O DJ da festa

Por Alex Sabino

Monaco's Falcao and his agent Mendes watch a soccer match between Monaco and Lille from the tribune at Louis II stadium in Monaco

 

Em 2010, um dos quatro telefones celulares de Jorge Mendes tocou. Do outro lado da linha, Peter Lim, empresário de Cingapura, dizia querer ter uma conversa com o agente.

Quando ouviu que o bilionário pensava em investir em jogadores, Mendes o estimulou, mas plantou outra ideia na cabeça do magnata. Antecipando o que seria uma decisão tomada pela Fifa quatro anos mais tarde, avisou que poderia ajudá-lo, mas que era questão de tempo para empresas serem banidas de terem participação em direitos econômicos de atletas.

“Por que você não compra um clube?”, sugeriu.

Lim sondou algumas possibilidades no futebol britânico. Pensou em adquirir a Internazionale de Milão.

Não deu em nada. A semente começou a crescer em julho de 2014. Mendes azeitou a transação em que a Meriton Holdings, conglomerado de Lim, comprou o Valencia, da Espanha. “Consultor”, aconselhou a diretoria a dispensar o argentino Juan Antonio Pizzi e contratar o português Nuno Espírito Santo como técnico.

Foi um longo caminho para Jorge Mendes, o empresário de futebol mais poderoso do planeta. Na última janela de transferências, entre 1º de julho e 1º de setembro, ele intermediou 345,4 milhões de euros (R$ 1,06 bilhão) em transações de jogadores. Com uma comissão padrão de 10%, faturou 34,54 milhões de euros. São R$ 106,5 milhões.

Mendes acertou as vendas de James Rodríguez para o Real Madrid (80 milhões de euros, R$ 246,6 milhões), Ángel Di María para o Manchester United e Radamel Falcao para o Manchester (135 milhões de euros no total, R$ 416,1 milhões, sendo que o valor do colombiano será sacramentado em caso de compra definitiva pós-empréstimo, em julho de 2015), Diego Costa e Filipe Luís para o Chelsea (65 milhões de euros, R$ 200,3 milhões). Apenas para ficar nas mais caras.

O conselho que deu a Lim foi o mesmo que ofereceu à Doyen Sports. A multinacional sediada em Malta já começou a negociar atletas em que tem participação. Dois exemplos foram o lateral argentino Marcos Rojo, vendido pelo Sporting (POR) para o Manchester United (ING), e o zagueiro francês Eliaquim Mangala, que deixou o Porto (POR) para defender o Manchester City (ING). Mendes também levou seus serviços de consultoria à Doyen, além de ser o administrador da carreira de Mangala.

Metade dos convocados da seleção portuguesa para a Copa do Mundo deste ano eram agenciados pelo mega empresário.

A percepção de que a maré poderia mudar na relação do futebol com empresas donas de direitos econômicos de jogadores não o impediu de colocar seu nome em documento recomendando companhias a colocarem dinheiro em fundos de investimento sediados em paraísos fiscais. A bolada serviria para adquirir atletas agenciados pelo próprio Mendes, segundo o jornal inglês “Guardian”. Pelas regras da Fifa, o empresário é proibido de estar nas duas pontas do negócio. Não pode administrar a a carreira do atleta e, ao mesmo tempo, ter participação ou ligação com quem vai comprá-lo. De acordo com o diário britânico, ele é “conselheiro” de cinco fundos de investimento.

“Jorge sabe tudo o que está acontecendo no futebol e o que vai acontecer. Está o tempo todo ligado, não se desconecta nunca, não relaxa. Eu não sei se gostaria de ter este tipo de vida que ele tem”, afirma o ex-atacante Luizão. Ao lado do ex-meia Deco, ele abriu um escritório que representa Mendes no Brasil.

A rotina é a mesma. Toda semana, sem falha, o português telefona. Quer saber se há algum jogador que vale a pena ser observado. Ou pede para que os “parceiros” descubram mais informações sobre algum garoto.

Foi assim que ficou sabendo do lateral Fabinho, que estava no Rio Ave (POR), foi emprestado ao Monaco (FRA) e acabou na seleção brasileira de Dunga.

“Se você lhe diz que algum jogador é bom, ele faz questão sempre de saber mais. Está sempre interessado. Procura as oportunidades e sabe muito de futebol. Mais do que a maioria das pessoas, para dizer a verdade”, opina o empresário argentino Eugenio Lopez, que fechou com Mendes a venda de Di María.

Meio de brincadeira, meio a sério, o português já disse passar 20 horas por dia ao telefone.

“Ele conhece todas as pessoas que são importantes no mundo do futebol. Todas”, completa Luizão.

 

REI DA DISCOTECA

Em 1996, Jorge Mendes não conhecia ninguém. Era um jogador frustrado de pequenos clubes de Portugal.

Não queria mais saber de entrar em campo e abriu uma discoteca em Caminha, cidade de 17 mil habitantes no distrito de Viana do Castelo. Era também o DJ da casa.

Começou a empresariar jogadores usando as características pessoais que mantêm até hoje. As mesmas que o fazem ter sucesso: o charme pessoal, a insistência e a capacidade de colocar uma ideia na cabeça do interlocutor.

“Se ele quiser te convencer de uma coisa, vai fazê-lo. Pode ter certeza. Após cinco minutos falando contigo, é capaz de perceber como chamar sua atenção”, afirma Baltemar Brito, brasileiro ex-auxiliar-técnico de José Mourinho no Porto, Chelsea e Internazionale.

