundo, mas que perdeu um ponto para Cingapura ao empatar sem gols mesmo atuando em casa. Ganhou dois jogos e empatou um. Está dois pontos atrás da Síria.

O mando é dos sírios, porém o confronto será disputado em Omã, já que questões políticas e de segurança impedem o estádio de Alepo, no norte da Síria, de abrigar a partida, que será às 10 horas (de Brasília).

Tit Dina of Cambodia (R) fights for the ball with Ahmad Kallasi of Syria (L) during the 2018 World Cup qualifying football match between Cambodia and Syria in Phnom Penh on September 8, 2015. AFP PHOTO / TANG CHHIN SOTHY ORG XMIT: SOT129
Kallasi (5) disputa bola com atleta do Camboja na goleada da Síria por 6 a 0 (Tang Chhin – 8.set.2015/AFP)

Do lado japonês, há dois jogadores de renome, Honda (Milan) e Kagawa (Borussia Dortmund), e outros nove que atuam no futebol europeu, entre eles, Nagatomo (Inter de Milão) e o capitão Hasebe (Eintracht Frankfurt).

Do lado sírio, apenas dois atletas jogam na Europa, e não em grandes centros: o defensor Kalasi, do Sarajevo (Bósnia), e o atacante Malki, do Kasimpasa (Turquia).

As maiores esperanças são os atacantes Raja Rafe, do local Al-Wahda (dois gols nestas eliminatórias), e Khribin, do iraquiano Al Mina’a (três gols nestas eliminatórias).

Mas é no nome do goleiro titular nas duas últimas partidas das eliminatórias que a Síria precisa se inspirar para superar o Japão: Ibrahim Alma, ainda não vazado no qualificatório.

Com alma, coração, suor e instinto de sobrevivência (algo que se tornou natural para seu povo), os sírios vão a campo pela manutenção da liderança e para tentar um resultado inédito: em sete jogos, nunca derrotou o Japão – foram seis derrotas e um empate.

O capitão e camisa 10 do time, Al Hussain, assegurou ao jornal “The Guardian” que os jogadores deixarão todas as diferenças de lado, especialmente as religiosas, para atingir um objetivo maior: “Sendo cristão ou muçulmano, ou seguindo qualquer corrente do islamismo, somos uma família e defendemos um time, um país”.

Uma vitória deixará a Síria em ótimas condições de se classificar para a fase decisiva das eliminatórias asiáticas – avançam o vencedor de cada um dos oito grupos mais os quatro melhores segundos colocados.

A Ásia classifica para a Copa da Rússia quatro seleções. Uma quinta terá chance em uma repescagem contra um representante da Concacaf (Américas do Norte e Central e Caribe).

Na Copa de 2014, no Brasil, os representantes asiáticos foram Austrália (sim, o país da Oceania disputa as eliminatórias asiáticas…), Coreia do Sul, Irã e Japão. Todos eles caíram na fase de grupos.