O verdadeiro 10

Por Alex Sabino

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Na semana em que Juan Román Riquelme anunciou a aposentadoria, a melhor piada sobre o jogador foi contada pelo site satírico “En una Baldosa”. Será impossível fazer partida de despedida para o meia porque não há como montar uma equipe de “Amigos de Riquelme”. Ele não tem 11 amigos.

Ao chegar no estádio de Mar del Plata, na última quarta (28), para assistir à vitória do Boca Juniors sobre o Vélez Sarsfield, o camisa 10 foi aplaudido de pé. Em seguida, os bosteros tiveram uma falta para cobrar próximo à área. A especialidade de Román. Chiqui Pérez chutou para a arquibancada.

Tudo o que Riquelme fez nos últimos anos foi pensando no Boca Juniors. Primeiro como manter o controle no vestiário. Depois, como arrumar um jeito de voltar. Com apoio incondicional da torcida, colocou a faca no pescoço dos dirigentes para conseguir renovações de contrato. Transferiu-se para o Argentinos Juniors em 2014 para jogar a segunda divisão porque acreditava que mostraria à cartolagem de La Bombonera o que estavam perdendo. Ensaiou uma ida para o Cerro Porteño no início de 2015 por acreditar que abriria os olhos boquenses e criaria uma campanha entre os fãs que o idolatram.

“Eu sou torcedor do Boca. Não sei se eles [dirigentes] são”, cutucou após a estreia pelo Argentinos Juniors, quando jogou razoavelmente bem e fez um gol.

Foi a maneira de continuar ligado ao clube do coração. A estratégia não deu certo porque ele não brilhou em seu novo time. Ficou óbvio que, aos 36 anos, estava longe de ser aquele que reinou entre 1998 e 2009: um dos maiores jogadores da história do futebol argentino.

Riquelme pendurou as chuteiras porque não voltaria para o único lugar em que queria jogar futebol na vida.

O Boca Juniors nunca teve um camisa 10 tão bom quanto Juan Román Riquelme. José Sanfillipo acredita ter sido o maior artilheiro da galáxia e a primeira bolacha do pacote. Nunca foi nenhuma das duas coisas. Antonio Rattín marcou época, mas não conquistou títulos continentais. Diego Maradona, com a camisa azul e ouro, é fetiche. A imagem que projeta é mais importante do que o futebol apresentado em duas passagens pelo clube.

A história será generosa com Riquelme. As brigas nos bastidores, as panelas que formou e o jogo de poder no vestiário ficarão no passado. Porque o que ele mostrou em campo prova que, no final de tudo, o que vale é a obra. E o legado do camisa 10 é monumental. Pode não ser lembrado com a reverência que deveria porque jamais passou das quartas de final da Copa do Mundo. Em momentos decisivos pela seleção, teve atuações apagadas. Perdeu o pênalti que manteria viva a esperança do Villarreal de chegar à final da Liga dos Campeões da Europa de 2006.

Em parte por causa disso, as torcidas adversárias na Argentina sempre o provocaram com os gritos de “pecho frío”. Xingamento que designa o jogador que não corre, não sua a camisa, não tem “raça” dentro de campo.

“Quando você tem a bola no pé, é o melhor do nosso time. Mas quando está sem a bola, é como se estivéssemos com um a menos”,  disse-lhe Louis Van Gaal, que o comandou no Barcelona entre 2002 e 2003.

Mas foi “sem raça” que ele ganhou praticamente sozinho a Libertadores de 2007. Também foi decisivo na final do Mundial Interclubes de 2000, quando o Boca conseguiu a vitória mais épica de sua história, ao derrotar o Real Madrid no Japão. Ou na incrível atuação contra o Palmeiras na semifinal do torneio sul-americano de 2001.

Mais importante do que isso, Riquelme redefiniu a posição de “enganche”, o camisa 10 por excelência.

Como a história tem a tendência de apagar problemas menores e ressaltar o que foi importante, Román será o molde com o qual os camisas 10 argentinos serão medidos no futuro. Especialmente pelo tempo em que reinou em La Bombonera. Porque Riquelme só foi Riquelme com a camisa do Boca Juniors.

Na época dos “falsos 9”, Riquelme foi o verdadeiro 10. E se nunca foi o tipo de meia que “volta para ajudar a marcação”(característica idolatrada nos dias de hoje), era capaz de desmontar qualquer retranca com um simples passe. E quantos jogadores do futebol mundial são capazes disso?

É tão difícil que, nos últimos quatro anos, nem Riquelme foi.