O primeiro cliente foi um goleiro reserva do Vítória de Guimarães que frequentava a discoteca: Nuno Espírito Santo, o mesmo que, 18 anos depois, ele indicaria ao Valencia do seu “novo amigo” Peter Lim.

O atleta não deu muita atenção quando o DJ prometeu lhe conseguir um novo clube. Apenas concordou.

Sem nenhum contato, Mendes viajou para a Espanha e insistiu, durante 14 dias seguidos, para o presidente do La Coruña, Augusto Cesar Lendorio, que Espírito Santo seria um bom reforço. O Deportivo pagou 2 milhões de euros (em valores de hoje) para contratar o goleiro, que ficou apenas uma temporada no clube, jogou quatro vezes e acabou dispensado.

“O que eu mais lembro é que ele era persistente. Não aceitava resposta negativa. E estava sempre impecavelmente vestido”, afirma Lendorio, que nunca explicou que argumentos Mendes usou para convencê-lo.

A porta se abriu para o novo agente. Feliz da vida com a transferência e mais ainda porque Mendes se recusou a receber a comissão pela venda, Espírito Santo passou a indicá-lo a colegas. A receita continuava a mesma. Ir à discoteca, conversar, ficar amigo e aceitá-lo como empresário.

Ele não demorou a ganhar fama no mercado. No início apenas restrito ás fronteiras de Portugal. Até que José Mourinho começou a se destacar no Porto.

“Acho que é justo dizer que o Mourinho mudou a carreira do Jorge Mendes da mesma maneira que a carreira do Mourinho foi mudada pelo Mendes”, completa Brito.

Jorge Baidek, ex-defensor do Grêmio, era o empresário do treinador quando o Porto galopava para ganhar a Champions League de 2004. Mourinho cravou seu nome como uma força emergente na Europa ao correr toda a lateral de Old Trafford para comemorar o gol de Costinha que eliminava o Manchester United nas oitavas de final.

Baidek acertou tudo com o Liverpool e seu cliente substituiria o francês Gérard Houllier em Anfield. Mourinho havia lhe dito que queria trabalhar na Inglaterra. Comentário que chegou aos ouvidos de Mendes.

Ele não era o agente do técnico. Não conhecia até então Roman Abramovich, mas sabia que o dono do Chelsea procurava um líder para sua equipe. Conseguiu concretizar o casamento entre as duas partes naquele mesmo ano. No meio desse caminho, adicionou Mourinho a carreira de clientes da Gestifute, empresa que criou para administrar carreiras no futebol. Estreitou os laços com o magnata russo dono do Chelsea. Como sempre faz.

Tem sido uma das parcerias mais produtivas do futebol mundial. Em todos os sentidos. Entre o time londrino (duas passagens), Internazionale e Real Madrid, os clubes dirigidos por Mourinho pagaram 183 milhões de euros por atletas agenciados por Mendes.

Ele se acostumou a vender. Mostra o mesmo espírito do garoto que ganhou fama fazendo comércio de produtos (qualquer um) na Feira da Ladra, em Lisboa. Antes disso, oferecia na praia as alcofas e chapéus de palha que a mãe fazia.

“Jorge chegou em um estágio tamanho que atrai jogadores. Os melhores querem trabalhar com ele. Porque sabem o que podem conseguir. Veja o caso do Cristiano Ronaldo”, explica Luizão.

O atual melhor jogador do mundo é a galinha dos ovos de ouro de Mendes. O caso sempre citado (por ele e por outros) sobre como cuida de todos os detalhes da carreira de um cliente. Até com as férias de Ronaldo ele se preocupa nos mínimos detalhes. Em 2007, quando CR7 estava entediado em Nova York, ligou para o agente pedindo ajuda. Disse querer ir para outro lugar. Em 15 minutos, Mendes reservou um resort no Guarujá (litoral de São Paulo) e comprou as passagens para o jogador. Ligou para o volante Anderson (também seu cliente) e o instruiu a ir buscar Ronaldo no aeroporto e levá-lo para o hotel.

Jorge Mendes é padrinho do filho de Cristiano Ronaldo. É uma relação de pai, filho e milhões. Apenas com contratos de publicidade do atleta (sem contar comissão de transferências), o empresário já faturou 60 milhões de euros em comissões (R$ 185 milhões).

A palavra dele vale muito. Até mais do que deveria, às vezes. Fez o Manchester United investir 8 milhões de libras (R$ 31,6 milhões em valores atuais) em um atacante português que ninguém nunca havia ouvido falar. Deixou “vazar” a “informação” que o Real Madrid estava interessado. Não estava. Era Bebé, que nunca emplacou, foi emprestado para três equipes e acabou negociado com o Benfica.

Durante os 62 dias em que a janela para transferências internacionais está aberta na Europa, os quatro telefones de Jorge Mendes não param um segundo. Se ele quiser ter uma conversa mais demorada com alguém, precisa desligar os outros aparelhos.

No último dia 2, largou todos. Arrumou as malas e viajou de férias por duas semanas, ao lado da mulher Sandra (funcionária da Gestifute) e dos cinco filhos, três de um casamento anterior. Os únicos dias de descanso que tem no ano. Nada mal para quem, nos dois meses anteriores, embolsou R$ 106,5 milhões e consolidou ainda mais sua posição como o maior empresário do futebol mundial.