Cânticos anti-IRA são nostalgia distorcida da torcida inglesa

Por Rafael Reis

Já faz mais de uma semana que as seleções da Inglaterra e da Escócia se encontraram em campo pela primeira vez desde o plebiscito que manteve os escoceses como parte do Reino Unido. Mas o caráter especial do amistoso (vitória por 3 a 1 dos ingleses), marcado pela crescente rivalidade e tensão entre os dois países, ainda merece análises.

Por isso, o blog “O Mundo é uma Bola” abre espaço para uma visão inglesa sobre o episódio e reproduz um texto do jornalista Alasdair McKillop, do “Guardian”, sobre como as arquibancadas do clássicos foram tomadas por manifestações contrárias ao IRA, o grupo armado pró-separação da Irlanda Norte do Reino Unido.

England

 

Cânticos anti-IRA são nostalgia distorcida da torcida inglesa

Alasdair McKillop
Do “Guardian”

Os pontos mais sutis da etiqueta do futebol internacional foram avidamente desconsiderados quando Escócia e Inglaterra se enfrentaram na terça-feira (18) no estádio Celtic Park. Talvez as vaias a “Flower of Scotland” e “God Save the Queen” representassem um tributo a dois dos hinos nacionais mais chatos que existem. O mais provável é que elas fossem a confirmação das previsões de que a partida fracassaria em seguir os critérios usuais pelos quais definimos um “amistoso”.

Existem algumas partidas de futebol nas quais a cobertura da mídia, se não exatamente encoraja o mau comportamento, pelo menos garante que qualquer coisa nem que remotamente controversa receba mais proeminência do que merece. Os cânticos anti-IRA [Exército Republicano Irlandês] da torcida inglesa possivelmente servem como exemplo. Não estamos diante de torcedores que desrespeitaram os limites da opinião socialmente aceitável. Moralmente, o que eles fizeram não pode ser considerado equivalente a racismo, sexismo ou sectarismo. Mas ainda assim gerou controvérsia, e pedidos de desculpas. Depois da partida, o treinador inglês Roy Hodgson teve, diplomaticamente, de expressar decepção com os torcedores de sua equipe. É algo em que ele tem retrospecto já estabelecido, tendo escrito aos torcedores, antes de uma partida entre a Inglaterra e a República da Irlanda realizada em maio em Wembley, para pedir que resistissem à tentação de mencionar o IRA em seus cânticos.

Pode-se oferecer um par de observações. Primeiro, é notável que não estejamos falando de torcedores ingleses zoando o adversário por conta do resultado do referendo, como se poderia esperar. Segundo, e mais interessante, é difícil alegar que os cânticos tivessem por alvo a torcida adversária. O Tartan Army [apelido da torcida escocesa] talvez tenha cultivado uma imagem de ameno nacionalismo, se definindo, em parte, por oposição à reputação de vandalismo dos torcedores ingleses nos anos 80. Mas mesmo levando esse fator em conta, e computando também o referendo, os cânticos continuavam a parecer estranhos. Existe uma superficial semelhança entre os nacionalismos escocês e irlandês, mas é facilmente possível traçar paralelos inválidos. E não existem quaisquer paralelos entre o nacionalismo escocês e o republicanismo violento da Irlanda.

Em resumo, poucos dos torcedores escoceses presentes ao estádio teriam simpatia pelo IRA, não importa qual seja a posição deles quanto ao relacionamento entre a Escócia e o Reino Unido.

É provável que os cânticos tenham sido provocados mais pelo local do jogo do que pela torcida adversária. As raízes do Celtic, o time de futebol mais conhecido de Glasgow, estão na comunidade católica irlandesa da cidade, fato que é muito importante para alguns torcedores. Isso conduziu a expressões de apoio ao nacionalismo irlandês e até mesmo de apoio ao IRA, da parte uns poucos. Em dezembro, o Celtic foi multado em 42 mil libras pela UEFA depois que uma faixa da torcida comparou Bobby Sands, militante do IRA que morre em uma greve de fome em uma prisão britânica, ao líder nacionalista escocês William Wallace, em uma partida da Champions League. Antes da partida entre Escócia e Irlanda no Celtic Park em 14 de novembro, Gordon Strachan, o treinador da Escócia, se viu forçado a desmentir declarações do adversário de que para eles a partida seria como jogar em casa. É só ao reconhecermos esse contexto político e cultural que podemos tentar compreender as origens dos cânticos da torcida inglesa. É difícil imaginar que os mesmos cânticos tivessem sido ouvidos no Hampden Park (o estádio que costuma abrigar os jogos da seleção da Escócia em Glasgow).

Haverá questões sobre os motivos para que alguns torcedores do futebol inglês – a torcida do Chelsea fez coisa parecida em visitas ao Ibrox, outro dos estádios de Glasgow – ocasionalmente optem por se expressar com cânticos de oposição ao IRA, cantando “Rule Britannia” e exibindo faixas com a inscrição “nunca nos renderemos”. Será inevitável pensar no jogo marcado para o estádio Aviva, em Dublin, em junho do ano que vem. Na mais recente visita inglesa, em 1995, houve sérios distúrbios e a partida teve de ser cancelada. Ainda que não exista coisa alguma que sugira que a hostilidade atingirá nível semelhante, também parece improvável que o encontro reflita a reconciliação entre o Reino Unido e os Estados irlandeses. Alguns torcedores de futebol amam os seus estereótipos: o chamado jogo moderno ainda pode ser infectado pelo apreço da torcida por velhas batalhas.

Tradução de PAULO MIGLIACCI