Real Madrid demitiu Ancelotti para saciar fome por novidades

Por Rafael Reis

Ancelotti

Zygmunt Bauman é um sociólogo polonês de 89 anos, que tem sido muito estudado na academia brasileira nos últimos anos. É também o cara que ajuda a entender as razões de Carlo Ancelotti ter sido demitido do Real Madrid.

A base de sua visão de sociedade é a ideia de que empresas, instituições e até mesmo pessoas sentem, no mundo contemporâneo, uma necessidade imensa de mudanças constantes para se manterem atrativas para os seus consumidores.

Esse conceito é chamado por ele de “modernidade líquida”. Líquida como água colocada no congelador e retirada dele tão rapidamente que não houve tempo suficiente para ela se solidificar.

E nenhum clube no mundo é mais líquido que o Real Madrid.

Se o Barcelona vive da identidade catalã e o Borussia Dortmund, da fidelidade dos seus torcedores, é possível dizer que o ganha pão do Real é a novidade.

O clube é uma grande fábrica de sonhos e adora cada manchete do “As” ou do “Marca”, os dois grandes jornais da capital espanhola, que coloca algum grande nome do futebol mundial como o próximo alvo de contratação.

É dessa indústria midiática, sempre sedenta por novidades, que o Real se alimenta e prova sua grandeza. O clube é imenso a cada notícia megalomaníaca publicada, a cada sonho vendido para seus torcedores e fãs espalhados pelo mundo todo.

Não à toa, todos os jogadores eleitos o melhor do mundo nos últimos 19 anos e que não defendiam o arquirrival Barcelona acabaram sendo contratados pelo Real. É preciso alimentar essa fome de sonhos e lembrar que o clube é gigante.

E onde entra Ancelotti nessa história toda?

Vencedor da Liga dos Campeões na temporada passada e semifinalista neste ano, o italiano é um dos melhores técnicos do mundo e não tem mais nada a provar para ninguém. Pensando apenas no futebol, não deveria ter sido demitido. Mas, dentro da lógica madridista, é velho. Não em idade, mas em tempo de casa.

Depois de dois anos no clube, Ancelotti já não produzia mais notícias, já não fazia mais o clube bombar na imprensa e nas redes sociais. A ausência de títulos na atual temporada é quase uma desculpa que o presidente Florentino Pérez teve de se dar para aceitar que era a hora de mudança.

Agora, a tão desejada novidade está aí. Ao longo da próxima semana, quando Real promete anunciar seu novo treinador, a imprensa espanhola e do mundo todo irá discutir a sucessão no comando do time. Serão manchetes e mais manchetes, especulações e mais especulações ocupando um espaço que provavelmente seria destinado ao Barcelona, prestes a disputar a final da Liga dos Campeões.

Não importa que Rafa Benítez, o provável sucessor de Ancelotti, seja um treinador low profile e pouco afeito ao jogo midiático que o clube tanto gosta. Sua missão é ser novidade, é estar nas páginas de jornais e sites de internet,  nos programas de rádios e nas telas de TV. E isso tudoo Real já conseguiu.

 


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