Transmissões do Esporte Interativo vão do sóbrio ao pastelão

Por Luís Curro

Para quem não sabe, o Esporte Interativo é o canal que detém atualmente os direitos de transmissão de todas as partidas da Champions League, a principal competição interclubes na Europa, o campeonato em que se cruzam os mais badalados times de futebol do planeta.

Desde que o EI conquistou os direitos, tem-se-lhe dado espaço contínuo na mídia e há amplas discussões, acaloradas, nas redes sociais, tudo porque a emissora, pertencente ao grupo Turner, não está na grade de canais das principais operadoras do país (NET e Sky).

Então, para acompanhar os jogos da Champions, é necessário contratar os serviços de uma operadora alternativa ou assinar um serviço chamado EI Plus, pelo qual é possível assistir às partidas via internet.

Na primeira rodada, não tive acesso a nenhuma dessas opções. Na segunda, nesta semana, tive disponível o EI Plus, e admito que me sentei à frente do notebook reticente em relação ao que veria.

Explico: anos atrás, o EI fez uma parceria com, se não estou enganado, a CNT/Gazeta, a fim de exibir na TV aberta jogos do Campeonato Inglês. Fã da Premier League que sou, decidi assistir a algumas partidas, até porque, à época, eu estava sem TV por assinatura.

Achei o estilo dos apresentadores (lembro-me bem de Leonardo Baran) e dos narradores muito ruim – para o meu gosto, é bom deixar isso bem claro. Pareciam-me desinformados acerca dos times e dos jogadores e, durante os jogos, havia um show de berros e de empolgação desmedida, além de exagerada autopromoção.

Eram 15h10 da terça (29) quando me conectei. Pensei que talvez fosse cedo demais, pois os jogos começariam às 15h45. Mas não era. Já havia a opção de acessar todos os oito jogos do dia.

Optei pelo que mais me atraía: Barcelona x Bayer Leverkusen.

As imagens eram do estádio Camp Nou se enchendo, do aquecimento do time alemão, do vestiário do Barcelona – foram focalizados os uniformes dos jogadores, aparecendo, por exemplo, a braçadeira de capitão de Iniesta, as chuteiras de Suárez e as luvas do goleiro Ter Stegen.

Gostei, pois quase nunca as outras emissoras exibem esses detalhes de pré-jogo (até por iniciar a transmissão bem perto do apito inicial). Um aparte: a Band, que também exibiria o confronto, iniciou a cobertura às 15h35, não mostrando, portanto, os cenários citados.

Ainda antes do início do jogo, aproveitando a ausência de Messi, o EI exibiu um resumo de confronto anterior entre Barça e Leverkusen na Champions (temporada 2011-2012), no qual o argentino marcou cinco gols. Uma boa lembrança.

(Depois de Lewandowski, do Bayern, ter feito cinco gols em nove minutos recentemente, todo jogador no mundo que marcou cinco gols em uma partida foi relembrado pela imprensa em geral…)

O narrador do EI, em determinado momento, com a câmera nas tribunas, identificou Shakira e emendou: “A senhora Piqué”. (A cantora pop é mulher do zagueiro do Barça.) E admitiu: “Fiquei procurando o Messi. Suspeito que ele não foi ao Camp Nou”.

Durante a partida, o narrador tinha bom entrosamento com o comentarista, Bruno Formiga. Tanto o narrador quanto o colega mostravam bons conhecimentos ao falar sobre as equipes e os jogadores, cujos nomes eram corretamente pronunciados.

Formiga versava bem sobre posicionamento tático das equipes e ainda situou o espectador sobre o conturbado momento político na separatista Catalunha – torcedores vaiaram o hino da Champions no Camp Nou.

Aliás, você notou que só me referi até agora ao narrador como “o narrador”. Qual é o nome do narrador do EI nesse jogo? Eu queria saber, mas não sabia (afinal, não é um Galvão Bueno, facilmente identificável pela voz). Formiga não o chamou uma única vez pelo nome antes do início do jogo e em todo o 1º tempo. Não apareceu na tela o nome dele.

Nenhuma pista de quem fosse o narrador…

Fui então pesquisar e descobri no site “Esporte e Mídia”: Jorge Iggor.

