Levar gol do meio do campo é frango?

Por Luís Curro

Não é comum, mas na partida Roma 1 x 1 Barcelona pela Champions League, nesta quarta (16), aconteceu.

No 1º tempo, o Barça de Messi e cia. vencia na capital italiana por 1 a 0, gol de cabeça do uruguaio Luis Suárez, quando Alessandro Florenzi, o lateral direito da Roma, roubou uma bola na defesa e avançou pelo seu setor.

Corria em alta velocidade e duas vezes, uma antes de ultrapassar a linha de meio-campo e outra logo depois, olhou para a frente. Bem para a frente. Viu o goleiro alemão Ter Stegen, do time espanhol, na altura da marca do pênalti.

Florenzi, grudado na linha lateral e uns três ou quatro metros depois de passar pela divisória do gramado, dediciu dar um chutão para o gol.

Por três segundos, a bola viajou no estádio Olímpico rumo à meta de Ter Stegen. No quarto segundo, tocou na trave e entrou.

Mérito para o italiano, que teve excelente visão e coragem para arriscar uma jogada de baixa probabilidade de êxito; demérito para o arqueiro alemão: ponto negativo no boletim dele.

Ter Stegen, goleiro do Barcelona, observa a bola rumo ao gol (Tony Gentile/Reuters)
Ter Stegen, goleiro do Barcelona, observa a bola rumo ao gol (Tony Gentile/Reuters)

O lance de Florenzi é daqueles que deixam o espectador boquiaberto – até quando a bola não entra gera aquela expectativa, em curtíssimo tempo. (Lembra de Pelé contra a Tchecoslováquia, na Copa de 1970?)

Uma surpresa dessas é sempre bem-vinda em um jogo de futebol. Se é um jogo de primeira linha, no mais nobre campeonato europeu, melhor ainda.

Florenzi teve seu dia de glória na carreira. Ainda é jovem (24 anos), quiçá tenha outros.

O que passei a pensar é se é pior para o goleiro levar um gol do meio-campo ou um frangaço, daqueles que a bola passa entre suas pernas. Victor, do Atlético-MG, engoliu um contra o Cruzeiro no último domingo (13) – é o mais recente de que me lembro.

Há frangos clamorosos vistos aos montes, semana sim, semana não, no Brasil e mundo afora.

Um que me marcou foi o de Waldir Peres na estreia do Brasil na Copa de 1982, na Espanha. O soviético Bal arriscou de longe, o chute não era tão forte. Waldir, parecia, defenderia. Não. Em vez de pegar, meio que “empurrou” a bola pra dentro do gol. Sorte do então goleiro são-paulino que Sócrates e Éder fizeram dois golaços e a seleção de Telê Santana venceu por 2 a 1. Seu erro acabou não sendo decisivo.

Há quem considere que o goleiro que leva um gol de tamanha distância, do meio de campo, tenha engolido um frango – também chamado de peru.

O dicionário Aulete traz a seguinte definição de “frango”, quando relacionado ao futebol: “Gol causado por uma falha muito grave do goleiro”. Diz outro dicionário, o Houaiss: “Bola facilmente defensável que o goleiro deixa entrar no gol”.

Perceba que há uma sutil discordância entre esses dois dicionários que consulto com frequência. Para o primeiro, o gol do meio de campo se constitui em um frango, afinal, sim, houve uma falha muito grave do goleiro. Para o segundo, não, já que esse chute de longuíssima distância não é facilmente defensável para o goleiro; pelo contrário, tornou-se em determinado momento indefensável.

Sigo o Houaiss. Não considero o gol do meio de campo, apenas por ser do meio de campo, um frango. Seria se o goleiro, bem colocado, ao tentar interceptar um chutão dado de 50 metros de distância, não conseguisse segurar a bola, deixando-a escapar e entrar.

Já a bola que vem fraca em chute ou cabeceio de posições mais próximas ao gol, com o goleiro igualmente bem posicionado, essa é uma bola de fácil defesa. Se passa entre as pernas, ou entre suas mãos, sim, aí é frango. Có-có-có-có-có.

Eis a dissensão: o frango é fruto de uma falha técnica do goleiro, a falha em sua mais pura expressão; o gol sofrido em chutão do meio de campo é o resultado de sua desatenção – a bobeada gera a falha.

No frango, se tem dó do goleiro: “Coitado!”. No gol do meio de campo, se tem raiva: “Presta atenção!”.

Florenzi, da Roma, autor do gol do meio do campo contra o Barça (Riccardo De Luca/Associated Press)
Florenzi, da Roma, autor do gol do meio do campo contra o Barça (Riccardo De Luca/Associated Press)

Nos dois casos, o inesperado mostra a cara, e é sensacional quando isso acontece no futebol – a mesmice muitas vezes aborrece, desestimula, convida ao bocejo.

Mas qual dos lances é, afinal, pior para o goleiro? Os dois. Considero que tanto o frango quanto o gol do meio de campo são constrangimentos para ele – ou seja, não tem pior, dá empate.

O sentimento de vergonha é o ponto de intersecção nesses tipos de falhas. O goleiro, nos instantes seguintes, pensa constrangido: “Como pude deixar isso acontecer? Logo eu?”.

Goleiro atento, que sabe ler o jogo e antecipar os movimentos dos rivais, afinal tem uma visão privilegiada da partida para isso mesmo, não toma gol do meio de campo. Não se permite ser surpreendido.

Eu não tive dó de Ter Stegen. Ele teve uma distração que ocasionou uma falha grave. Mas não frangou.

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