A estranha escolha de Rafinha

Por Luís Curro

Convocado na semana passada para defender a seleção brasileira nas partidas de outubro pelas eliminatórias da Copa da Rússia-2018, Rafinha, lateral direito do Bayern de Munique, abdicou da chance cinco dias depois.

Quando soube da desistência, me surpreendi. E estranhei. Por duas razões.

A primeira reproduzo a seguir:

Rafinha_Twitter

Foi a mensagem que Rafinha postou em rede social ao saber da convocação. Disse estar “feliz demais” por ter sido lembrado por Dunga. O que aconteceu para jogar fora tamanha felicidade tão pouco tempo depois?

A felicidade não seria suficiente ante o fato de, conforme expôs o jogador à CBF em seu pedido de dispensa, ele não ser uma das principais opções para a seleção na posição.

Raciocínio certo, certo? Por um lado, sim, já que não vinha sendo chamado. Mas errado por outro.

Explico ao apresentar a segunda razão da minha surpresa.

A lateral direita é uma das posições mais abertas na seleção brasileira. Não há fartura de talento por ali na atualidade.

Titular na Copa de 2010, Maicon foi ótimo, mas não é mais opção para a seleção. Já tem 34 anos e iniciou a temporada como reserva na Roma.

Titular na Copa de 2014, Daniel Alves também já não é mais um garoto, está com 32 anos, e nunca foi um bom marcador, o que o faz perder pontos com Dunga. Recentemente, ele teve três falhas em um mesmo jogo do Barcelona. Depois se contundiu, perdendo uma série de partidas.

No segundo jogo após voltar a jogar, nesta quarta (23), na derrota humilhante do Barça para o Celta, por 4 a 1, não foi bem e até levou um chapéu no contra-ataque que resultou no terceiro gol.

Danilo, de 24 anos, do Real Madrid, a meu ver o mais capacitado para ocupar a posição, está com uma lesão no pé, então não pôde ser chamado desta vez.

Seria uma ótima oportunidade para Rafinha tentar se firmar na seleção. Até porque seu rival pela titularidade nos jogos contra Chile e Venezuela, Fabinho, tem sido escalado no meio de campo no Monaco, da França.

Rafinha, em caso de grandes atuações, teria, sim, chance de retornar nas partidas seguinte das eliminatórias. Com bom futebol, e mantendo-se livre de lesões, poderia convencer Dunga a prestigiá-lo até 2018.

Ele está com 30 anos, não é um iniciante, mas ainda tem lenha para queimar. E mais experiência que Fabinho. Dava para chegar à Copa.

Talvez ele ainda tenha essa pretensão. Rafinha tenta obter a cidadania alemã, o que permitiria a ele uma chance na seleção da Alemanha.

Mas, se essa foi a razão para recusar o Brasil, Rafinha teria de ter uma indicação muito forte de que o técnico Joachin Löw o tem em seus planos.

É fato que a Alemanha não encontrou ainda um substituto na lateral à altura de Lahm, que se aposentou da seleção após a conquista da Copa de 2014. Os jovens Can e Ginter, ambos de 21 anos, disputam a posição.

Rafinha com os colegas de Bayern Alaba e Ribery em evento de uma cervejaria em Munique (Christof Stache - 25.ago.2015/AFP)
Rafinha com os colegas de Bayern Alaba e Ribery em evento publicitário (Christof Stache – 25.ago.2015/AFP)

Em rede social, ele não confirmou, nem negou, que essa seja uma de suas metas no futebol: “Quero deixar claro que, por estar tirando a dupla cidadania, não quer dizer que vou jogar pela Alemanha”.

Há também uma dúvida sobre a legalidade de Rafinha poder defender a Alemanha. Isso porque ele estaria impossibilitado de atuar pelo país para onde migrou em 2005 por já ter defendido a seleção brasileira em jogos oficiais nas categorias de base, sem ter à época a dupla cidadania.

O caso pode se tornar um imbróglio jurídico. A conferir o que vai acontecer, se é que vai acontecer.

De concreto, fica o seguinte: depois de celebrar a convocação, e tendo no histórico até briga com clube (o alemão Schalke) para defender o Brasil na Olimpíada de Pequim-2008, Rafinha não quis a seleção.

Cada ato tem uma consequência. E esse terá.

Rafinha optou por um caminho sem volta.

Ter dito “não” à seleção brasileira significará para o jogador nunca mais ser lembrado para vestir a camisa canarinho.