Ponto para o EI com Iggor e Formiga. Para o meu gosto, eles foram muito bem. Não deixaram nada a dever nessa transmissão se feita a comparação com os melhores narradores e comentaristas de ESPN e SporTV.

Os da Fox Sports eu desgosto; respeito todos os profissionais (se estão lá, têm seus méritos e capacidades), mas, com raras exceções, os da Fox Sports são muito mal informados; e tem uma apresentadora que acho péssima, vive cometendo erros tolos – reservo-me o direito de preservar o nome dela, mas quem assiste sabe quem é.

A criticar, a ausência da entrada do anunciado repórter do EI na Catalunha, Marcelo Bechler. Por todos os cerca de 80 minutos em que fiquei ligado no jogo de Barcelona, nenhuma fala dele. Era adequado, para dar o clima na cidade e no estádio e passar alguma informação bacana que as câmeras não mostram – sempre tem algo que as câmeras não mostram.

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Agora, mostro o outro lado da moeda.

Encerrado o 1º tempo de Barça x Leverkusen, decidi mudar meu acesso para Porto x Chelsea, jogo que até então estava 1 a 1. Já tinha me informado que a narração era de André Henning e os comentários, de Vitor Sérgio Rodrigues, o VSR, e Sávio, ex-atacante do Flamengo e do Real Madrid nos anos 1990 e 2000.

Bastaram poucos minutos para que eu rememorasse o EI “original”, aquele da parceria com a CNT/Gazeta, que me trazia certa repulsa.

Momento 1 – Depois de um ataque frustrado do Porto, chute para fora de Rúben Neves, Henning soltou um “Ré, ré, ré, ré, ré”. (…) Nonsense.

Momento 2 – O árbitro espanhol Antonio Mateo Lahoz paralisa o jogo e corre para o banco do Porto, a fim de ter uma conversa ao pé do ouvido com o treinador Lopetegui, seu compatriota. Henning, empolgado: “O que o árbitro falou lá no ouvidinho do Lopetegui, hein, VSR?”. VSR, de bate-pronto, em tom de braveza: “Ô, Lopetegui, deixa eu fazer o meu trabalho! Vai fazer o seu trabalho! O apito tá na minha boca, não tá na sua!”. Henning ameniza: “Não, ele tava parecendo mais carinhoso, VSR. Eu acho que não foi isso não, VSR. Você tá sendo rigoroso”. VSR discorda: “Então tá dando mole, porque tem que se impor”. Henning conclui: “O VSR sabe tudo o que os árbitros falam em campo”. (…) Teatral.

Momento 3 – Pós-gol do Porto (2 a 1), ataque do Chelsea, bola para Diego Costa. Henning: “Ó o Diego Costa. Pé direeeeeito… na traaaaaaaaaaaaave! Explodiu no travessão a bola do Diego Costa!… O Casillas foi agradecer à trave. Deu um tapinha nela e disse ‘obrigado, querida, obrigado'”. (…) Exagero nas vogais, quase berros (que se repetiriam posteriormente). (…) Tapinha de Casillas na trave? Agradecimento ao poste superior? A câmera não mostrou. (…) Sávio, consciente, resumiu em uma frase: “Deu sorte o Casillas”.

Momento 4 – Hazard se prepara para entrar no Chelsea, abre-se discussão sobre quem sai. (Aliás, pelo andar da carruagem, me surpreendi com a falta de trocadilho do gênero “depois da sorte, vem o Hazard”.) Sávio aposta em Pedro, VSR em Mikel, Henning vai de Ramires. Quem sai é Mikel, e Henning rasga a seda: “Você sabe muito, Vitor Sérgio Rodrigues, você… eu não vou dizer publicamente o que você é, mas você é bom demais, VSR, muito bom… eu sou seu fã, viu?… e o Sávio já me confessou que é seu fã também”. VSR rasga a seda de volta: “Eu que sou seu fã, pô, eu ouvia você no rádio quando eu era criança”. (…) Haja bajulação!

Momento 5 – Câmera em José Mourinho, o técnico do Chelsea. Henning: “Ó o Mourinho ficando de pé. É um personagem fantáááááástico desta Liga dos Campeões. Sempre muito bom ver o Zé Mourinho trabalhando!”. (…) Íntimo (Zé?) e óbvio demais.

