O gol sem chuteira 30 anos depois

Por Alex Sabino

O gol do dinamarquês Preben Elkjaer-Larsen é mais lembrado 30 anos depois do que na época em que foi marcado.

Ele dominou a bola após cobrança de tiro de meta de Roberto Tricella e partiu em disparada. Deixou Favero sentado, cortou Cabrini e chutou rasteiro, com o pé direito sem a chuteira, perdida no meio da jogada.

Era 14 de outubro de 1984. Foi o momento que sacramentou a vitória da Hellas Verona sobre a Juventus por 2 a 0. A jogada entrou para a história com o gol “senza scarpa” (sem chuteira).

O casamento de Elkjaer com a Verona era perfeito. Não há mais atacantes como ele. O que a pequena equipe do Vêneto protagonizou naquela temporada 1984-1985 do futebol italiano, nunca mais vai se repetir.

Ele era o principal nome da seleção dinarmaquesa que seria a sensação do Mundial de 1986, no México. A Dinamáquina. Quando ninguém esperava, havia chegado às semifinais da Eurocopa de 84, em época que apenas oito seleções se classificavam para o torneio.

Fumante compulsivo, era capaz de arrancadas de tirar o fôlego. Forte, fominha, finalizador preciso, ganhou em Verona o apelido de “il síndaco”. O prefeito. Foi ele quem descobriu um bordel em Copenhagem que passou a ser chamado informalmente de “concentração” dos jogadores convocados. Era colunista de uma revista pornô. Pagava por antecipação as multas por atrasos porque sabia que não voltaria para o hotel no horário determinado. Sepp Piontek, o alemão que idealizou a Dinamáquina, conta que ninguém lhe deu tanto trabalho no futebol como Elkjaer. Certa vez, deu uma “batida” na boate em que encontraria vários dos seus convocados. Tinha certeza disso.

Logo na entrada, encontrou seu principal goleador. Abraçado a duas loiras, com uma garrafa de vodka em cada mão.

“Fica com essa, chefe. Vamos nos divertir”, disse Elkjaer, lhe oferecendo uma das bebidas, não das mulheres.

Virou uma variação da síndrome de Estocolmo. Jogador e técnico viraram grandes amigos. As duas famílias ainda viajam juntas para pescar nas férias.

Em Verona, Elkjaer foi a última peça do quebra-cabeças. Ninguém sabia disso em 1984. Mas era. Estamos falando de um tempo em que não havia Tratado de Maastrich, Lei Bosman, magnatas americanos, bilionários árabes ou cobertura incansável da imprensa. Cada clube podia ter apenas dois estrangeiros. No Brasil, foi a única temporada da Série A mostrada pela Rede Globo. A cada domingo, às 11h, era transmitida uma partida ao vivo.

O script era que seria mostrado o título da Juventus, que tinha Platini e Boniek. Ou da Inter de Rummenigge. Quem sabe, se tudo desse certo para a emissora, o primeiro lugar seria da Roma de Falcão e Toninho Cerezo. O Napoli havia contratado Maradona.

A Verona comprou, além de Elkjaer, o tanque germânico Hans-Peter Briegel. Aconteceu o milagre. A Verona foi campeã italiana pela primeira e única vez.

Comandado por Oswaldo Bagnoli, o time já era bem acertado e vinha em ascensão. A zaga era razoável e o goleiro, Claudio Garella, inseguro. Mas o meio-campo tinha o incansável Pietro Fanna, a criatividade de Di Gennaro. O ataque contava com gols de Giuseppe Galderisi.

É impossível imaginar hoje em dia um clube tão pequeno ganhando o campeonato nacional mais badalado do planeta? Seria o mesmo que ver o Southampton campeão da Premier League em 2014-2015.

Talvez por causa disso, toda vez que a equipe entra em campo no estádio Marc’Antonio Bentegodi, a curva sud, onde fica a “brigate gialloblú” pede:

“Façam-nos sonhar.”

Elkjaer se aposentou e virou comentarista eventual da televisão dinamarquesa. Ainda é festejado cada vez que volta a Verona, um clube que foi na única direção possível após obter o milagre de ganhar o scudetto: para baixo. Chegou a disputar a terceira divisão e voltou à elite na atual temporada apoiado nos gols do veterano bomber Luca Toni.

Todo aniversário do “gol senza scarpa” é lembrado e comemorado pelos torcedores. Significou algo que não vai voltar acontecer. Todos sabem disso. Não só na Itália, mas em qualquer campeonato importante da Europa, o abismo entre grandes e pequenos ficou intransponível. O máximo que times como a Hellas Verona podem almejar é dar um chute na canela do gigante e depois sair correndo para não apanhar.

É o que o público no Bentegodi espera que aconteça neste domingo (19), quando a Verona recebe o Milan. Por algum motivo estranho, inexplicável, o rossonero costuma se dar muito mal no estádio. Até em anos de desempenhos medíocres do gialloblú na Série A, o time financiado por Silvio Berlusconi saiu derrotado. Foi assim em 1997: 3 a 1. Em 1990, a Hellas caminhava para o rebaixamento, recebeu o Milan na penúltima rodada, e ganhou de virada por 2 a 1. Resultado que jogou o título nacional no colo do Napoli. Em 1973, 5 a 3, a Hellas custou ao Milan outro scudetto, beneficiando a Juventus.

“Quanti scudette avete voi?”, começa a cantar a curva sud a cada visita do Milan a Verona. ao ritmo da música religiosa “Guide me O thou great Jeovah”.

Eles mesmo respondem.

“Due di meno, due di meno”

Por causa de Elkjaer Larsen, com ou sem chuteira, os veroneses ainda sonham. E podem lembrar que, assim como o Milan, tem título de campeões da Série A no currículo.