À procura de Jean-Marc Bosman

Por Alex Sabino

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“Olá, sr. Bosman.

Conversamos há alguns anos por e-mail para uma matéria no Brasil. Na época, usava este endereço, então tenho esperanças de que ainda esteja válido e que receba esta mensagem.

Quando trocamos e-mails (creio ter sido em 2010), estava fundando um site para vender produtos licenciados com a sua marca. Sei que não deu certo.

Alguns colegas jornalistas europeus me contaram que você tem passado por certas dificuldades. Estava pensando se não poderíamos conversar novamente. Creio que seria importante dizer o que lhe acontece ao maior número de pessoas possível. Porque sua história no futebol é única.

Espero que acredite: não tenho intenção de explorar seus problemas por sensacionalismo. Mas sabemos da sua importância para que o futebol seja o que é hoje e as pessoas deveriam receber notícias suas.

Cordiais saudações.”

 

 

A mensagem foi enviada nesses termos, após passar pelo Google Tradutor. Jean-Marc Bosman não fala inglês. A nossa capacidade de comunicação em francês é péssima.

Três dias depois, veio a resposta automática: o endereço de e-mail não existia mais.

Nos últimos dois meses, o blog tentou entrevistar Bosman. Jamais existiu personagem como ele na história do esporte. Em 1995, revolucionou o futebol ao garantir que todos os jogadores não poderiam ficar presos a um clube após o término do contrato. Foi a chave para a escalada dos salários e valores de transferências no mundo da bola.

Uma equipe não poderia mais segurar qualquer atleta contra a vontade deste. Se quisesse que ele ficasse, teria de pagar. Pagar caro.

“Você não vai conseguir falar com Bosman”, avisou o jornalista e escritor holandês Hugo Borst. “Ele não está falando com a imprensa, até onde sei.”

Repórteres belgas não tinham nenhum telefone de contato do ex-meia do RFC Liége. Nem e-mail. Disseram que, na verdade, a única forma de falar com ele era procurá-lo pessoalmente. Mesmo assim, não era garantia de entrevista. Bosman estava recluso, arredio. Com problemas.

Em agosto do ano passado, enquanto o Manchester United aceitava pagar 265 mil libras por semana (R$ 1,06 milhão a cada sete dias) para ter o colombiano Radamel Falcao por empréstimo, Jean-Marc Bosman aparecia no Tribunal Correcional de Liége para uma apelação. Pedia a revisão da pena de um ano de prisão por agressão à filha da ex-mulher. Não teve sucesso.

O crime havia acontecido em 2011. Bêbado, ele pedira à garota de 15 anos para ir ao bar comprar mais álcool. Ela se recusou. Bosman a agrediu e empurrou a mãe, sua hoje ex-esposa.

No ano seguinte, foi condenado. Não foi para a cadeia porque o juiz suspendeu a sentença por três anos, período em que o ex-jogador teria de se submeter a cursos, trabalhar voluntariamente no corpo de bombeiros, ficar em liberdade condicional e passar por exames trimestrais para provar que havia parado de beber.

“Eu tenho vergonha de muitas coisas. A bebida é um demônio. Eu estou lutando contra isso há muito tempo”, escreveu ele para nós, em 2010. Confessou que acordava todas as manhãs com as mãos tremendo. Tinha dificuldade em se olhar no espelho.

A saga começou em 1990. Bosman queria deixar o Liége e jogar pelo Dunquerque, da França, que lhe havia feito uma proposta. Apesar de estar fora dos planos do clube belga, este pediu 1,6 milhão de euros (valor atualizado) para liberá-lo, apoiado na força de que, sem a sua anuência, o meia não iria a lugar algum. Era um dinheiro irreal para times da segunda divisão. Ainda lhe cortou o salário pela metade.

Bosman entrou com processo na Corte Europeia. Venceu e o  caso virou jurisprudência para todos os outros atletas profissionais. Quando a sentença veio, cinco anos depois, sua carreira já havia acabado.

A vitória de Bosman foi uma espécie de “liberou geral” para o futebol europeu. Mas ele não aproveitou nada disso.

“Eu jamais me arrependeria do que fiz. A única coisa que lamento é que não sou mais bem-vindo no mundo do futebol. Tenho muita vontade de ir a jogos importantes, acompanhar finais da Champions League. Mas não sou convidado. Minha presença incomoda”, confessou na troca de e-mails.

Pelo visto, nada mudou nos últimos cinco anos. Bosman não recebeu nenhuma nova oportunidade no esporte. Não foi convidado para ser técnico ou dirigente. Nem para trabalhar com garotos nas categorias de base. Nada.

É uma saída muito fácil. Quase clichê. Mas ele mergulhou de cabeça na bebida. “Algumas vezes pensei se valia a pena tudo isso. Era apenas uma porta para escapar”, contou.

Na Justiça, ele tenta garantir o direito de ver os filhos, de 5 e 3 anos.

O próprio Bosman diz que se tivesse conseguido aproveitar por apenas um mês a lei batizada com seu nome, teria condições de viver confortavelmente pelo resto da vida. Porque as equipes passaram a pagar mais a seus atletas, receber fortunas em transferências e os direitos de TV foram para a estratosfera. A Premier League abriu leilão para a venda dos direitos de transmissão para três temporadas do campeonato inglês a partir de 2016. O valor pode passar dos US$ 4 bilhões.

Bosman atualmente vive de benefícios pagos pelo governo belga a acoólatras em recuperação. As duas casas que comprou nos tempos de atleta profissional foram vendidas. Uma delas para quitar impostos de investimento para a criação da “marca Bosman”. Camisetas e outros produtos que seriam vendidos online, com logotipos que apelavam à ideia de liberdade.

Ele acreditava que jogadores que se beneficiaram da sua luta o ajudariam. Ele só vendeu uma camisa, comprada pelo filho do seu advogado.

No acerto de contas para o fechamento da empresa, também teve de vender seu carro, um Porsche. Jornalistas dizem que, nos últimos anos, chegou a ser obrigado a dormir em garagens de amigos.

A curiosidade do blog é mais do que jornalística. É claro que gostaríamos de saber o que Bosman pretende fazer no futuro. O que está achando das denúncias de corrupção na Fifa. Em entender melhor como uma das personagens mais fascinantes da história do futebol chegou a esta situação.

Mas é mais do que isso. É até uma fraqueza da nossa parte. Queríamos também desejar boa sorte. Dar uma palavra de incentivo. Dizer aquelas coisas vazias que a gente sempre fala quando quer ajudar uma pessoa e não sabe como.

“Eu me alegro com o que fiz. Sei que foi importante. Eu não aproveitei. Mas foi importante”, escreveu no distante contato por e-mail.

Perguntaríamos se ele ainda pensa isso.

A FIFPro (união de jogadores de futebol profissional) pretende fazer um jogo no final deste ano em homenagem a Bosman. Se sair do papel, será em Antuérpia para comemorar os 20 anos da vitória do ex-jogador na corte da União Européia. Talvez seja o recomeço tão necessário.

Aos 45 do segundo tempo, na última semana, um jornalista amigo conseguiu um número de telefone na Bélgica.

“Dizem que era de Jean-Marc Bosman. Não sei se ainda é”, ele disse.

Resolvemos tentar assim mesmo.

Chamou. Atendeu um homem.

“Acho que você está com o número errado. Aqui não tem nenhum Jean-Marc.”

E desligou.

 

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