Momento 6 – Falta de Azpilicueta, lateral do Chelsea. Henning: “Isso é falta e é falta pra cartão, seu Azpilicueta. Ele pega com uma mão, com duas mãos, arranca, puxa a camisa do cara (do Porto)… Ah, ele deu o cartão… Aí (se não desse) eu ia ter que dar uma cintada no seu Antonio Lahoz… Aliás, estamos economizando nas cintadas, né, VSR?”. (…) Dar umas cintadas no juizão, tipo castigo cruel e antigo que se dá nas crianças, é isso? Entendi direito?

Momento 7 – Henning busca informação de outra partida da Champions: “E o Barcelona, como é que tá?”. VSR: “Segue perdendo de 1 a 0 pro Leverkusen… E me informa a produção que o Neymar já perdeu três gols, não sei se é exagero”. Henning: “Eles fazem isso pra me provocar”. VSR: “O complicado é você perder o Messi e agora perder o Iniesta, e já tinha perdido o reserva do Iniesta, que é o Rafinha”. Henning: “Complicado pra quem tem o Zé Ruela pra botar no lugar”. (…) Hã? Que jogo mesmo eles estão transmitindo?

Momento quase sempre – VSR fala, Henning interrompe, fala em cima; Sávio fala, Henning interrompe, fala em cima. (…) Desagradável.

Momento pós-Momento 7, pouco depois dos 30 minutos do 2º tempo – Cansei, deu pra mim. Desliguei o EI Plus, decidi ligar na Band para ouvir os conhecidos Téo José e Craque Neto. E a primeira frase que ouço de Téo é o jargão: “É a hora da verdade para Barcelona e Bayer Leverkusen”.

Só que… não é que dessa vez era mesmo? Pouco depois, no intervalo de dois minutos, o Barça fez dois gols, virou o jogo e ganhou.

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Voltando ao EI… Reconectei-me ao EI Plus na quarta (30), para acompanhar mais dois narradores e dois comentaristas.

Primeiro, Anderson Cardoso e André Rocha, em Atlético de Madri x Benfica. Lembraram-me Iggor e Formiga, achei-os bem informados e comedidos.

Depois, na metade do 1º tempo, mudei para Manchester United x Wolfsburg, com Luis Felipe Freitas e Felipe Rolim. Freitas me lembrou Luiz Carlos Júnior, narrador do SporTV, tanto no estilo como no tom de voz. Rolim não me empolgou, considerei-o pouco informativo na comparação com Rocha.

Em suma: minha proposta era obter uma primeira impressão da equipe do EI que estará presente nas semanas de Champions League. Tem muita gente lá, houve contratações recentes para reforçar o time. Até há uma comentarista – umA, isso mesmo (o que é bacana, ainda são raridade mulheres diretamente envolvidas nas transmissões). Assim, é preciso mais tempo para avaliar a qualidade e a competência de cada profissional.

A conclusão é que não há no EI uma uniformidade, um padrão de narração/comentários, mas distinções claras, gritantes até.

Quem chegou até aqui neste longo post possivelmente concluiu que prefiro Iggor e Formiga a Henning e VSR (excluo Sávio, que foi um mero coadjuvante em Porto x Chelsea).

É verdade. Todo mundo tem preferências, eu não sou exceção.

Mas não considero uma dupla melhor ou pior que a outra. Apenas diferentes.

Como escrevi, repito, para que não ocorram mal-entendidos: trata-se de uma questão de gosto.

E gosto não se discute.

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Em tempo: No restante, o Esporte Interativo faz autopromoção, como outras emissoras fazem (é claro que Henning exagera: “A gente te disse, a gente te avisou, você viria pra dentro do estádio com a gente, para sentir a emoção genuína!”); dá espaço para perguntas e comentários dos internautas, como outras emissoras fazem; oferece, nas operadoras com as quais tem acordo, dois canais de esporte (ESPN e SporTV ofertam três, e a Fox Sports, dois); e tem a opção (paga) do EI Plus, para ver qualquer jogo da rodada via internet – em Barcelona x Leverkusen, na comparação com a transmissão da Band, havia um delay de 35 segundos nas imagens do EI Plus.