Keane, Ferguson e o direito de saber

Por Alex Sabino

Roy Keane Testimonial Manchester United v Celtic

Quando perguntado o motivo para resolver publicar uma segunda biografia após se aposentar, em 2013, Sir Alex Ferguson deu uma resposta direta.

“Para dar um presente aos torcedores”.

Ele não precisava lavar roupa suja com ninguém em público. Já havia escrito uma obra (“Managing my Life”, em 1999). Não tinha obrigação arrumar mais confusões com a Federação Inglesa, a hierarquia do Manchester United, árbitros, Arséne Wenger, Liverpool, Seteven Gerrard e, principalmente, Roy Keane.

“A parte mais forte do corpo de Roy Keane é a língua. Ele tem a mais selvagem capacidade de ofender os outros que você pode imaginar. O que notei nele naquele dia [em que o dispensou do Manchester United) quando discutia com ele era que seus olhos começaram a ficar cerrados, quase como pequenas sementes negras. Era aterrador só de assistir…”, definiu.

Roy Keane armou o troco. Nesta quinta (9), é publicada “The Second Half”, a autobiografia do ex-volante irlandês. Bem ao seu estilo, não poupa ninguém. Absolutamente ninguém. Especialmente Ferguson.

Ele também já havia publicado “Keane – The Autobiography“, em 2002. Causara furor porque confessara ter dado um pontapé em Alf Inge Halland, então no Manchester City, de propósito. A entrada ajudou a acabar com a carreira do zagueiro. No novo livro, ele confirma o que aconteceu.

“Eu queria enterrá-lo e deixá-lo saber o que estava acontecendo. Eu queria acertá-lo e ficar do lado dele dizendo: “Toma essa, seu merda”. Eu não me arrependo. Mas não tinha intenção de machucá-lo. Foi ação. Foi futebol, cachorro comendo cachorro. Dei pontapés em muitos adversários e sei a diferença entre acertar alguém e machucar alguém. Eu não entrei para machucar Haaland. Quando você está no esporte, você sabe como machucar o adversário”.

Eles não são os únicos a acertarem as contas em publicações. A autobiografia de Paul Gascoigne, “Gazza”, é uma das obras esportivas mais brutais da história. O ex-armador da seleção inglesa confessa tudo como se fosse a coisa mais natural do mundo. É uma espécie de “São Bernardo”, de Graciliano Ramos, do mundo do futebol.

Não só no Reino Unido. A biografia de Andrea Pirlo (“Penso quindi gioco”), chama a atenção como um dos maiores jogadores de sua geração é capaz de depreciar a si mesmo, com senso de humor incomum.

O que nos leva ao Brasil. Quantos livros de ex-boleiros ou escritos sobre eles carregam tal dose de sinceridade? Revelam coisas que o torcedor não sabe, mas poderia saber simplesmente porque os clubes e o futebol em si não têm dono? São patrimônios culturais que vão além do esporte e englobam todo o país.

Poucas obras se encaixam na descrição acima.  Estamos falando estritamente de biografias. Para deixar claro. “Estrela Solitária”, de Ruy Castro, feito à revelia da família de Garrincha, e “Casagrande e seus Demônios”, colaboração de Casagrande com Gilvan Ribeiro, são duas das exceções que apenas confirmam a regra. Normalmente, as biografias de jogadores no Brasil são inexistentes ou tentam preservar uma aura de invencibilidade da personagem.

Não há livro de verdade sobre Pelé, que fale o lado bom e ruim do Rei. Porque todos têm lados bons e ruins.  Vale o mesmo sobre dezenas dos maiores jogadores da história de um país que ganhou cinco Copas do Mundo. Em entrevista dada à ESPN Brasil, em dezembro de 2002, Emerson Leão disse não ter interesse em publicar uma biografia porque não teria nada a contribuir com o futebol.

É uma visão que vai no lado oposto a de Ferguson. É acreditar que o mundo da bola é um feudo e que as pessoas não têm o direito de saber tudo o que de certo ou errado aconteceu e que foi testemunha. E trata-se de um dos maiores goleiros da história do Brasil. Campeão no México em 70 quando era garoto, uma voz discordante da Democracia Corintiana, com passagens, seja como jogador ou técnico, em praticamente todas os grandes clubes do país.

“Eu liguei para Mark Hughes. Robbie [Savage, ex-volante] não estava sendo aproveitado no Blackburn e perguntei a Mark se nós poderíamos fazer uma negociação. ‘Sim, sim, ele perdeu espaço aqui mas ainda pode ser útil para você’. O fôlego de Robbie já não era o mesmo, mas achei que ele poderia vir para o Sunderland com seu longo cabelo e nos dar um impulso – do mesmo jeito que Yorkie [o atacante Dwight Yorke] havia feito. Uma personalidade forte no vestiário. Sparky [apelido do Hughes] me deu permissão e liguei para o celular de Robbie. Caiu na caixa postal: ‘Oi, é Robbie… Whazzup!’, do mesmo jeito que o comercial da Budweiser. Nunca liguei de novo. Pensei: ‘Eu não posso contratar um merda desses.”, escreve Keane na sua nova biografia.

Falta menos senso corporativo nos jogadores brasileiros. São melindrados, cientes de uma suposta celebridade e invencibilidade que não têm. Eles poderiam ser mais importantes se dissessem o que realmente pensam. Porque as pessoas que amam o futebol merecem saber.