Com técnico judeu, Gana peita barreira religiosa

Por Rafael Reis

Avram

Uma das 16 seleções participantes da Copa Africana de Nações (CAN), que começa neste sábado, Gana teve de derrubar barreiras que vão além das econômicas para ser dirigida pelo técnico que desejava.

Motivos religiosos quase impediram Avram Grant, 59, técnico vice da Liga dos Campeões da Europa, em 2008, de assumir o comando das “Estrelas Negras” depois da Copa do Mundo.

O treinador é israelense e judeu, o que motivou a ira da comunidade muçulmana em Gana e nos países vizinhos, seus mais corriqueiros adversários nos campos de futebol.

“Não posso negar que esse é um problema”, disse o presidente da federação ganense Kwesi Nyantekyie, em novembro, pouco antes de anunciar a contratação de Grant.

De acordo com o censo de 2010, quase 18% da população de Gana se declara muçulmana e poderia não aceitar um técnico judeu.

Entre os jogadores islâmicos estão os irmãos Jordan e André Ayew. Ambos foram mantidos na seleção depois da chegada de Grant e vão disputar a CAN.

A maior preocupação da federação, no entanto, está do lado de fora de suas fronteiras. O islamismo é a região que mais cresce na África e domina todo o norte do continente.

Sete das 16 seleções participantes da CAN são de países que a têm como principal religião. E duas estão no mesmo grupo de Gana: Argélia e Senegal.

O esporte está cheio de casos em que os problemas entre judeus e muçulmanos prejudicaram o andamento de competições.

Em 2009, a tenista israelense Shahar Peer foi impedida de entrar nos Emirados Árabes para disputar um torneio em Dubai. Nos Jogos Olímpicos de Pequim-2008, o nadador iraniano Mohammed Alirezaei se recusou a disputar uma prova em que teria de dividir piscina com outro israelense.

O próprio Grant já sentiu na pele o preço da intolerância religiosas. Três anos atrás, um time iraniano, o Sepahan, desistiu de jogar um amistoso contra o Partizan Belgrado depois de o time sérvio contratá-lo.

Gana torce para que situações como essa não ocorram a partir de agora e o futebol consiga superar essas dolorosas barreiras. E decidiu arriscar…