Quando um atacante sem ambição quase foi herói na Copa da Inglaterra

Por Alex Sabino

Telefone toca na manhã deste domingo (4), em um pub de Newcastle upon Tyne, cidade no nordeste da Inglaterra. Atende uma voz feminina.

“The Blacksmiths.”

“Oi. Eu queria falar com Robbie Dale, por favor”

“Robbie está no bar. Quem é?”

“Meu nome é Alex Sabino, eu sou jornalista da Folha de S.Paulo, no Brasil”

“Desculpe. Não entendi. De onde?”

“Eu sou da Folha de S.Paulo. Um jornal do Brasil.”

“Brasil você disse?”

“Sim.”

Silêncio.

“Espere um segundo…”

Silêncio.

“Alô.”

“Alô. É Robbie?”

“Sim.”

“Oi, Robbie. Meu nome é Alex Sabino, eu sou um jornalista brasileiro do jornal Folha de S.Paulo.”

“É sério isso?”

“Isso o quê?”

“Você é um jornalista brasileiro…”

“Sim, é verdade. Nós poderíamos conversar alguns minutos?”

“O pub está um pouco movimentado agora. Você pode ligar daqui a duas horas?”

“Claro.”

“Ok.”

Duas horas mais tarde.

“The Blacksmiths.”

“Robbie Dale, por favor.”

“É Robbie.”

“Oi de novo, Robbie. É da Folha de S.Paulo, do Brasil.”

“Minha mãe queria saber se não era um amigo meu querendo me pregar uma peça. Só achei que não era por causa do sotaque. Não é, não?”

“Não. Não é. É sério.”

Risos.

“Podemos falar agora?”

“Claro.”

“Você quase foi o herói do final de semana do futebol europeu. Fez dois gols e seu time [o Blyth Spartans], que está na sétima divisão da Inglaterra, por pouco não conseguiu eliminar o Birmingham, que está na segunda divisão e é profissional. Vocês são amadores…”

“Sim. Presumo que esta seja a graça da FA Cup (a Copa da Inglaterra), não? Você quer chegar à terceira fase para poder enfrentar as grandes equipes do país, as que estão nas divisões principais. Nós chegamos perto de nos classificar, mas acho que sentimos o jogo no segundo tempo e eles fizeram 3 a 2.”

“Você trabalha no The Blacksmiths, que é o pub da sua mãe, é isso?”

“É. Os outros jogadores do Blyth Spartans queriam sair ontem à noite para comemorar e eu tive de vir embora cedo. Tinha de abrir o pub às 11 da manhã.”

“No intervalo, o Blyth Spartans vencia por 2 a 0 graças aos seus gols. No vestiário, vocês já estavam pensando na quarta fase e em quem enfrentariam?”

“Não posso falar pelos outros. Mas é uma situação única. Quando uma equipe como a nossa vai chegar à terceira fase da FA Cup? É difícil. Eu não pensei em um próximo adversário, mas claro que passa pela sua cabeça algo como ‘e se a gente se classificar? Será histórico’”.

“E quem você gostaria de enfrentar?”

“Todo mundo que está em um time que não é profissional quer jogar contra o Manchester United em Old Trafford ou o Liverpool em Anfield. Mas não era para ser.”

“Pela imprensa inglesa e pelo que vimos em campo também, você é o melhor jogador do Spartans. Acha possível se tornar profissional no futebol?”

“Aos 30 anos? Claro que não. Nem quero, para dizer a verdade. Futebol é uma diversão para mim. Se eu sonhasse em ser profissional, teria ido atrás de testes e arrumado um empresário quando era jovem.”

“E por que não fez nada disso?”

“Acho que não me importo tanto com o futebol quanto outras pessoas. Amigos meus telefonavam para equipes, iam a treinos tentar uma vaga, mandavam cartas. Eu nunca fiz nada disso.”

“Mas nunca teve convite?”

“Tive. De vários clubes. Cheguei a ir para o Oxford United. Eles me ofereceram um contrato, mas não quis. Preferi voltar para casa. Eu não dependia do futebol para nada. Tinha o pub para cuidar.”

“Isso é estranho, Robbie. Todo garoto sonha em se tornar profissional. Você mesmo falou em jogar em Old Trafford, em Anfield…”

“Sim. Mas eu nunca perdi o sono com isso. Quando era adolescente, tinha 16 anos, cheguei a ficar dois anos afastado do futebol. Não chutei uma bola nenhuma vez por esse tempo.”

“Você, então, nunca teve o sonho de fazer um gol importante, ser campeão… Mas ao mesmo tempo, quase foi o herói de uma zebra histórica ontem.”

“Irônico, não é?”

“Não fica chateado por ter brilhado, chamado a atenção de todos e o time ter sido derrotada no final? Até mesmo o técnico do Birmingham [Gary Rowett] disse que você é um jogador especial.”

“Não. Não sei como será daqui a alguns anos, quando estiver mais velho. Posso olhar para trás e pensar no que teria acontecido se tivéssemos nos classificado. Hoje em dia, não penso nisso. Acho que sou uma pessoa tranquila demais. Aos 30 anos, eu sei que não vou jogar pelo Chelsea.”

“Nem se for convidado?”

“Ha ha. Pode ser. Aí eu pensaria no assunto. Mas não vai acontecer, vamos ser sinceros.”

“Pelo que alguns jornalistas escreveram e disseram na última semana sobre você, poderia ter obtido muito mais no futebol. Sua mãe, que é dona do pub, ou seus amigos não dizem isso?”

“Já disseram uma vez ou outra, mas acredito que a partida contra o Birmingham foi muito mais importante para o Blyth Spartans e para a cidade (Blyth) do que para mim. Eu vou continuar levando minha vida de qualquer jeito. E sou feliz assim.”

“Esses gols e a notoriedade que o time conseguiu nas últimas semanas podem torná-lo mais conhecido na região? O pub da sua mãe é em Newcastle, que é uma cidade apaixonada por futebol.”

“Espero que não. Não gosto de ser reconhecido. Não fiz nada de especial para ser reconhecido por estranhos.”

“Isso chama a atenção, Robbie. Todo jogador sonha com fama, gols, jogos em estádios lotados, dinheiro. Você não quer nada disso?”

“Dinheiro sempre é bom.”

“Sim, sim. Mas é falta de ambição.”

“Se você está falando em futebol, sim. Não tenho qualquer ambição. Eu vivi bem durante 30 anos sem ser jogador profissional. Não é porque fiz dois gols no Birmingham jogando pelo Blyth Spartans que isso vai mudar. Seria ingenuidade pensar isso. Você está falando comigo agora, mas estou no clube há dez anos.”

“Não tem mais gente da imprensa te procurando depois dos gols deste sábado?”

“Tem. Acho que vão vir ao pub mais tarde.”

“Ok, Robbie. Muito obrigado pela sua atenção.”

“Obrigado pelo interesse. Cheers.”

 

Robbie Dale