Brasileiro que não pode defender o Brasil é artilheiro no calcio

Por Luís Curro

Não muito tempo atrás, em 2013, o Brasil, quando comandado pelo técnico Luiz Felipe Scolari, perdeu Diego Costa, então artilheiro do Atlético de Madri, para a Espanha.

À época, Diego Costa (hoje no inglês Chelsea), que tinha dupla cidadania, sentiu-se menosprezado pela seleção brasileira e prestigiado pela espanhola, cujo técnico, Vicente Del Bosque, indicou que ele integraria o grupo que disputaria a Copa de 2014, no Brasil.

O atacante optou então pela Fúria. E, de fato, foi convocado e jogou o Mundial em seu país de nascimento – não foi longe, já que a Espanha, que defendia o título, decepcionou e foi eliminada na primeira fase.

Neste ano, um jogador bem menos famoso que Diego Costa também abdicou da seleção brasileira.

Éder Citadin Martins, ou apenas Éder, nascido na pequena cidade catarinense de Lauro Müller, que conta com pouco mais de 14 mil habitantes, é o atual artilheiro do Campeonato Italiano.

Em duas partidas, o atacante da Sampdoria, que obteve a cidadania italiana em 2010, marcou quatro gols, duas vezes contra o Carpi, duas vezes contra o Napoli.

Éder comemora depois de marcar, de pênalti, contra o Carpi (Luca Zenaro/Efe)
Éder comemora depois de marcar, de pênalti, contra o Carpi (Luca Zenaro/EFE)

O segundo gol contra os napolitanos foi uma pequena obra-prima: em ótima jogada individual, Éder entortou os dois zagueiros do adversário, o espanhol Albiol e o senegalês Koulibaly, antes de vazar o goleiro Pepe Reina no estádio San Paolo.

Ele tentará ampliar essa artilharia nesta segunda (14), contra o Bologna, em jogo que foi adiado em um dia devido ao mau tempo em Gênova, cidade que abriga a Sampdoria.

Mesmo com a dupla cidadania, Éder poderia optar por vestir a camisa da seleção brasileira, se fosse convocado, já que um jogador só é impedido de atuar por outra seleção adulta caso defenda a de outro país em partidas oficiais.

Só que não quis esperar a boa vontade de Dunga. Quando Antonio Conte, atual técnico da Azzurra, o chamou no início deste ano, não hesitou. Até porque ele diz se sentir totalmente adaptado ao estilo de jogo dos italianos.

Ou seja: além de não saber se seria um dia convocado para a seleção brasileira, não tinha certeza de poder render bem com a camisa canarinho.

E seria mesmo difícil jogar pelo Brasil. A concorrência hoje seria com Neymar, Douglas Costa e Hulk. O primeiro é… Neymar. Ponto. E os outros dois estão em ótimos momentos.

No dia 28 de março, em Sofia, contra a Bulgária, pelas eliminatórias da Eurocopa de 2016, Éder estreou pela seleção italiana. Com a camisa 17, entrou no 2º tempo, e a Itália perdia por 2 a 1.

Aos 39 minutos, ele recebeu passe de Chiellini (sim, aquele que foi mordido pelo uruguaio Suárez na Copa no Brasil), livrou-se de Dyakov, que o marcava, e chutou, forte e colocado, à la Kaká, no ângulo de Mihaylov: 2 a 2. Um gol na estreia pela Azzurra – e um gol salvador.

O desempenho foi fundamental para que Éder permanecesse no grupo. No início deste mês, foi titular contra Malta e entrou no fim contra a Bulgária. Está no caminho para se garantir na Eurocopa, que será na França.

Com a camisa 17, Eder posa com a Azzurra antes do jogo contra Malta (Maurizio Innocenti/EFE)

Éder, 28 anos e 1, 78 m, está na Sampdoria desde 2011 – passou antes, sempre na Itália, por Empoli, Frosinone, Brescia e Cesena. Chegou à terra da pizza no fim da adolescência, em 2005. No Brasil, pertencia ao Criciúma.

Seu grande campeonato foi pelo Empoli, na Série B italiana, em 2009-2010: em 40 jogos, marcou 27 gols, ou 41% do total do time na competição.

Pela Samp, fez 12 gols no Italiano de 2013-2014 e 9 no de 2014-2015. Agora, como relatado, já tem quatro em só dois jogos. Seus pontos fortes são a velocidade, o drible e a finalização – chuta bem de longe.

Sua importância é tamanha para o clube que o presidente Massimo Ferrero declarou, a respeito do interesse da Inter de Milão: “Éder não está à venda. Às vezes, o dinheiro pode fazer você mudar de ideia. Desta vez não é o caso”.

Seu contrato vai até 2017, mas, como palavra de cartola nem sempre é confiável (pelo contrário), talvez Éder um dia vista a camisa da Inter.

Porém, pelo Brasil, independentemente dos cartolas, ele não jogará. Resta então desejar sucesso a Éder com a Azzurra.

Afinal, até cara de italiano ele tem. Ou não tem?